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Manaus
Lazer dia e noite

Brincadeira de empinar papagaio de papel vira sensação nas noites de Manaus

Tradicional brincadeira tem milhares de adeptos que escolheram a noite, em vários campos da cidade, para brincar livremente de segunda a sábado; cidade tem associação com cerca de 1.600 filiados, mas entidade fala em 30 mil 16/04/2016 às 15:47 - Atualizado em 17/04/2016 às 00:09
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Visão do campo do conjunto Canaranas, na Zona Norte, que reúne muitos brincantes de pipas sempre nas noites de terça-feira / Fotos: Antonio Lima
Paulo André Nunes Manaus (AM)

A febre dos papagaios de papel em Manaus é tão grande que, há pouco tempo, a grande novidade é que a brincadeira não acontece apenas de dia, com sol e vento à vontade, mas sim também à noite, com os “pipeiros” aproveitando a brisa noturna para empinar livremente.

E uma das coisas mais curiosas é que, com perdão da licença poética, “ao dia você pode brincar de pipa à noite”. É isso mesmo, pois a atividade conta com uma programação onde, de segunda a sábado, um bairro da cidade recebe os brincantes, de várias idades. Na segunda-feira, os locais são os campos dos conjuntos Santos Dumont e do Suplanzão (Petrópolis); terça no Canaranas; quarta no Armando Mendes (campo do lado da feira); quinta na Avenida do Samba (próximo ao Sambódromo) e Japiim; sexta no campo do Cean (São Francisco) e Tancredo Neves; e sábado em várias localidades como o Mutirão.

Segundo Fabian Lima dos Santos, 36, um dos precursores da inédita atividade e presidente da Associação Manaus Pipa, estão cadastrados junto à entidade cerca de 1.600 pipeiros. No entanto, ele estima que haja mais de 30 mil pessoas diretamente ligadas à atividade em toda a cidade. Por fatores de segurança, a Manaus Pipa não recomenda pipas nas ruas (para não machucar ninguém).

Fora a programação semanal, a entidade organiza um festival por mês em cada localidade onde há a prática noturna, com rua isolada para o trânsito, com autorização de órgãos legais como Manaustrans e com total segurança, garante o dirigente. No próximo dia 24, por exemplo, o festival chega ao bairro da Praça 14 de Janeiro.

Um dos locais mais tradicionais são os dois campos de futebol do conjunto Canaranas, na Zona Norte, que recebe cerca de 2.500 pessoas sempre às terças-feiras e já começam a ser chamados de “pipódromos”.

De pai para filho

O técnico em eletrônica Ney Farias, 36, sempre traz o filho Guilherme Menezes de Freitas, de 6 anos para o campo do conjunto Canaranas. “Meu tios me levavam desde os 9 anos de idade para brincar lá na Compensa, e eu acabei pegando gosto. E agora estou passando para o Guilherme, pois vejo que é uma brincadeira onde as crianças gostam muito em vez de ficar fazendo outras coisas que não prestam”, comentou ele, morador do Novo Aleixo, e assumindo ser um “gana” (gíria do mundo do papagaio para os fanáticos pela brincadeira).

Ele ressalta que, apesar da diversão, quem empina deve brincar com sabedoria, para evitar acidentes como

Guilherme ainda dá as primeiras flechadas (sinônimo de empinadas), mas vê-se que leva jeito. “Gosto mais de levantar o papagaio”, diz o pequeno, correndo para “levantar” a pipa.

Do Rio para Manaus com alerta

O preparador de goleiros carioca Guanair Conceição, 50, observa que, se por um lado os Estados do Sul como Rio e São Paulo têm a facilidade para comprar produtos como o papel e as linhas próprios para fazer a pipa, por outro Manaus tem a maioria dos brincantes noturnos.

“Lá fora é só no verão; aqui é no ano inteiro, até na época de chuva. Se não estamos em 1º, certamente somos o segundo entre os brincantes”, destaca ele, que é dono da marca de pipas “D’Guana”, que traz a frase “Da Guana Pipas informa: não solte pipas perto da rede elétrica” carimbada em cada papagaio.

Pelo Brasil

O Amazonas também conta com representantes em competições nacionais de pipa pelo Brasil. No Campeonato Brasileiro da modalidade, Fabian de Lima e o veterano Leon Silva são dois representantes locais (o último, aliás, conquistou uma das etapas do nacional em dezembro do ano passado). Fabian Lima viaja na próxima quinta para disputar dois campeonatos em São Paulo, entre eles uma das etapas do Brasileiro.

Um dos projetos futuros da Manaus Pipa é trazer uma das etapas da competição nacional para a capital em outubro, tendo como “palco” a balsa do Porto do São Raimundo.

O Mundial da modalidade acontece no Chile, considerado o berço da pipa e a expectativa é que o Estado tenha representantes que ainda serão definidos.

Lei Municipal proíbe cerol e linha chilena

Está em vigor a Lei Municipal 1.968/2015, de autoria do vereador Francisco da Jornada, que proibe o armazenamento, transporte e distribuição do cerol (mistura do vidro moído com cola, que gera o líquido que deixa as linhas cortantes) e da linha chilena de óxido de alumínio e silício ou qualquer material cortante utilizado para empinar pipas. A proibição não vale para locais próprios, como os campos conhecidos como “pipódromos”.

Vendedor trocou o Pólo Industrial pelas pipas

O ex-industriário Raimundo Nonato da Costa, de 44 anos, há 24 decidiu que vender papagaio seria o melhor para a sua vida. Há 15 ele lida exclusivamente com esse tipo de comércio ao lado do campo do conjunto Canaranas.

Apesar de não falar em cifras, ele conta que é das pipas que tira seu sustento, da esposa e de mais 5 filhos, sendo que com duas delas foi o primordial para custear a faculdade particular. Cada pipa custa R$ 2 e a média de vendas gira entre 1.000 e 1.200 semanais.

“Hoje vender papagaio é a minha vida. Deixei de enriquecer o bolso dos outros para ter uma renda mais razoável”, explica ele.

Paixão de mãe para filho já na barriga

A paixão pelas pipas  já está influenciando até os bebês que ainda nem nasceram. Pelo menos é o que garante a estudante Maria Nadine Lemos da Costa, 17, que está grávida de 7 meses. “Meu menino já é um apaixonado pela brincadeira do papagaio de papel”, diz ela, que não escolheu ainda o nome do bebê, mas já sabe o sexo.

A própria Nadine , que é moradora da Cidade Nova, empina pipa desde a infância, mesmo sofrendo a resistência dos meninos do bairro, que sempre acharam estranho ela em meio a eles. “Aos 12 anos eu já gostava de brincar. As pessoas diziam que isso era coisa de menino. Eu não respondia nada”, declarou ela.

Língua da tribo

Papagaio – Modelo de pipa amazônico

Pipa – Nome do modelo de pipa dos Estados do Sul

Quedar –Ter a linha cortada no ato de trançar

Flechar – Movimentar a pipa

Embiocar  – Descer a pipa

Trançar –  A disputa entre dois pipeiros no ar

Gana –  Fanático pela brincadeira

Penoso – Que não quer trançar

Em números

R$ 2 é o preço tabelado unitário de um papagaio de papel em Manaus, mas há modelos de R$ 5, R$ 7 e até R$ 10. O saco de din din com cola e vidro para pilar que, unidos, geram o proibido líquido cortante cerol, custa R$ 3.