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Manaus
Acuados pelo medo!

Moradores da BR-174 estão apavorados, e até mudaram rotina após a fuga de detentos

Moradores relatam o que deixaram de fazer por medo do que pode acontecer com tantos foragidos às soltas 08/01/2017 às 05:00
Show gilson mello
O comerciante Pedro Costa Leite, 62, já foi assalto e agora fecha o seu estabelecimento mais cedo para não correr riscos. (Gilson Mello/Free Lancer)
Kelly Melo Manaus (AM)

“Andamos apavorados. Esses caras não têm pena de ninguém e como têm muitos foragidos por essas matas, escondidos, todo cuidado que a gente tomar é pouco”. Esse é o relato do comerciante Pedro Costa Leite, 62, que mora no quilômetro 12 da BR-174 há mais de 15 anos.

Acostumado com as histórias de fugas que sempre acontecem nos presídios próximos de onde ele mora, o comerciante afirma que nunca ficou tão assustado como com o que aconteceu no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), quando 56 detentos foram assassinados, há uma semana. 

Segundo Pedro Costa, mais conhecido como “Maranhão”, o pânico tomou conta dos moradores das comunidades ao longo da BR e, para evitar “sustos”, ele prefere nem mesmo abastecer as prateleiras do seu pequeno comércio.

“Recentemente eu fui assaltado aqui. Eram dois bandidos e eles levaram mais de R$ 1,7 mil. Desde então, fiquei mais preocupado com a segurança e agora com esses foragidos às soltas, quem tem comércio está fechando até mais cedo. Eu não coloco mais mercadoria na prateleira por causa disso”, relatou ele.

Uma dona de casa que preferiu não ser identificada contou que está providenciando a mudança da família dela, também por conta do medo. “Ontem a gente ouviu falar de um assalto aqui perto. Disseram que teve até tiros. Antes que algo pior aconteça, vamos sair daqui e procurar um local mais seguro”, contou ela que mora com os filhos, todos crianças.

Alerta e pavor

O massacre e a fuga do Compaj e do Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat) acendeu o sinal amarelo não só nas comunidades rurais situadas na BR-174, que liga Manaus a Boa Vista.  

Dentro da capital, por todos os lados os comentários de medo e pavor dominam em qualquer roda de conversa. Informações desencontradas e até mesmo boatos fizeram com que até unidades de saúde e universidades fechassem as portas.

Na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), três cursos de graduação suspenderam as atividades durante a semana passada devido as falsas divulgações de que foragidos do Compaj estariam escondidos nas matas do Campus.

O desespero de alunos, professores e funcionários obrigou a universidade a tomar medidas para intensificar as ações de segurança dentro da instituição. “Hoje, a gente fica até um certo horário. Não dá para esperar a aula acabar com essa tensão de ter algum bandido, algum foragido. Tem gente que nem está vindo para a faculdade”, relatou o universitário Michaell da Silva.

“Unindo laços”

Para normalizar as aulas, a Ufam ampliou as rondas com motos e carros dentro do campus e estreitou o contato com a PM para evitar crimes. Mas de acordo com a polícia, nenhum foragido foi preso nas matas da universidade. A Policlínica Gilberto Mestrinho, no Centro, também fechou as portas antes do horário habitual, assim como lojas na área do comércio. A justificativa, segundo eles, foram informações de um arrastão na área na sexta-feira.

Sofrimento de familiares, ameaças e boatos de mortes

Familiares de detentos que permanecem nas unidades prisionais, na BR-174, também sofrem com as frequentes ameaças e boatos de novas rebeliões e possíveis mortes. O motorista Marcos Marinho, 48, que toda semana visita dois sobrinhos presos no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat) e Centro de Detenção Provisório Masculino (CDPM), conta que fica preocupado a cada visita que realiza nas duas unidades. Ele disse que os sobrinhos relatam as ameaças de outros presos e embora os diretores dos presídios digam que “está tudo bem”, ele não acredita. “A gente sabe que não está bem e por isso eu temo que hajam novas rebeliões”, comentou. 

Uma mulher que pediu para não ser identificada disse que a angústia é maior por falta de informações. Um filho dela está preso no Ipat e todos os dias ela vai até o instituto em busca de alguma informação sobre o paradeiro dele. “Está muito arriscado  ter uma outra rebelião igual a do Compaj, e a família fica preocupada com isso. Não é porque a pessoa está presa que tem que ser tratada igual a um animal. Nós só queremos que eles fiquem bem”, falou ela.

Pessoas devem duvidar de tudo que leem na Internet

O corregedor-geral do Ministério Público do Amazonas, José Roque, que preside o grupo de trabalho criado nesta semana, disse que órgão se preocupa com a criação do pânico na cidade.  Segundo Roque, o MP acompanha cada passo das investigações e se preocupa em não fomentar a rede de boatos. “Os dados oficiais nos parecem satisfatórios. Mas o que precisar ser rechecado, vai ser”, explicou ele. Para o analista de sistemas Gilmar Lopes, especializado em criação de ferramentas para Intranet, as pessoas devem duvidar de tudo que leem na Internet. “Em situações como essa, é preciso ficar de olho nas informações. Quanto mais alarmista for, mas cuidado devemos ter”, disse ele.

De acordo com Lopes, os boatos divulgados pelas redes sociais geralmente não vêm com uma data específica e muitas vezes são “ressuscitados” de outras situações que acontecem até mesmo em locais diferentes. 
Ele destacou que as informações devem ser sempre checadas em sites confiáveis. “Os áudios e vídeos compartilhados pelo Whatsapp são campeões nisso. Geralmente as pessoas não se identificam e todo mundo entra em pânico. Na dúvida, nunca compartilhe conteúdos que gerem o pânico entre a população”, ressaltou o especialista.