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Corrida pela prefeitura de Manaus: sob as ordens do pastor

Jingles, inserção destacada no programa para TV e rádio fizeram de pastores cabos eleitorais cortejados nessas eleições municipais para a prefeitura 21/10/2012 às 10:50
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Em agosto, a candidata Vanessa, acompanhada do governador Omar Aziz, recebeu apoio da Assembleia de Deus
Lúcio Pinheiro Manaus (AM)

Mesmo demonstrando nas urnas ser um rebanho desobediente aos mentores espirituais, o eleitorado evangélico tem sido exibido e disputado a unhas pelos dois candidatos à Prefeitura de Manaus, Artur Neto (PSDB) e Vanessa Grazziotin (PCdoB).

Na teoria, a briga pela adesão de cada igreja evangélica na cidade faz sentido. Levantamento publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), este ano, mostrou que o extrato social onde esse eleitorado está só cresce. Em 2000, os evangélicos eram 22,18% da população residente em Manaus. Hoje são 35,56%.

De olho nesse filão, Vanessa já assinou carta com os evangélicos afirmando ser contra o aborto e garantiu que não votará no Senado artigos do projeto de lei nº 122 (projeto que criminaliza a homofobia no País) que “violem a liberdade da família, da crença e da fé pessoal”.

No primeiro turno, a comunista trabalhou a imagem de candidata da Assembleia de Deus. Para isso, contou com a participação do líder da denominação, Jonatas Câmara, que gravou depoimento ao lado da esposa no programa no horário eleitoral gratuito.

No mesmo período, Vanessa também exibiu um jingle gospel. A letra a define como agente de Deus e mulher honesta. “Vanessa é instrumento de Deus para cuidar de Manaus. Vanessa é honesta e teme ao Senhor”, canta um coral no vídeo.

Artur contra-atacou. Passou a exibir no programa eleitoral um clipe gospel batizado de “45 é a senha da vitória”. A letra da música ressalta a “fé” e o “temor” a Deus do candidato. “Artur é temente a Deus. E, com fé, sempre caminhou. Acreditando na força desse poder superior”, diz trecho do jingle.

Fé estratégica


No dia 15 deste mês, a assessoria de Artur Neto informou a adesão de 600 pastores evangélicos ao candidato.

No segundo turno, o candidato tucano intensificou a estratégia de se apresentar como homem de princípios cristãos. E as manifestações de apoio de lideranças evangélicas à candidatura dele são exibidas no programa eleitoral e, em notas, enviadas à imprensa pela assessoria do candidato. No programa eleitoral de Artur, têm sido exibidos depoimentos de apoio de membros de diversas denominações de origem pentecostal.

Ao falar da proposta de construir um Centro de Reabilitação Municipal, Artur inclui as igrejas católicas e evangélicas no processo de tratamentos dos usuários de drogas. Vanessa também afirma que tem planos para os religiosos no governo dela.

Apesar do avanço dos prefeituráveis sobre os religiosos, a forma desobediente como eles vêm se manifestando nas urnas não torna nenhum candidato favorito.

Os evangélicos cresceram em Manaus, mas na eleição para vereador, eles elegeram o mesmo número de parlamentares de 2008: cinco. Como o número de vagas este ano aumentou de 38 para 41, a bancada evangélica na Câmara Municipal de Manaus (CMM) vai ser 1% menor na próxima legislatura.

Internautas criticam uso de igreja

A benção de líderes religiosos a candidatos e a combinação entre púlpito e comício não vêm conquistando a simpatia de parcela do eleitorado. Para muitos, oferecer o rebanho de fiéis a um candidato e, com isso, ostentar poder e força durante a campanha eleitoral, desvia o propósito das denominações religiosas.

Questionados se concordam com o uso do nome de Deus na corrida à Prefeitura de Manaus, 90% dos internautas se disseram contra citações bíblicas e a participação de representantes de igrejas evangélicas na manifestação de apoio a candidatos. Em 20 horas, a pergunta postada no portal acritica.com recebeu 172 comentários.

Parte dos internautas classificou a prática como “desrespeitosa” e “vergonhosa”. “Não concordo que as campanhas usem o nome de Deus em vão”, disse a internauta Jaqueline Cardoso, que foi além e classificou como “blasfêmia” a atitude.

Para o internauta Jorge Claudio Marães Junior, “religião é religião e não se mistura com política”. Évila Bastos também se mostrou contra. Disse que a participação de todos os seguimentos da sociedade no processo é necessária, mas sem manipulação.


(*) Colaborou Ana Carolina Barbosa