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Alta taxa de acidez no Rio Negro só permite banhos de até meia hora, diz engenheiro ambiental

Apesar de existir risco à pele, a acidez atua como um controlador de vetores, o que pode pode justificar a quase inexistência do vibrião colérico em regiões banhadas pelo rio mais simbólico de Manaus 26/04/2015 às 17:57
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A acidez das águas do rio Negro é monitorada pelas faculdades de Engenharia Ambiental e Fisioterapia da Fametro, que recomendam cuidados aos banhistas
Nelson Brilhante Manaus (AM)

Se medirmos o PH (potencial de hidrogênio) de um limão, o grau de acidez é de aproximadamente 2,2. O mesmo teste, feito nas águas do rio Negro, em horário de muito sol, registrou em torno de 4,2. É um nível muito alto, mesmo considerando que na escala (que vai de 0 a 7), os valores sejam invertidos, ou seja, quanto mais próximo de zero, mais ácido. Conclusão: a acidez de um limão é apenas duas vezes maior que a do rio Negro. De acordo com o professor de Engenharia Ambiental da Faculdade Metropolitana de Manaus (Fametro), Sérvulo Furtado, entre os rios brasileiros de água preta, o Negro é um dos que possui mais acidez.

Saber se isso é bom ou ruim é uma questão muito relativa. Nesse nível, se o banhista permanecer “de molho” por mais de 30 minutos, pode ter problemas na pele. Por outro lado, é essa acidez que pode ter impedido uma contaminação catastrófica, quando um carregamento de Azodrin, inseticida letal para humanos, teve 229 tambores diluídos nas águas do Negro, por conta de um acidente.

O monitoramento vem sendo feito desde 2012, pelo Departamento de Engenharia Ambiental da Fametro. “Como os valores médios observados durante quatro anos de monitoramento são entre 4,5 e 5,3 podemos considerar a taxa de hidrogênio muito alta”, afirma Furtado.

Ele, que coordena o monitoramento, faz um alerta aos banhistas, por considerar que o aspecto ambiental anda lado a lado com qualquer atividade humana em ambiente aberto. “Com essa acidez elevada da água do rio Negro, se o banhista permanecer por muito tempo dentro d’água, ela pode prejudicar a pele, principalmente em função da incidência solar. Se a pessoa está pegando sol há bastante tempo, sem protetor solar, o recomendado é que banhe-se primeiro com água da torneira antes de entrar no rio. Depois, quando sair, deve fazer o mesmo”, aconselha o engenheiro.


O nível de acidez independe de o rio estar seco ou não. Na enchente, a acidez tende a aumentar pela presença de árvores dentro d’água, portanto, mais decomposição de matéria orgânica. Já na seca, como o volume de água diminui, a acidez também aumenta porque a concentração dos microrganismos fica maior.

Bactérias

“O grupo de microrganismos é extremamente influenciado pela acidez da água. As bactérias, por exemplo, pouco resistem a um nível de PH como o do rio Negro. O ideal para elas se desenvolverem é água com PH acima de 6,5, ao contrário dos fungos, que toleram baixo nível de hidrogênio”, completa o engenheiro.

Os rios de água barrenta, clara ou esverdeada não possuem tanta concentração de matéria orgânica, principal responsável por baixar o PH da água.

Resistência comprovada

Em 1969, um bimotor da petrolífera norte-america Shell transportava uma carga de 288 tambores de Azodrin, inseticida altamente tóxico e letal para humanos, com destino a Trinidad e Tobago, no Caribe. O piloto se perdeu e passou a planar até cair sobre o rio Negro, próximo à embocadura do rio Branco.

Passados 11 anos, o geólogo Fred Cruz, atual superintendente do Departamento Nacional de Pesquisas Minerais (DNPM), encontrou, acidentalmente, o piloto do bimotor em Santa Elena, na Venezuela, que revelou o fato (até então desconhecido) e o conteúdo da carga. Colaborador de A CRÍTICA, Fred formou parceria com o jornalista Castelo Branco e os dois iniciaram uma grande perseguição investigativa e de cobrança popular pelo desvendamento do caso.

Em 1993, a rede de um pescador engatou na aeronave. Pressionada, a Shell trouxe 17 mergulhadores do Rio de Janeiro para retirar o que poderia ter sobrado, 24 anos depois da queda. Encontraram 59 tambores intactos e 229 violados pela corrosão e completamente vazios. Foram quase três toneladas de veneno derramados no rio (cada tambor, com 11,34 Kg). Entretanto, nunca houve nenhum registro de contaminação no rio Negro.