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Manaus
EDUCAÇÃO

‘Atividades extraclasses são insuficientes’, dizem pais e professores contrariando Semed

Informação de que uma série de atividades extraclasse é realizada nas 492 escolas municipais pela Semed foi contestada pelos pais dos alunos 20/10/2017 às 07:15
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Sem atividades extraclasse e às vezes sem aulas, alunos são liberados mais cedo. (Foto: Márcio Silva)
Silane Souza Manaus (AM)

Professores e pais de alunos da rede pública de ensino de Manaus contestam a informação de que uma série de atividades extraclasse é realizada nas 492 escolas municipais pela Secretaria Municipal de Educação (Semed), como afirmou a pasta ao jornal A CRÍTICA, nesta semana, ao ser questionada sobre a Lei 2.243/2017, que estimula o estudo dirigido e  que foi sancionada pelo prefeito Artur Neto (PSDB) no último mês. A Semed informou, ainda, que a lei apenas “normatiza” um trabalho que já é realizado.

Mas a autônoma Maria de Jesus Cuipe, 45, conta que, para complementar o aprendizado do filho Lucas Cuipe Uchôa, 9,  ela precisa desenvolver diversas atividades em casa para que tenha um desempenho melhor, visto que o ensino na escola pública municipal onde ele estuda é deficiente, na avaliação da mãe. De acordo com ela, a unidade não oferece atividade extraclasse, não costuma mandar tarefa para casa e os alunos, muitas vezes, têm aulas suspensas devido a ausências dos educadores. 

Maria afirma que o menino, que cursa o 4º ano do ensino fundamental na Escola Municipal Manuel Ferraz de Campos Sales, na Zona Oeste, aprendeu a ler em casa e aprimorou a escrita por meio de tarefas de caligrafia passadas até hoje por ela. “Eu compro e faço tudo o que posso porque ele vai para o 5º ano e precisa saber das coisas. Se depender só da escola, isso não acontece, pois lá o aluno tirando nota 5, média para passar, e está ótimo, não há estímulo nenhum”. 

A secretária executiva Katiuscia Mota, 37, que tem uma filha de seis anos cursando o 1º ano do ensino fundamental na Escola Municipal Raimundo Nonato Magalhães Cordeiro, na Zona Norte, também afirma que a unidade onde a filha estuda não oferece atividades extraclasse e, muito pelo contrário, os alunos ficam apenas na sala de aula e ainda são liberados cedo. “Por causa de problemas na unidade eles não cumprem nem a carga horária que é exigida por lei”, disse. 

Nada de novo

Uma professora que atua na rede pública municipal há sete anos e que não quis se identificar por temer represália disse que desconhece, como programa ou ação da Semed, a prática do estudo dirigido sob a modalidade extraclasse, como prevê a Lei 2.243/2017, ou qualquer outras atividades relacionadas. “A única coisa que temos são as tarefas para casa que nós mesmos damos orientação. Mas nada relacionado a estudo dirigido, aulas que deem condições para o aluno aprender melhor”. 

Prefeitura alega que já oferece atividades

A Secretaria Municipal de Educação (Semed) informou que a rede municipal de ensino realiza uma série de atividades extraclasse, nas 492 escolas,  envolvendo os aproximadamente 240 mil alunos da rede, tanto em unidades da zona urbana, quanto da zona  rural ribeirinha e rodoviária. 

Segundo a Semed, entre essas atividades estão os clubes e matemática, que contribuem para o ensino da disciplina; implantação de hortas escolares, em que os alunos têm contato com a Educação Ambiental; projetos de incentivo a leitura como o “Viajando na Leitura”, entre tantos outros trabalhos. 

A pasta afirma que, dessa forma, “a Lei 2.243/2017 vem para normatizar um trabalho que é realizado pela Semed que, a partir de agora, vai elaborar um regimento interno para padronizar essas atividades, sem nenhum tipo de ônus extra para a secretaria”.

Vontade política para ‘tirar ideia do papel’

Na avaliação do professor Lambert Melo, membro do Sindicato dos Professores e Pedagogos de Manaus (Asprom/Sindical), a Lei 2.243/2017 é positiva    e, se implantada totalmente, pode melhorar o desempenho dos alunos.  O problema é que o projeto pode ser mais um a ficar no papel e servir como “propaganda” para a Semed, disse.

Segundo ele, muitos projetos são aprovados, mas na prática o que determinam não acontece como deveria ser. “Um bom exemplo disso, aprovadas algum tempo atrás, são as aulas de informática. A lei diz que elas fazem parte da grade da Semed, no entanto, nem  20% das escolas da rede têm laboratório de informática na sua parte física e as que contam com essa estrutura não têm 50% funcionando de verdade, com professores contratados para trabalhar isso na escola”, declarou.

Sobre o programa de reforço escolar que a Semed diz oferecer para toda a rede, Lambert diz que ele acontece de forma incipiente. “Na verdade, é um projeto que existe apenas para justificar gasto de dinheiro”.

Professor sendo transformado em ‘agilizador’

O estudo dirigido é uma técnica fundamentada no princípio didático de que o professor não ensina, e sim é o agilizador da aprendizagem, ajudando o aluno a aprender. Entre outras características, incentiva a atividade intelectual do aluno, intensifica a descoberta de seus próprios recursos mentais, facilitando nele o desenvolvimento das habilidades e operações de pensamento significativas, como identificar, selecionar, comparar, experimentar, analisar, concluir, solucionar problemas, aplicando o que aprendeu.

Nova lei prevê estudo dirigido

A Lei 2.243/2017, que implanta o estudo dirigido nas escolas da Secretaria Municipal de Educação (Semed) sob a modalidade extraclasse, é oriunda do Projeto de Lei (PL) 065/2017 de autoria do vereador Professor Gedeão (PMDB), que foi apresentada neste ano, com base em pesquisas sobre melhorias do desempenho dos alunos nas escolas municipais.

Segundo Gedeão, o “Ensino Dirigido” é um modelo de ensino que segue as diretrizes da educação oriental, a exemplo da franquia Kumon, e tem como propósito disciplinar a forma de aprendizagem do aluno por meio e um estudo autônomo. A técnica japonesa trabalha o aprendizado do aluno de forma mais autônoma e transforma o professor em “agilizador de conhecimento”.  

Para o vereador, este é um método que pode revolucionar o sistema de educação do município e criar uma sociedade com alunos que apreciem a prática do estudo. “O material do método Kumon é auto instrutivo e não há aulas expositivas nem explicações. O aluno é estimulado, durante todo o curso, a desenvolver sua própria capacidade de raciocínio diante dos diversos desafios que o material didático oferece”, disse.

O autor da lei afirma ainda que esta nova prática de ensino pretende fazer o aluno perceber a capacidade de aprender por si só, transformando-o em autodidata, tornando o professor um orientador e deixando o método autoritário de lado. “O  aluno, por si só, seja lendo, pensando ou resolvendo seu material com suas próprias forças vai avançando por meio do estudo autodidata”. 

Quanto à contratação de profissionais especializados para ministrar as aulas, o vereador sugere que os próprios professores da rede passem por um curso de aperfeiçoamento nessa nova técnica, que servirá de grande enriquecimento curricular e melhorará a aprendizagem de seus alunos.