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Manaus
DRAMA

Tentativas de homicídio mudam a vida de quem escapa da morte; veja relatos

No ano passado foram 272 casos registrados pela Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), ou seja, a cada semana são pelo menos cinco ocorrências, média de 22 por mês 10/12/2017 às 10:16 - Atualizado em 10/12/2017 às 15:31
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Gonzaga levou quatro tiros e ficou em coma induzido por vários dias. Foto: Winnetou Almeida/Arquivo Pessoal
Joana Queiroz Manaus (AM)

O coronel da Polícia Militar Luiz Gonzaga da Silva Júnior, a advogada Denise Almeida, o delegado de Polícia Civil Péricles do Nascimento e o DJ e técnico em informática Iann Wenery. Pessoas diferentes, com profissões tão distintas, mas que têm em comum uma “quase” tragédia e a sorte de um recomeço. Eles foram vítimas de um crime mais freqüente do que se imagina em Manaus: as tentativas de homicídio.

Só no ano passado foram 272 casos registrados pela Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), ou seja, a cada semana são pelo menos cinco ocorrências, média de 22 por mês. Este ano, de janeiro a outubro, foram mais 168 casos.

Para as vítimas, mais do que cicatrizes, os atentados deixaram marcas que mudaram a forma com que eles encaram a vida. Entre elas está o delegado de Polícia Civil Péricles Nascimento, que ainda se recupera de um tiro que levou no rosto durante uma abordagem policial. A morte passou perto, lembra ele.

“No momento, foi tudo muito rápido, só deu para perceber que os tiros saíam da casa onde estavam os alvos. Notei que tinha sido atingido, recuei e pedi ajuda dos meus companheiros, que firmaram ao meu lado e saímos como se o tiro tivesse atingido a todos, tamanho o cuidado, atenção e destemor dos policiais em me tirarem daquele lugar o mais rápido possível”, relembra.

O delegado contou que foi atingido no rosto: o disparo perfurou o lado esquerdo da boca dele e o projétil se fragmentou. Um pedaço ficou a milímetros da coluna cervical e outro atingiu de raspão as artérias carótidas – vasos localizados no pescoço, responsáveis por levar sangue rico em oxigênio para o cérebro -, causando uma lesão chamada pseudoaneurisma.

“Ao ser atingido, permaneci consciente, não sentia dor, apenas a sensação da lesão e bastante sangue que saía da boca. Como se sabe, a atividade policial implica em riscos, e apesar de todo planejamento e estratégias para cumprimento das mais diversas missões, não se consegue perceber todos os perigos existentes no momento do confronto com bandidos, e na referida operação eu acabei sendo a vítima”, contou o delegado.

Para ele, além do acompanhamento dos médicos, o apoio que ele recebeu da família e dos companheiros de trabalho foi fundamental para a recuperação.  “Claro que não foi fácil, recorri às orações e à fé que tenho em Deus, e pude sentir energias boas que me fortaleceram”, desabafou.

Sobrevivente

Drama semelhante viveu o DJ e técnico de informática Iann Wenery no ano de 2012, quando ele foi esfaqueado no pescoço ao tentar receber o pagamento de um veículo de tinha vendido dois meses antes.


Iann também escapou da morte em 2012, quando foi esfaqueado no pescoço

O autor do crime, que se negava a pagar, atingiu Iann com várias facadas, a maioria no pescoço, em uma emboscada que armou para ele. Mesmo ferido, Iann conseguiu entrar no carro e dirigir até longe do local do crime, quando bateu o carro. Ele ainda conseguiu acionar os familiares e foi resgatado por moradores, que o levaram até o hospital.

Após semanas de tratamento, o DJ recebeu alta e pôde voltar para casa.

Atentado no Cheik Clube: advogada sobrevive a 3 tiros

O caso da advogada Denise Almeida, alvejada com três tiros disparados pelo pistoleiro Charles Mac Donald, contratado pela socialite Marcelaine Shumann, que tinha um caso com o amante de Denise. O atentado aconteceu em novembro de 2014, no estacionamento da academia Cheik Club, e ganhou destaque na cidade. Apesar dos três tiros à queima roupa na região da cabeça, Denise sobreviveu, mas uma das balas ficou alojada na região cervical.

Militar ficou 'entre a vida e a morte'

“A fé me salvou”. A declaração é do coronel reformado da Polícia Militar Luiz Gonzaga Jr, ao relembrar o atentado que o deixou entre a vida e a morte, em 2012. Ele foi atingido por quatro tiros no abdômen durante uma tentativa de assalto em uma padaria onde Gonzaga estava com a mulher e as duas filhas pequenas.

“Eu fui ao banheiro e quando voltei dei de cara com um ladrão com uma pistola encostada na cabeça da minha filha. Tive medo que ele atirasse nela”, contou o militar, cuja reação foi partir para cima do criminoso, que fugiu. Gonzaga foi atrás dele, mas acabou surpreendido do lado de fora do estabelecimento, onde dois comparsas do suspeito o aguardavam, armados.

Baleado, Gonzaga foi socorrido e levado para uma unidade de saúde “Já senti medo de morrer em duas ocasiões. Aquele momento foi um deles”, contou o militar que, em estado gravíssimo, foi mantido em coma induzido por vários dias no hospital. Ainda hoje, cinco anos depois, ele carrega marcas que vão além da cicatriz dos projéteis, um deles ainda no corpo de Gonzaga.

Na época com 48 anos de idade, ele estava na presidência da Sociedade de Navegação, Portos e Hidrovias da Amazônia Ocidental (SNPH) e, como todo militar, tinha o sonho de chegar ao Comando Geral da Polícia Militar, mas foi “obrigado” a encerrar a carreira mais cedo, por conta das sequelas.

O militar reformado disse que também teve que adiar o doutorado que cursava na Argentina. “Depois de tudo isso, hoje eu valorizo mais a vida e procuro passar mais tempo curtindo a família, cuidando do jardim e estudando. Mas, se eu receber um chamado do Comando, estarei à disposição”, garantiu.

BLOG: Péricles Nascimento - delegado de Polícia Civil


O delegado Péricles (de camisa com listras brancas) com a equipe médica

"Apesar de ter conhecimento, desde o início, da gravidade da lesão e de ter sido atingido por disparo de uma arma letal, tive um suporte grande dos meus companheiros da polícia, dos meus familiares e dos meus amigos. Sabia, pela preparação que tenho, que deveria permanecer calmo, controlar as minhas emoções e nunca entrar em desespero. Claro que não foi fácil, recorri às orações e à fé que tenho em Deus e pude sentir energias boas que me fortaleceram", disse o delegado.

"Ainda estou em tratamento, com uma ótima recuperação, mas o processo é lento e preciso ter fé em Deus e paciência para ficar plenamente curado e sem qualquer sequela. Agora a sensação é de gratidão, primeiramente agradecer a Deus porque certamente me protegeu e está me curando. Agradecer a todos os meus companheiros da polícia que me apoiaram em todos os momentos. Sabemos das dificuldades que enfrentamos diariamente e dos riscos da nossa atividade e, sem dúvida, o esforço conjunto envolvendo diversas pessoas, que não irei nominar sob pena de cometer injustiça, ajudaram-me a me sentir recompensado e estar hoje me recuperando bem. Não posso lamentar pelo ocorrido, pois recebi o livramento de Deus que intercedeu por mim”, complementa.

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