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CPI da água em Manaus é desacreditada

Diante de inúmeras promessas, não cumpridas, de solução para a falta d’água, famílias que vivem o drama não têm expectativa 23/04/2012 às 08:14
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A aposentada Terezinha Sampaio não vê chegar uma gota de água em suas torneiras e, mesmo assim, recebe mensalmente a conta pelo serviço que não tem
CINTHIA GUIMARÃES Manaus

A cinco dias de completar um mês, no dia 28, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Água, da Câmara Municipal de Manaus (CMM), é vista com descrédito por parte das 600 mil pessoas que vivenciam o drama da falta de água ou de abastecimento regular em Manaus. A estatística faz parte do censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Histórias de descaso e indignação são comuns em metade dos bairros da cidade que, sem uma gota na torneira, se abastecem de água de maneira primitiva: carregando baldes e camburões até as casas. Aos usuários, resta a alternativa de furar poços artesianos, cavar cacimbas ou comprar água de carros-pipas que atendem precariamente ao item de primeira necessidade. Além disso, pagam a taxa básica de consumo à concessionária Águas do Amazonas.

É o caso do aposentado Osemiro Pereira do Nascimento, que mora há sete anos no bairro Grande Vitória, Zona Leste, onde existem duas caixas d’água públicas que há mais de um ano deixaram de atender aos moradores. “Eu pago R$ 30 por mês para o rapaz que tem poço levar água na minha casa, fora a conta da Águas do Amazonas”. Quanto à esperança de melhoria, Osemiro não mais acredita. “Uma cidade banhada por um rio tão grande e famoso, vivemos uma tristeza. Promessa é o que a gente mais vê no jornal. Vemos briga de políticos que só resolvem os problemas deles. Os nossos, nunca”, diz, insatisfeito.

Moradora do Jorge Teixeira II, na Zona Leste, a auxiliar de serviços gerais Lucivânia Araújo Bragança diz que paga R$ 120 por mês para obter água de vizinho que possui um poço artesiano.

SUFOCO

As histórias se repetem. Ganhando um salário mínimo, a aposentada Terezinha Sampaio da Silva, 77, também desembolsa pelo menos R$ 30 por semana para abastecer os reservatórios de água. Além do mais, paga R$ 22 de taxa de consumo, equivalente a 10 metros cúbicos de água que, segundo ela, nunca são usados. “Não tem condições, é muito sufoco a pessoa viver sem água”, esbraveja.

“Não chega uma gota na torneira e todo mês eu pago a conta. Eu sou aposentado, ganho um salário mínimo e não preciso passar por esse sufoco”, reclama José Carlos da Silva, marido de Terezinha.

Na Zona Leste, o saneamento básico nas vias públicas deixa a desejar. A higiene doméstica é outra necessidade que fica comprometida. Na rua Inha, no Jorge Teixeira I, a família de Jorgina Maurício de Souza construiu uma cacimba de onde bombeia água para os camburões dentro de casa. “Estou há dois dias sem água. A prioridade da água é para a alimentação. Com o que sobra, a gente joga no banheiro, lava roupa, limpa a casa. Só tem promessa que a gente vai ter água encanada, e nada!”

Keylle Moraes, também morador do Jorge Teixeira I, se diz indignado com a situação. “Minha mulher teve bebê há dois dias, mas não tem água em casa. Estou desde ontem sem tomar banho. Nem tenho como lavar a farda do meu trabalho”, finalizou.

Waldemir José, vereador e autor da CPI da Água

“No dia 28 a CPI vai completar um mês e não vemos empenho pelas informações básicas. As primeiras solicitações não chegaram. Pedimos visitas ao bairro Nova Vitória, que ganhou investimento do Governo Federal de R$ 40 milhões em rede de esgoto e captação de água. Esse bairro, segundo o governo, será passado à Águas do Amazonas. Toda vez que um bairro precisa de investimento, é sempre feito pela prefeitura ou pelo Estado. A empresa só tem lucro. Para mim, esse modelo de privatização não vai universalizar o acesso à água e ao esgoto. Se a CPI demonstrar que a população não vai ter acesso à água sem os recursos públicos, vamos pedir a estatização do sistema. Esse é o objetivo central. É uma forma que dizer que não estamos compactuando com a letargia. A previsão é de que os trabalhos terminem em 12 de junho. Sábado fizemos uma passeata na Zona Leste pela água, onde distribuímos 10 mil panfletos . É uma maneira da população demonstrar sua indignação.”

Proama ainda não saiu do papel

Com a promessa de ampliar o abastecimento para atender a 500 mil pessoas, especialmente das zonas Leste e Norte, o Programa de Águas para Manaus (Proama), do Governo do Estado, aguarda o aval da Secretaria de Governo, Prefeitura de Manaus e Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama) para a operacionalização do sistema.

O projeto, que foi lançado em julho de 2008, está com atraso de quase dois anos na execução. A expectativa é que até fim deste ano a obra seja entregue.

A Estação de Tratamento será construída na Ponta das Lajes, no bairro Colônia Antônio Aleixo, na Zona Leste, entre o Mauazinho e o Puraquequara, e será administrada pela Águas do Amazonas. O empreendimento irá atender, principalmente, os moradores das zonas Leste e Norte, consideradas as mais críticas nesse quesito. O Proama já custou aos cofres do Estado R$ 365 milhões. O investimento inicial era de
R$ 249 milhões.

Ameaça

No início deste ano, o prefeito Amazonino Mendes prometeu romper o contrato de concessão da Águas do Amazonas, mas depois não tocou mais no assunto. Em fevereiro foi a vez do ex-governador e senador Eduardo Braga denunciar a concessionária ao Ministério Público do Estado (MPE), com pedido de “estudo da possibilidade de anulação”, que foi arquivado posteriormente. O serviço de abastecimento de água e esgotamento sanitário foi privatizado em 2000, na gestão de Amazonino como governador.