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Manaus
DESCASO

Antigo espaço de lazer, igarapé do Tarumã sofre cada vez mais com a poluição

Com o passar dos anos, aliado à omissão do poder publico e à falta de consciência da população, o local foi ficando cada vez mais poluído 09/07/2017 às 05:00
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Foto: Winnetou Almeida
Álik Menezes Manaus (AM)

Há pouco mais de 30 anos, o igarapé do Tarumã era um dos locais mais frequentados pelos manauenses nos fins de semana e feriados. Com o passar dos anos, aliado à omissão do poder publico e a falta de consciência da população, o cenário, que antes era considerado paradisíaco, foi ficando cada vez mais poluído e se tornou motivo de preocupação para os moradores mais antigos do Tarumã, na Zona Oeste, e os ambientalistas.

A cozinheira aposentada Rosilda Silva, 85, lembrou saudosa da época em o igarapé era palco de momentos felizes de famílias amazonenses. Ela trabalhou em três restaurantes próximos da ponte da AM-450, antiga avenida do Turismo, onde as pessoas se reuniam para se divertir e lembra como o igarapé  era limpo. “Era tudo muito lindo, a água limpa, não tinha sujeira, as pessoas tomavam banho e se divertiam bastante. Hoje está de fazer dó, está tudo imundo, catinga forte”, contou.

Rosilda também lamentou a forma como os igarapés de Manaus vêm sendo tratados ao longo dos anos pelo poder público e pelos próprios moradores que jogam lixo e animais mortos dentro dos igarapés. “Eu fico muito triste em ver as pessoas jogando de animal morto até carcaças de geladeiras aí dentro, mas não são só moradores daqui não, tem lixo que vem descendo de outros bairros e tem gente que para o carro aqui e joga sacos de lixo lá para dentro. É uma tristeza e os governantes também não fazer nada. Tenho medo de isso tudo se acabar de uma vez”, disse.

A comerciante Alexandra Nascimento, 34, contou que tomou banho no igarapé até os 15 anos de idade e foram os melhores anos da vida dela, mas com a ação humana e a falta de ações dos governos, o igarapé do Tarumã está fadado a ficar apenas na memória dos moradores mais antigos. “Nós éramos muitos felizes naquela época, vivíamos dentro da água, não tinha essa de poluição, eram tempos maravilhosos, mas a natureza está se acabando com tanta poluição e omissão”, contou.

Alexandre disse que os irmãos dela ainda saem para pescar em uma área não poluída do igarapé, mas o lixo têm formado uma barreira que impede a navegação. Garrafas pet, carcaças de geladeira, isopor e animais mortos se unem a vegetação e formam uma barreira de lixo e  dificulta a travessia. A cada remada, os moradores puxam lixo e mais lixo. “É um horror, o lixo está cada vez maior. Lá para dentro ainda tem partes bem limpinhas, que é onde eles pescam, mas até isso está ficando difícil”.

Professor sugere três ações duras

Para o mestre em ciências florestais e ambientais Rogério Fonseca, três ações pontuais deveriam ser iniciadas visando a redução da poluição na bacia do Tarumã. Segundo ele, a primeira é a reordenação de ocupações na Zona Norte da cidade. “Existem essas ocupações? Existem, então a gente precisa taxar essas pessoas, elas invadiram e não pagam imposto, precisam pagar”, disse Fonseca.

A segunda medida, e mais polêmica, seria retirar essas pessoas de algumas áreas e fiscalizar para que novas invasões não ocorram. “É preciso desoupar mesmo porque Manaus merece crescer, mas de forma ordenada. Precisa ser consciente e ter uma fiscalização pesada para coibir porque tem um reflexo lá na frente com a falta de saneamento e coleta de lixo”, explicou.

A terceira medida seria a criação de parques e reservar ao longo da bacia do Tarumã. A última e mais complexa, na avaliação do especialista, é a implantação de rede de tratamento de esgoto. “Implantação de uma rede de tratamento é necessária, mas é a parte mais cara desse processo todo. Cara, mas indispensável”.

Projeto de Arthur Neto ‘encalhou’

Em maio de 2013, o Prefeito de Manaus, Arthur Neto (PSDB), anunciou a recuperação do Parque Cachoeira do Tarumã. O projeto previa a recuperação da mata ciliar - a vegetação que margeia o igarapé - e, principalmente, a recuperação da água que está completamente poluída há pelo menos 30 anos. Passados quatro anos, o projeto não saiu do papel e não há qualquer perspectiva de que vá.

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) informou que projeto foi apresentado em junho de 2013 à, em uma reunião no Palácio do Planalto, então  presidente Dilma Rousseff (PT). Depois dessa reunião, o projeto de recuperação foi encaminhado para o Ministério do Meio Ambiente (MMA), mas até hoje não teve os recursos liberados para a sua execução.

Um Tietê da floresta

O nível de poluição é tão grande em algumas épocas do ano que colunas de espuma se formam por toda a extensão do igarapé do Tarumã. A CRÍTICA flagrou o fenômeno pela última vez em setembro do ano passado. Na época, o artesão Carlos Silva disse que, apesar dessa cena ser frequente para quem mora no local, o descaso com o meio ambiente incomoda os moradores. “Quando eu era criança, brinquei muito nessa cachoeira. Agora está nessa condição, totalmente imprópria para o banho”, comentou ele.