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TECNOLOGIA

Pesquisa analisa mudanças com a internet em comunidades rurais de Parintins

Estudo quer entender como as tecnologias digitais reformulam a configuração espaço-temporal e as relações dos habitantes 19/10/2017 às 17:08
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Foto: Divulgação
acritica.com Manaus (AM)

Uma pesquisa desenvolvida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas (Fapeam) busca compreender quais são as mudanças geradas com o uso da internet por meio de dispositivos móveis (celulares e sistemas de wi-fi) entre jovens na comunidade rural Caburi, localizada a 60 quilômetros no município de Parintins, no Amazonas.

O estudo tem a intenção de entender como o celular conectado à internet interfere na geração de novas práticas comunicacionais dos moradores da comunidade, após a implementação do projeto Cidade Digital, em 2006, no município, que possibilitou a inserção de Parintins na era da conexão digital sem fio.

A pesquisa, que teve início em 2015, é realizada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em parceria com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e também conta com o apoio da Universidade de Londres (UCL), por meio do projeto Global intitulado - Why We Post (Por que nós postamos?). O projeto realizado em 8 países, nos anos de 2015-2016, busca entender os usos e as consequências da tecnologia, da internet e das mídias sociais na vida das pessoas.

Transformações

Segundo a coordenadora do estudo, a doutoranda em Comunicação pela UERJ Soriany Neves, o cenário em que as praças se constituíram como ambiente de mídia no município sofreu transformações no acesso por seus habitantes, principalmente, por populações jovens.

A pesquisadora conta que no município, durante as idas ao campo, e por meio de um questionário online, foi constatado que atualmente o local que eles mais acessam a internet é de suas casas. Por outro lado, essa realidade no município criou a expansão dessa lógica de acesso à internet por Wi-Fi aos ambientes das comunidades rurais, que até então sequer passaram pelo sistema de telefonia fixa.

Dessa forma, a pesquisa pergunta: em que medida e por quais aspectos essa tecnologia wi-fi redimensiona e reconfigura os usos e sentidos de habitar esse espaço? Tanto nas interações sociais cotidianas no âmbito de suas relações familiares no círculo pessoal de amigos da família, empreendido e firmados na esfera da vida offline, quanto à percepção de si nesse espaço em relação à cidade, possibilitadas agora com as conexões que eles fazem com seus amigos de áreas urbanas.

Nova dinâmica de relações

De acordo com a microanálise da pesquisadora, foi constatado que os jovens que habitam o contexto da Amazônia percebem mudanças na sua experiência subjetiva neste ambiente, não a ponto de anestesiamento frente à realidade, mas percebem que o wi-fi traz outra dinâmica nas relações dentro e fora da comunidade.

Outro ponto que a pesquisadora destacou é que o telefone celular é uma condição para estar informado e ter entretenimento. E que a natureza desta mídia, ao se caracterizar na possibilidade de se fazer múltiplos arranjos midiáticos, expressão utilizada por Vinícius Pereira, professor doutor da UERJ,faz jus à preferência pelos jovens e ainda o caráter da multi-sensorialidade do dispositivo parece ser um dos componentes que faz os jovens da Ilha compartilharem das linguagens transitórias, com tamanha identificação e intimidade na contemporaneidade.

Dinâmica cultural

De acordo com a pesquisadora Soriany, durante o estudo, uma jovem da comunidade relatou que a Internet se torna, a cada dia, uma necessidade para as famílias da localidade e que é incorporada de igual forma como tais bens de consumo dentro da própria dinâmica cultural. Ela conta também que a maioria dos jovens no vilarejo ouve rádio, assiste TV e à noite costumam acessar wi-fi em funcionamento na vila para falar com amigos e familiares fora da comunidade, que antes as pessoas não saiam quase das suas casas, mas com a internet as pessoas começaram a sair mais.

“Podemos afirmar que a Internet já está incorporada à prática social e cultural dos moradores da vila, sobretudo dos jovens, em muitos aspectos. A maioria dos avaliados fala da internet do vilarejo de forma positiva de um modo geral. Vimos nos relatos todo um cenário em transformação, mas que não atua no sentido de acabar com as tecnologias de ordem analógica, como por exemplo a voz comunitária. A experiência social tradicional ao modo de vida em um ambiente com interfaces (através do qual o usuário consegue, usando um computador, interagir com um programa ou com um sistema operacional). Entre o urbano-rural, à primeira vista, não se apresenta por meio de conflitos de identidades com a chegada das tecnologias digitais móveis, embora as populações tradicionais deste espaço se reconheçam apenas como jovens, ao invés de jovens ribeirinhos”, acrescentou.

Benefícios

Os principais beneficiados com o estudo, que tem previsão para ser concluído em 2019, são os jovens rurais e urbanos da cidade, afirma a pesquisadora. Segundo ela, eles poderão compreender melhor os efeitos dessas tecnologias no seu cotidiano, seja apontando possíveis apropriações e desvios dos dispositivos móveis na produção de subjetividades, bem como para instituições como universidades e outras organizações que queiram compreender tais dinâmicas e as mudanças que as tecnologias geram na cultura e no espaço da Amazônia.

Cidade Digital

A pesquisadora Soriany conta que, no Estado do Amazonas, a emergência de novas formas de acesso às tecnologias digitais, por meio da banda larga, ocorreu em 2006 no Município de Parintins/AM (350 km de Manaus por via fluvial) com implantação de wi-fi em duas praças públicas.

A iniciativa desse trabalho inaugurou a criação de territórios que trazem informações para uma cidade que até então o acesso à internet se dava de forma restrita, por provedores locais, por meio de radiofrequência, ou acesso discado. A cidade é uma das primeiras do Brasil com a implantação de tecnologias sem fio pela prefeitura e iniciativa privada, por meio do projeto de Cidade Digital em 2006.

A pesquisa partiu do contexto de inserção, neste caso as praças, que neste ínterim se configuraram como praças digitais e que assumiram como locais de sociabilidades emergentes mediadas por celulares, o que fizeram delas atrativos para o fortalecimento e interações sociais na contemporaneidade”, contou a pesquisadora.

Apoio Fapeam

“Sem dúvida a concessão de bolsa da Fapeam é muito importante, tendo em vista o fortalecimento da pesquisa no Amazonas e a formação de docentes com maior qualificação para atuação em institutos e instituições públicas. As instituições e a sociedade ganham com isso pela elevação do nível de conhecimento e qualidade científica e técnica da formação de novos pesquisadores e de outras pesquisas no Amazonas”, finalizou Soriany.

*Com informações da assessoria de imprensa