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Arcebispo de Manaus, Dom Luiz Soares Vieira, fala sobre aposentadoria

Arcebispo  de Manaus há 20 anos, o paulista de Conchas  pretende entregar a carta de renúncia a Bento XVI no próximo dia 2 de maio ao completar 75 anos 07/04/2012 às 15:19
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"Minhas raízes agora estão aqui", declara dom Luiz a respeito do que fará após a aposentadoria
Milton de Oliveira Manaus

No próximo 2 de maio, o arcebispo Metropolitano de Manaus, dom  Luiz Soares Vieira,  completa 75 anos  e aproveitará a data para entregar sua carta de renúncia (aposentadoria) ao papa Bento XVI, um dever dos bispos diocesanos conforme  normas que regem a vida interna da Igreja Católica, o Direito Canônico.

A substituição de dom Luiz talvez aconteça somente no próximo ano. Durante o período que antecede a sucessão, ele continuará à frente da Arquidiocese de Manaus como arcebispo metropolitano, fará um relatório completo da situação da igreja manauense e poderá indicar três nomes para sucedê-lo.

Dom Luiz tomou posse como pastor do rebanho da Igreja Católica, em Manaus, em janeiro de 1992. Após 20 anos de trabalho, está chegando a hora de “descansar”. Segundo ele, o caboclo amazonense ensinou-lhe a ser menos reservado, a ter mais paciência e saber esperar.

Essa é sua última celebração de Páscoa como arcebispo de Manaus?
Tudo indica que sim, porque no dia 2 de maio é meu aniversário, então eu entrego a minha carta de renúncia ao Papa. E, naturalmente, vai haver um tempo para buscarem um sucessor, um processo que pode durar, às vezes, dez meses, um ano. Portanto, não saberia dizer se vai ser logo ou não. Mas, possivelmente o ano que vem, teremos outro arcebispo. Mas temos de ter tranqüilidade, porque eu não sei o que vai acontecer como conseqüência da entrega da minha carta.

Durante os seus 20 anos à frente da Arquidiocese de Manaus, aconteceram fatos polêmicos, em nível mundial, relacionados a sacerdotes da Igreja Católica, como os casos de pedofilia. Como o senhor enfrentou tudo isso aqui?
Realmente essa problemática da pedofilia foi uma bomba para a igreja no mundo inteiro. Nós não esperávamos que isso fosse possível acontecer, principalmente com sacerdotes. Por outro lado, sabemos que na sociedade há muitos casos de pedofilia.

Mas, não imaginávamos que houvesse padres capazes de cometer crimes de pedofilia. E, por se tratar de crime, a Igreja não pode ser conivente de maneira alguma. Se acontecer isso, nós temos que tomar medidas concretas.

Em Manaus foi uma benção para mim não ter casos dessa natureza. Mas tivemos consequências, porque muitos padres locais ficaram envergonhados e muitas pessoas pensavam que todos os padres eram pedófilos.

Nos últimos 20 anos, o senhor acredita que a Igreja Católica perdeu terreno para os protestantes? E como estão as vocações locais?
O avanço deles é um fato. Antes a religião era cultural e todo mundo era católico porque os pais, a família era toda católica, embora alguém não viesse à igreja, ou seja, era um catolicismo cultural. Hoje, o mundo mudou e as pessoas são conscientes da sua liberdade e eles escolhem a própria religião. Isso é muito bom.

Então, nós perdemos muita gente, mas temos hoje, comunidades muito vivas e esse foi o ganho para nós católicos. Isso significa que estamos passando para um catolicismo de convicção, de pessoas conscientes que trabalham.

Sobre o problema de vocações, realmente nós tivemos uma grande dificuldade com jovens de Manaus, devido a problemas familiares, que dificultaram o surgimento de novas vocações. Mas, este ano, teremos a ordenação sacerdotal de pelo menos seis novos sacerdotes. Eu acredito que para os próximos anos, teremos um bom número de novos padres.

O que o senhor pensa fazer quando obter a permissão do Papa para se retirar?
Quando o Papa nomear o meu sucessor, talvez no ano que vem, eu pretendo ficar um período ausente de Manaus, para deixar o novo arcebispo à vontade. Depois, eu pretendo voltar, porque eu não tenho mais raízes de onde eu vim. Minhas raízes agora estão aqui. Faz 28 anos que eu deixei a diocese de Apucarana, no Paraná, onde eu era padre e minha família é de Botucatu, no interior de São Paulo. Então, eu vou para o Paraná, ajudar um padre e, depois, voltarei para ajudar algum padre em Manaus.

O que significa para o senhor ter participado em assuntos sociais locais?
Nós somos cristãos e cidadãos. Não podemos ser bons cristãos se não formos bons cidadãos. Então, nós temos que entrar nessas lutas sociais, estando do lado do povo. Claro que houve iniciativas locais que deram certo, outras não deram certo, como o conselho de ética. Mas houve outras iniciativas que funcionaram. Agora, quando eu regressar para a cidade de Manaus, eu pretendo dedicar mais tempo a esses assuntos, porque estarei mais livre e poderei fazer mais.

Qual é a mensagem de um arcebispo de 75 anos ao seu rebanho?
Nunca perder a esperança. A Igreja e as pessoas têm que ser um sinal de esperança para o mundo de hoje. Um sinal também, do amor de Deus, ter um coração de Deus. E lembrar que o amor de Deus se manifesta por meio de nós. Além da esperança e o amor, não perder a fé. Essas são as três virtudes teologais.