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Manaus
Espaço público

Arte circense na faixa de pedestres coloca em risco a vida de quem trafega ali?

É arriscado atravessar uma faixa de pedestres enquanto artistas circenses fazem malabarismo com facas, bastões e fogo? Eles dizem se cercar de todos os cuidados com os transeuntes 15/05/2016 às 04:40 - Atualizado em 15/05/2016 às 17:36
Paulo André Nunes Manaus (AM)

A ocupação das faixas de pedestres por malabares vem dando dor de cabeça em quem precisa usar este equipamento urbano diariamente pelas ruas da cidade. O principal temor é que, durante o manuseio, um artefato ou centelhas de fogo atinjam a cabeça do transeunte.

Proprietário do comércio “Frango Bem Gostoso” há 37 anos, César Oliveira, 68, vive na pele a questão dos malabares entre a rua João Valério e avenida Constantino Nery. Ele afirma que há uma clara “invasão de espaço público do cidadão”. “Deveriam procurar outro meio de vida. Eles ficam deitados... Às vezes trazem os filhos, crianças que ficam por aí jogadas. Acho um absurdo, mas fazer o quê, não é mesmo?”, reclama o comerciante.

“Todos os malabares e ambulantes usam instrumentos cortantes, que batem, com cabos, bolas, e ficam no meio dos carros, passando. Pra nós não prejudica tanto porque eles vêm mais à noite, mas ficam nos semáforos, pedindo dinheiro, e o pessoal fica buzinando. Eu nem ligo mais. O que me incomoda é essa gritaria. Eles dizem que a rua é pública. Tudo bem, mas prejudica a gente”, contou o comerciante, preferindo não ser fotografado para não sofrer, segundo ele, “represálias”.

O cruzamento da rua Pará com a avenida Djalma Batista, no Vieiralves, é um dos pontos mais movimentados da cidade e preferido dos malabares. Nele, o professor universitário Kennedy Bechara costuma atravessar pela faixa de pedestre diariamente com sentido ao trabalho. E diz ter temor de ser atingido pelos trabalhadores de rua.

“Acho o que eles fazem perigoso, principalmente quando eles utilizam fogo, pois pode resvalar em nós. Mas até outros objetos podem nos atingir. O que eu faço é, quando atravesso na presença deles, me desvio para não ser atingido, por exemplo, por facas”, comentou, ressaltando que o local “não é propício para os malabares trabalharem”.

“Representa risco e alguns atrapalham na faixa de pedestre”, salienta o autônomo James da Silva Carvalho, 50.

Apreensão

A auxiliar administrativo Cristielly Matt, 18, conta sentir apreensão quando passa ao lado de um malabar na faixa de pedestre da Pará com Djalma Batista. Segundo ela, o temor principal é mesmo ser atingida pelo fogo. “Sempre me desvio quando algum deles trabalha com o fogo. O fogo pode cair em cima de nós. Entendo que é o modo de vida deles, mas representa perigo”, destaca ela.Euzivaldo Queiroz

Malabares dizem ter cuidados

Boa parte dos malabares de Manaus é formada por estrangeiros que passaram pelo circo em seus países. Eles disseram se cercar de cuidados com os transeuntes.

“Sempre tomo cuidado quando equilibro meus objetos. Nunca ninguém reclamou. Mas eu já deixei uma clava cair sobre a minha cabeça”, relata o venezuelano Argenis Avismendi. “Em um dia bom eu arrecado cerca de R$ 50”, conta ele, que é malabare de dia.

O colombiano Liv Rojas e sua esposa, a argentina Rosario del Boca, atuam na rua Maceió, próximo ao cemitério São João Baptista, sempre à noite. Eles se defendem ao serem questionados do perigo das suas clavas incendiárias. “Não é perigoso. Quando as pessoas passam perto a gente se afasta para não atingí-las”, diz ele.

Depoimento

“Às vezes, alguns malabares, flanelinhas e vendedores fazem essas coisas nas ruas para ganhar dinheiro e consumir drogas. Mas a maior parte dessas pessoas são os limpadores de vidro de carro, que são intransigentes, brigam com os donos do veículo, jogam água, deixam ensaboado, e se acham no direito de ficar reclamando, gritando e chamando palavrões para nós. Ainda não vi nada cair na cabeça de um transeunte. Já vi cair no chão, eles trabalham com fogo, ficam em frente do carro. Tá certo, é um meio de vida, mas está prejudicando todo mundo”, disse o comerciante César Oliveira.