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BR-319: retrato do desprezo

Rodovia criada sob o signo do Brasil desenvolvimentista encontra-se em grande parte imprestável para o tráfego 28/08/2012 às 07:06
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Afonso Lins, do Dnit, verificou pessoalmente o estado lastimável da BR-319
RENATA MAGNENTI Manaus

Inaugurada em 1973, durante o regime militar, a BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, esteve a todo vapor até meados da década de 80. Desde então ficou abandonada. Hoje, metade da rodovia está recuperada, enquanto a outra metade é o retrato do desprezo. Pouco mais de 400 de seus 877,4 quilômetros estão tomados por buracos. Ao longo dessa rodovia existem 120 pontes de madeira em péssimo estado de conservação, o que torna a trafegabilidade  mais difícil e arriscada.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) afirma que está disposto a viabilizar a recuperação total da estrada. Porém, entraves com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) paralisam a execução da obra, que hoje demandaria R$ 1,3 bilhão. Cada quilômetro recuperado responde por um investimento de R$ 1,5 milhão.

Risco

Em alguns trechos da rodovia, o perigo é iminente devido às condições das pontes erguidas em trechos dela rompidos com a enchente. No km 250, por exemplo, há uma cratera em que os “guardiões” da estrada tiveram que fazer um desvio. Guardiões é a forma como são chamados os funcionários da Embratel pelos moradores da rodovia. Eles (os guardiões) precisam transitar nela para fazerem a manutenção no cabo de fibra ótica entre Manaus e Porto Velho.

Nos extremos entre essas duas cidades, a rodovia está trafegável. No “miolo” dela, num trecho de aproximadamente 400 quilômetros, é que a situação é crítica. O Dnit-AM diz que está trabalhando para atender aos requisitos exigidos pelo Ibama para a liberação da BR-319 para reparos.

O Ibama agora quer estudo de impacto ambiental sobre a  fauna e a flora em dois períodos distintos: verão e inverno. O superintendente do Dnit, Afonso Lins, disse que há dois anos o órgão apresentou ao Ibama o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (Eia/Rima). “Eles não aceitaram o documento, alegando que falta detalhes como estudos de fauna e flora nos períodos de verão e inverno e, agora, estamos lutando para fazer os estudos. E espero que não haja um novo entrave ambiental”, disse.

Por seu lado, o Ibama informou que a recuperação da BR-319 está interrompida por que o Dnit ainda não apresentou os estudos aos quais se referiu Lins. Este informou que o Dnit abrirá uma licitação em  caráter de pregão e dentro de 15 dias deve apresentar o nome da vencedora. “Quero fazer o estudo de verão ainda este ano e ano que vem concluímos o de inverno. Com a licença ambiental do trecho central em mãos devemos reabrir, oficialmente, a BR-319 no prazo máximo de dois anos”.

Empresários a favor da reabertura

A BR-319 serviu por cerca de dez anos como alternativa logística para o escoamento da produção do Polo Industrial de Manaus (PIM). “Levávamos grande parte das motos e eletroeletrônicos aqui fabricados para o Sudeste e Sul do País. Só não levávamos bens com alto valor agregado, à época, relógios”, disse o vice-presidente da Federação da s Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Nelson Azevedo.

Ele ainda tem esperança de que a BR-319 volte a ser transitável. Embora, ainda ouça em tom dissonante a voz da ex-candidata a presidente da república Marina Silva que diz “não” a reabertura da rodovia. “É no mínimo estranho que ambientalistas sejam contra uma rodovia que já impactou no passado e que não deve impactar agora. São esses pensamentos que nós mantém no isolamento”, disse  Azevedo.

Essa também é a opinião do diretor da Federação das Empresas de Logística, Transporte e Agenciamento de Cargas da Amazônia (Fetramaz), Raimundo Augusto. Segundo ele, um contêiner leva de dez a 12 dias para ser transportado de Manaus para São Paulo nos modais fluvial e rodoviário e o custo é de aproximadamente R$ 12 mil. 

Pela BR-319 se economizaria metade do tempo gasto e se chegaria a São Paulo em cinco dias, com redução no custo atual do frete de até 20%.

 A vida nada fácil na rodovia

O casal paranaense Maria e José Cordeiro se instalou na BR-319, na altura aproximada do km 300, há 30 anos. “Estávamos morando no Mato Grosso e trocamos nossa casa de lá por esse terreno no Amazonas. Nunca tinha vindo para cá e como o negócio já tinha sido feito, ficamos por aqui”, disse dona Maria do Vestidão, como é conhecida pelos trabalhadores da Embratel que sempre a visitam.

Ela conta que a vida não é fácil para chegar até o município mais perto, o Careiro Castanho, são mais de cinco horas sob uma motocicleta que a família tem. Energia elétrica não há, somente se queimar diesel. Mas sai muito caro, já que duas horas de energia corresponde a R$ 3 equivalente ao valor que pagam no combustível. “Mas eu gosto daqui. Sabe? Tenho meus porcos e galinhas e assim nos sustentamos, pois eu não gosto de peixe. Faço farinha também, mas bom seria se tivéssemos a rodovia para eu poder comercializar o produto”, acrescentou Maria.