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Manaus
REFLEXÃO

Pobreza, exclusão e desemprego são realidades comuns na cidade de Manaus

No Dia Mundial da Justiça Social, celebrado na última terça (20), a reportagem entrevistou personagens que não tiveram o que "comemorar" 21/02/2018 às 16:55
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Tiago Agostinho de Souza, 31, perdeu as contas dos anos em que está em situação de rua. Fotos: Winnetou Almeida
Paulo André Nunes Manaus (AM)

A situação de pobreza, exclusão e desemprego existentes em Manaus nem de longe fizeram lembrar que, no último dia 20, foi “comemorado” o Dia Mundial da Justiça, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para enfrentamento a essas desigualdades sociais. Muitos não têm nada o que festejar, e sim lamentar.

Na fila do Sistema Nacional de Empregos (Sine), na avenida Joaquim Nabuco, a parintinense Sabrina Pimentel de Souza, 18, e a manauense Sara Alves, 20, eram o exemplo da desilusão que campeia entre várias pessoas: elas estavam desde às 1h da madrugada na fila, e era nítido a frustração por não conseguirem inserção no mercado de trabalho após três meses de exaustiva procura.

A interiorana terminou os estudos na Ilha Tupinambarana, e em seguida veio a Manaus tentar a sorte. “Já vim umas cinco vezes aqui e nada; dizem que não há vaga disponível. Cheguei a trabalhar na área de produção no Distrito (Polo Industrial de Manaus-PIM), cheguei a ficar lá por dois meses e meio, mas a empresa quebrou o contrato comigo e eu quero voltar”, disse ela. “É muito triste, o País está passando por uma crise, mas não é possível estar aqui desde às 1h e não ter nada para nós”, disse a jovem da Cachoeirinha, Zona Sul.

Já Sara era vendedora em um shopping da cidade, foi demitida e está à procura de uma vaga também no setor de produção industrial. No seu caso, ela não vive sozinha: é mãe e mora com mais cinco familiares. “Ficar sem emprego é muito preocupante, pois todos nós queremos melhorias e arrumar dinheiro para se manter. A esperança é a última que morre”, disse ela, da Zona Leste, sem querer revelar em qual bairro reside. 

Os amigos Flávio Lomas da Silva, 42, e Cláudio Ferreira de Aguiar, 24, também estavam na mesma situação na fila do Sine-AM. No entanto, o primeiro já tenta emprego há mais de quatro anos como montador. E nada, por enquanto.

“Aqui no Sine-AM tem que chegar cedo. Estou desde às 4h, já havia muitas pessoas e peguei a ficha número 315”, disse ele, pai de uma filha de 13 anos e que reside com a mãe na área do Prosamim do Igarapé de Manaus, no Centro. “Tá cada vez mais difícil. Se não fosse a minha mulher trabalhar eu já teria morrido de fome”, relata ele que, mesmo em face da dificuldade, estampa um sorriso no rosto. “Temos que sorrir, né? Com tristeza nada vai pra frente”, contou ele, sentado na lateral de entra do Sine.

Vulnerabilidade

Na área de risco do igarapé do São Jorge, mais precisamente na rua Raimundao Moraes, a jovem estudante Karol Araújo, de 19 anos, contou as agruras que passa ao morar na palafita. Sua família é exemplo de pessoas em vulnerabilidade social: a habitação é apenas uma das localizadas em área de risco.

“Já caí na lama, aparecem bichos (animais) por aqui e não há saúde neste local”, destaca a estudante, que sempre morou no local e é mãe de dois garotos - um de 9 anos e outro de 2 anos. Sua mãe, Raimunda Araújo, também reclama do local: “Não temos dignidade; isso não existe aqui, precisamos de muita coisa. Na época de eleições os políticos aparecem aos montes pedindo votos e depois viram as costas para nós”.

Em situação de rua e sem horizonte

Tiago Agostinho de Souza, 31,  vive há tanto tempo em situação de rua que até já perdeu as contas dos anos. Na rua Jonathas Pedrosa, esquina com Manaus Moderna, ele mora há quase dois anos de forma improvisada em um local coberto por lonas e plásticos. Na frente de uma das lonas, há uma camisa com a imagem de Jesus Cristo onde está escrito “Cristo Rei Rosto da Misericórdia”, como que alertando para a situação de penúria de Tiago.

“Moro na rua desde que o marido da minha mãe e ela morreram. A mamãe morreu de uma dor de cabeça. Até hoje culpo uma irmã minha que ‘enchia’ ela de dipirona”, comentou ele, que vivia no bairro Novo Reino e era ajudante de pedreiro e em porões de embarcações. Hoje, sua renda vem de doações e de reparar veículos nas imediações onde mora. Ele vive há 11 anos com uma pessoa que, durante a entrevista para A Crítica, preferiu ficar no interior da moradia improvisada.

“Já sofremos muito. Já tentaram nos tirar daqui. A polícia já derrubou, eu montei a casa de novo. Já moramos debaixo de carretas, ficamos. Falta ajuda para nós. Não temos pra onde ir”, contou.

Em Números

4,1 milhões de brasileiros ingressaram na pobreza, e 1,4 milhão na extrema pobreza, diz o Radar IDHM 2015, que traz dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do IBGE.

Duas perguntas para: Maurizio Giuliano, diretor do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio)

1 - O que significa o Dia Mundial da Justiça Social para a ONU?

A justiça social é um princípio subjacente à coexistência pacífica e próspera dentro e entre as nações. Com esse dia, portanto, buscamos reforçar e defender uma vez mais os princípios da justiça social quando promovemos a igualdade de gênero ou os direitos dos povos indígenas e dos migrantes. Avançamos a justiça social quando removemos barreiras que as pessoas enfrentam por gênero, idade, raça, etnia, religião, cultura ou deficiência. Para as Nações Unidas, dessa forma, a busca da justiça social para todos é o cerne da nossa missão global de promover o desenvolvimento e a dignidade humana.

2 -  As desigualdades e injustiças sociais, em suas mais várias formas, são cada vez mais preocupantes?

A ONU tem se preocupado e trabalhado com o tema ativamente. A Agenda 2030 de desenvolvimento sustentável, por exemplo, adotada em setembro de 2015, prevê em um dos 17 objetivos principais a redução das desigualdades dentro dos países e entre eles. Isso inclui, por exemplo, adotar políticas, especialmente fiscal, salarial e de proteção social, e alcançar progressivamente uma maior igualdade. Ou ainda facilitar a migração e a mobilidade ordenada, segura, regular e responsável das pessoas, inclusive por meio da implementação de políticas de migração planejadas e bem geridas. Essa agenda foi aprovada por todos os 193 países reunidos na ONU, e deve ser alcançado até 2030.

É por isso que o tema da data nesse ano é, por exemplo, os “trabalhadores em deslocamento: a busca por justiça social”. O Dia, em 2018, foca nos 150 milhões de trabalhadores migrantes do mundo, muitos dos quais enfrentam exploração, discriminação, violência e falta de proteções básicas. Melhorar a situação dos migrantes é melhorar a situação para todos, não há quem perca com uma migração regulamentada e que respeito os direitos humanos. É para isso que a ONU tem trabalhado.

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