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Manaus
Haitianos trabalho

Colocação no mercado de trabalho é sinônimo de recomeço para haitianos que vivem em Manaus

Mais que sobrevivência, conseguir emprego é o início de um processo de reconstrução da vida de quem veio a Manaus 26/01/2012 às 10:38
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Clovius Jean,28, que perdeu o pai no terremoto, foi um dos primeiros a se estabelecer em Manaus, em novembro de 2010
Felipe Libório Manaus

Todas as manhãs, o haitiano Odilon Odilien, 30, entra no ônibus que o leva de sua casa no bairro de São José, Zona Leste de Manaus, até a fábrica de reciclagem plástica onde trabalha há dez meses, no Distrito Industrial, Zona Sul. Odilon mora em Manaus há mais de um ano e foi um dos primeiros haitianos a chegar ao País, no início do ano passado.

Acostumado a trabalhar como pedreiro em sua cidade natal, Porto Príncipe, capital do Haiti, ele viu todas as possibilidades de emprego serem soterradas pelo terremoto que matou 217,3 mil pessoas, o equivalente a 2% da população. Foi então que decidiu juntar suas economias e enfrentar uma viagem de 15 dias para tentar a vida em outro lugar. “Não há trabalho no Haiti e eu precisava sustentar minha mulher e nossos três filhos que ainda estão lá”, explica.

A fábrica em que Odilon trabalha emprega 531 pessoas, das quais 76 são haitianos. Desde que foram contratados, todos os imigrantes recebem alojamento provido pela empresa, além de transporte e alimentação na fábrica. Um dos estrangeiros, Philenaud Anelus, 34, é casado e pai de três filhos. Com um largo sorriso no rosto, ele conta que o emprego tornou possível o sonho de se estabelecer no Brasil e, principalmente, poder ajudar a família que deixou para trás. “Eu divido todo o dinheiro que recebo, fico com metade e mando a outra metade para a minha esposa”, conta.

Para Clovius Jean, 28, que também conseguiu trabalho na fábrica, a oportunidade de emprego mudou sua vida. “Eu sou muito agradecido por trabalhar aqui. O patrão gosta dos haitianos e nós gostamos muito dele também”, diz o rapaz com um largo sorriso no rosto. Clovius nasceu na cidade de Ganthier, vizinha à capital Porto Príncipe, e chegou ao Brasil em novembro de 2010. Ele perdeu o pai no terremoto e ajuda a sustentar a mãe com o dinheiro que recebe.

Identificação

Os haitianos começaram a ser admitidos na fábrica após o pedido de uma amiga para que o diretor, Reginaldo Pizzonia, empregasse três deles. “Eu fiz com a intenção de ajudar e acabei sendo ajudado. Eles são ótimos”, afirma. De família italiana, o empresário nascido em São Carlos, estado de São Paulo, conta que seus avós chegaram ao Brasil também como imigrantes. Entre o final do século XIX e início do século XX, milhares de europeus foram trazidos ao Brasil para trabalhar nas plantações de café do interior paulista. Assim como os haitianos, eles fugiam da miséria em seus países de origem e buscavam construir uma nova vida no Brasil.

Além da identificação com a história de seus antepassados, Reginaldo Pizzonia conta que seu filho, o ex-piloto de Fórmula 1, Antônia Pizzonia, visitou o Haiti pouco depois do terremoto com uma comitiva de atletas que juntaram doações e desenvolveram projetos de ensino de esportes à crianças e adolescentes do país. Comovido com a situação de miséria que encontrou, o piloto descreveu ao pai a realidade que viu. “São pessoas que passaram por uma situação muito difícil e merecem uma chance. Você não os vê fazendo nada de errado. Estão sempre com pastas nas mãos procurando trabalho”, diz o empresário.

Crescimento

De acordo com Reginaldo Pizzonia, quase todos os empregados que trabalham na fábrica durante o terceiro turno são haitianos. Ele diz que muitos já conseguiram trazer a família para o Brasil e outros aprenderam a realizar novos ofícios. “Nós temos haitianos que começaram como estivadores e hoje assumiram sozinhas o controle de máquinas de alta tecnologia”, conta. Para o empresário, dar oportunidade para quem precisa não é mais do que sua obrigação. “Essas pessoas não pedem esmolas. A única coisa que querem é mprego”, concluiu.