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Manaus
CRIANÇAS EM PERIGO

Abandono de incapaz: maioria dos casos são cometidos por pais que foram em festas

Pais que deixam filhos sozinhos para irem a festas lideram os registros de abandono de incapaz em Manaus 11/04/2018 às 08:55 - Atualizado em 11/04/2018 às 09:12
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No último dia 1º, uma mãe foi presa por deixar os filhos sozinhos, por mais de 24 horas, enquanto saiu para beber. (Foto: Arquivo/AC)
Joana Queiroz Manaus (AM)

Pais que deixam os filhos sozinhos para ir a festas: esse é o principal motivo para os casos de abandono de incapaz registrados em Manaus, conforme a titular da Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca), Juliana Tuma.

Quase todos os dias, a Polícia Militar e os Conselhos Tutelares da capital recebem ligações denunciando abandono de menores de menores de idade em situação de risco. No ano passado, de acordo com os dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (SSP-AM), foram registrados 245 casos de abandono de crianças na capital. Um crescimento de 13,4% em relação a 2016, quando foram registrados 216 casos. Só nos três primeiros meses desse ano já são 50 registros de abandono.

De acordo com a delegada, os casos de abandono de incapazes em Manaus são frequentes e os números podem ser maiores que os oficiais, se forem considerados os casos que não chegam à delegacia. Em muitas situações, além de serem deixadas sozinhas em casa, crianças vão sozinhas para a escola e isso também configura abandono.

Juliana Tuma afirma que a maioria desses abandonos não é em razão dos pais saírem para trabalhar. Eles acontecem, ressalta a delegada, porque os pais saem para se divertir e acham que nada vai acontecer com os filhos. Foi o que aconteceu no último dia 1º no bairro Novo Israel, Zona Norte, quando uma mulher de 18 anos saiu de casa pensando em voltar “rapidinho”, mas, como ela é dependente química, ficou mais de 24 horas fora e, enquanto isso, os filhos ficaram sozinhos trancados num quarto.

O caso, que chamou bastante a atenção da população e que chocou até quem é acostumado a lidar com situações de violência extrema, aconteceu no domingo de Páscoa, quando a mãe foi presa pelo abandono. 

As duas crianças, um menino de um ano e seis meses e outro bebê de um mês, foram encontradas por policiais militares da 18ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom) sem roupas e sujas de fezes, conforme a soldado Milanne de Paula, que ajudou no resgate das crianças. Segundo a policial, os dois estavam trancados em um quarto escuro e sem ventilação. Eles estavam sozinhos em casa desde o sábado anterior, após a mãe ter saído para beber.

“Nesse caso, as crianças foram encaminhadas ao pai. Mas existem casos que a gente tem que acolher a criança porque ninguém da família tem condições, ou ela vai para o serviço de acolhimento do Município, ou para a rede ‘Acolher’, que são as instituições beneficentes e filantrópicas que existem na cidade”, destacou Juliana Tuma.

Incapazes na calamidade

Na quarta-feira da semana passada, uma criança deficiente de oito anos foi encontrada em situação de abandono após denúncias de vizinhos ao Conselho Tutelar da Zona Sul da capital, no bairro Petrópolis. A mãe da criança, uma dona de casa de 30 anos, foi presa em flagrante por abandono de incapaz e maus-tratos.

De acordo com informações da conselheira Cristiane dos Anjos, a menina estava sozinha desde a noite anterior e tinha formigas dentro dos ouvidos e da boca. “Quando chegamos ao local, por volta das 8h, a criança estava na cama e o rosto dela já tinha vários machucados causados por formigas”, relatou.

O capitão da Polícia Militar Alberto Neto, que comanda a 26ª Cicom, na Zona Norte da cidade, está desde janeiro nessa área e disse que nesses três messes, no conjunto Viver Melhor, já atendeu duas ocorrências de abandono de menores que foram denunciados por vizinhos. “Elas estavam em estado de calamidade, grande falta de higiene, sem alimento. Elas estavam sozinhas há vários dias”, contou o policial militar.

Vizinhos denunciam

O coordenador-geral dos Conselhos Tutelares, Márcio Menezes, disse que a maioria dos abandonos ocorre de bebês até crianças de cinco anos.  Os abandonos são denunciados por vizinhos, que se sentem incomodados com a situação, já que os pais na maioria das vezes deixam os seus filhos para irem a festas.  As justificativas são diversas. Dizem que saem para trabalhar, para procurar emprego ou para conseguir alimentos.

Blog

Rebeca Mendonça de Lima, juíza da Infância

“Aqui no juizado nós tratamos dos casos de crianças e adolescentes que passam por situações de riscos e vulnerabilidade que sofrem maus tratos e abandono, uma serie de mazelas que são previstas no próprio Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Assim que tomamos conhecimento pelo Conselho Tutelar ou pelo Ministério Público, é instaurada uma medida de proteção em favor dessas crianças. Quando chegam aqui na vara, esses pais inicialmente negam o abandono e justificam dizendo que estão desempregados e que saíram para procurar emprego ou porque são dependentes químicos ou dependentes de álcool. E a gente acaba vendo que, na maioria dos casos, o que tem por trás disso é uma desestrutura familiar. Os pais devem atentar que a criança não pediu para nascer, que no momento que se gera um filho, que seja feito com o mínimo de responsabilidade. E que sendo pais, ele se esforcem para cumprir as obrigações, que são o sustento, a guarda e a educação”.

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