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Manaus
INOCÊNCIA ROUBADA

Duas crianças são abusadas por dia na cidade de Manaus, diz delegada titular da Depca

Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente do Amazonas (Depca) já registrou 670 casos de abuso sexual de crianças e adolescentes em 2017 19/11/2017 às 05:30 - Atualizado em 19/11/2017 às 08:03
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Fotos: Jair Araújo
Joana Queiroz Manaus (AM)

Até a primeira semana deste mês, a Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente do Amazonas (Depca) registrou 670 casos de abuso sexual de crianças e adolescentes em 2017, em Manaus, uma média de 2,4 vítimas por dia.

“Todo dia tem gente aqui fazendo Boletim de Ocorrência (B.O) de casos de estupro de vulnerável (EV)”, disse a delegada titular da Depca, Juliana Tuma. De acordo com a delegada, o Amazonas está vivendo uma “epidemia” desse tipo de crime.

Na avaliação de Juliana Tuma, há uma permissividade por parte das pessoas acharem que isso é normal, que virou costumeiro. Os agressores fazem isso sem se importar que seja um crime que marca a vítima para o resto da vida, caso não seja tratada.


Delegada Juliana Tuma

Elas são crianças com idade de zero até 14 anos e grande parte dos agressores estão dentro da família, como pais, tios e avôs. “O abuso sexual em criança e adolescente sempre descamba no estupro de vulnerável. É uma endemia nesse Estado, é algo que acomete o Amazonas como um todo. Essa prática não pode ser vista como normal e nem costumeira”, disse a delegada.

Perfis e esclarecimento

Conforme a delegada, os casos que chegam à delegacia na maioria das vezes são de abusos de menores que não completaram 14 anos. Juliana Tuma disse que não dá para classificar todos como pedofilia, que é considerada um distúrbio sexual. “A olho nu, eu vejo essa situação (os abusos) como falha de caráter e desvio de conduta. Eu não vejo um pedófilo no abusador”, destacou a delegada.

E as denúncias só vêm aumentando. Na Depca, de janeiro a setembro deste ano, foram registrados 665 boletins de ocorrências (B.O’s) de crimes sexuais contra menores de idade. Para a delegada, o aumento está relacionado ao conhecimento que a população está tendo de que essa é uma pratica criminosa e, neste momento, está começando a quebrar o manto da pervemissividade e começando a descortinar o abuso sexual que acontece dentro de casa.

“Estamos incutindo na vida das pessoas a hediondez desse crime e mostrando como é nefasto, agressivo. Você rouba a inocência daquela criança e inaugurar precocemente a vida sexual dela, que não é pra fazer”, disse Juliana Tuma.

Traumas

Para a delegada, abusar sexualmente de uma criança é roubar a infância dela. Entre as consequências, se ela não for submetida a um tratamento pós-trauma, ela vai se tornar uma criança sensualizada e na idade adulta essa pessoa vai ter problemas de relacionamento afetivo, marcas de alta mutilação, e quando for mãe ou pai desvio de comportamento e até o suicídio.

Agressores negam

Na delegacia, muitos os abusadores negam os crimes e muitas vezes ainda culpam as crianças. Um avô que no fim do mês passado foi filmado estuprando a neta no banheiro disse que fez sem maldade. Outros tantos agressores são capazes de confessarem que mataram a mãe, mas não confessam que cometeram um estupro.

Muitas crianças não têm noção do que passam

Conforme a coordenadora do setor psicossocial da Depca, Antonieta Cavalcante, muitas crianças abusadas com violência têm dificuldade para verbalizar a agressão na delegacia. Quando não há agressão, disse ela, a criança acredita que é normal o pai ou padrasto tocar nelas dessa forma (nas partes íntimas), como se fosse um tipo de carinho.

Uma das consequências é que a libido da criança fica muito alta e ela precisa ser submetida a atendimento psicológico e até mesmo tratamento médico para baixar a libido. “Ela é muito pequena para aquela sensação que ela está sentindo. Elas não tem noção do que é aquilo”, disse Antonieta Cavalcante.

“Nós atendemos casos na semana passada de crianças que estão manipuladas sexualmente pelo pai de uma forma afetiva carinhosa e ela não interpreta isso como violência”, exemplificou a psicóloga da Depca.

Blog: Antonieta Cavalcante, psicóloga da Depca

"Nem todo pedófilo é um abusador sexual, mas os casos são altos. O pedófilo é aquele que abusa de criança na passagem da infância para a adolescência, 11 a 12 anos. Para eles quanto menos a criança, mais valor ela tem na rede da pedofilia. Em Manaus os casos de pedofilia têm aumentado. A idade atual que prevalece é 3 a 6  seis anos. As campanhas, trabalho nas escolas, divulgação tem levado às pessoas denunciarem, pelo disque 100 e a polícia investiga todas. Há denúncias que chegam das escolas e hospitais para onde as crianças são levadas por alguma situação e é quando é descoberto que elas sofreram abusos. Muitas vezes elas têm febre e infecção urinária. A maioria dos abusos é intrafamiliar por pai e padrasto".