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Manaus
ÁGUAS DE MARÇO

Pesquisador adverte sobre perigos de convívio com água 'doente'

Na próxima quarta-feira será celebrado mais um dia mundial sem que o Amazonas tenha feito o dever de casa 18/03/2017 às 05:00
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Márcio Silva
Isabelle Valois Manaus (AM)

O pesquisador Sérgio Roberto Bulcão Bringel adverte que a população manauense está exposta a sérios problemas de saúde pública de origem hídrica pelo  convívio diário com águas “doentes”.  Trabalhando no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) nos últimos 45 anos, ele realizou pesquisas de hidrogeoquímica nas principais bacias de Manaus e confirmou a contaminação delas  em Manaus.

O principal motivo desta contaminação é a ausência  de saneamento básico na maior parte da cidade e o velho costume de jogar lixo e dejetos nos igarapés. “Manaus é uma cidade que não  tem saneamento básico, mas o prior problema é a falta  tratamento. Sem ele  não cumpro as exigências  na lei do saneamento básico, que prevê  a coleta e o tratamento”, afirma o pesquisador. “A cidade pode até ter a coleta, mas o tratamento não há. Se tivermos 5% de tratamento é muito”, completa.

Entretanto, para o pesquisador, o dinheiro investido  para realizar  esses 5% de tratamento é totalmente jogado fora, pois ele afirma que toda a água que passa pelo procedimento acaba em algum momento se misturando com a água poluída e se contamina novamente. “Não está surtindo efeito este tratamento, essa é a verdade. Os órgãos públicos precisam buscar soluções para esta situação, pois o problema é sério e há anos não se resolve. Está na hora do próprio Ministério Público se envolver no caso e não deixar continuar essa gravidade”, comentou.
Adoecimento
Com base no 45 anos de trabalho com pesquisas envolvendo a hidrogeoquímica, Bringel revela preocupação com as doenças. Há dois anos, o Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia) divulgou o resultado da pesquisa de Patrícia Puccinelli que  encontrou em fezes de crianças manauenses o “gemy circular vírus”, que é  comum nos países africanos. Este tipo de vírus  causa diarreia, paralisia das pernas por até duas semanas e pode levar à morte e apareceu em crianças internadas em unidades do Sistema Único de Saúde que apresentavam  a diarreia.

Conforme Bringel, a presença do vírus é relacionado com a falta de uma estrutura de saneamento básico. “Nossas águas são totalmente contaminadas por coliformes fecais. Por isso que esse vírus tem se feito presente em Manaus. Mas, mesmo com todo esse desastre, afirmo haver uma solução”, disse, otimista. “Claro que não temos como retornar ao paisagismo de antes, porém podemos chegar a ter as águas limpas novamente. O problema todo está no meio como o problema ou solução tem sido tratada. Hoje cuidamos primeiramente da nascente e seguimos para a foz dos igarapés, o correto seria fazermos o inverso”, avaliou o pesquisador, um dos mais respeitados nessa área.

Prosamim é só paisagístico

Para  Sérgio Roberto Bulcão Bringel, o Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim) é  uma ação governamental que visa modificar  o paisagismo com a construção de casas ordenadas. 

“Nesse aspecto de mudança do paisagismo, o programa até cumpre com o compromisso, mas no aspecto ambiental, para o qual  foi destinado, em nenhum momento cumpriu. O Prosamim deveria promover a recuperação dos igarapés como também recuperar o processo natural do ambiente, mas isto não é feito”, avalia.

Conforme Bringel, as intervenções promovidas  modificaram completamente o ambiente natural. “Hoje temos igarapés  cobertos e não temos como saber quais procedimentos ocorrem nesta localidade. Por outro lado, os dejetos continuam a ser lançados nesses igarapés e consequentemente se destinam a bacia do rio Negro. No âmbito ambiental, nada melhorou. Toda essa água não recebe nenhum tipo de tratamento. Então nesse aspecto, o programa não está cumprindo com a obrigação”, reforçou.

O pesquisador acredita em na possibilidade de mudança para  reverter a situação. Mas, para isso Bringel reforça o dever do poder público em cobrar soluções.

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