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Em Manaus, indígenas ficaram sem motivos para comemorar o seu dia no domingo (19)

Acampados há cinco dias na frente da Prefeitura de Manaus, indígenas estão prestes a ser despejados de uma invasão 24/04/2015 às 15:52
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Dezenas de índios fecharam a avenida Brasil, Compensa, com o objetivo de chamar a atenção das autoridades
Natália Caplan Manaus (AM)

Menos de 24 horas após o Dia do Índio, os moradores da comunidade Nações Indígenas, no Tarumã, Zona Oeste, não têm muito o que festejar. Na próxima quarta-feira eles serão obrigados a deixar as casas que construíram no terreno sob ordem judicial. Ontem, eles dançaram em frente à Prefeitura de Manaus, na Compensa, mesma Zona, mas não foi de alegria. Em protesto, fecharam a avenida Brasil, em busca de respostas sobre a iminência da reintegração de posse.

Nesta segunda-feira (20), aproximadamente 100 indígenas de diferentes etnias completam cinco dias de acampamento em frente à sede do órgão público, na tentativa de conseguir uma audiência com o prefeito Artur Neto (PSDB). “Nosso advogado disse que a gente vai ter uma reunião com o prefeito na quarta-feira. Só ele quem pode nos ajudar. Nós acreditamos nele, votamos nele para ser o nosso representante. Esperamos que até quarta, essa reintegração seja cancelada e nós possamos festejar o Dia do Índio”, disse um dos líderes, cacique Jair Miranha.

De acordo com o outro líder da comunidade, cacique Sabá Kokama, a mobilização é pacífica e o objetivo é evitar qualquer tipo de violência. Ele lembrou que há 30 crianças acompanhadas dos pais no local. “Ficamos preocupados com o povo. A gente abriu a porta para o prefeito ir buscar votos e agora nós esperamos que ele abra a porta. Será que ele está nos vendo como eleitores ou invasores? Esperamos uma proposta. Se for preciso atitude, nós teremos uma atitude”, afirmou.


Um dos primeiros moradores do Nações Indígenas, Manuel dos Santos afirmou que, diferentemente do que diz o documento apresentado pelo MPF, pedindo a reintegração de posse, o local não era uma área verde. “Isso aqui era um lixão. Até saco com cadáveres encontramos. Era um lugar de desova dos criminosos, que matavam e jogavam aqui. Entregamos os ossos para um médico, mas não sabemos o que ele fez. Desde que chegamos, não deixamos pessoas más intencionadas fazer mais isso”, enfatizou.


Segundo o agente de portaria, as famílias não têm condições de pagar aluguel ou outro lugar para ir, mesmo que provisioramente. “Muitas pessoas investiram as indenizações de demissão. Um rapaz chegou comigo, desesperado, porque não tem para onde ir. Nós não temos para onde ir. Deixaram a gente ficar todo esse tempo e nunca tomaram uma providência. Depois que as casas estão de pé querem derrubar tudo?”, questionou.

Saiba mais: ‘Mãos atadas

No último dia 10 de fevereiro, dia do início oficial dos trabalhos na Câmara Municipal de Manaus (CMM), um grupo liderado por Jair Miranha esteve em frente à Casa para chamar a atenção dos vereadores e do prefeito Artur Neto, que compareceu à cerimônia para fazer o tradicional discurso de abertura de mais um ano de legislatura. Na ocasião, logo após o evento, o cacique abordou o prefeito para entregar o documento sobre a reintegração de posse e pedir que ele intercedesse pela comunidade indígena.

De acordo com a assessoria de comunicação da Prefeitura de Manaus, ontem, em resposta à equipe de A CRÍTICA, informou que por ser uma decisão do Ministério Público Federal (MPF), o município não tem autonomia para interferir e, muito menos, resolver o caso. Informou, ainda que, na última sexta-feira, o advogado dos indígenas, Abdalla Sahdo, foi recebido pelo secretário da Casa Civil, Márcio Noronha. De acordo com os assessores do prefeito, não há uma audiência confirmada para receber os líderes dos manifestantes na quarta-feira. 

‘Vamos pegar tudo e levar para frente da prefeitura’

Mãe de quatro filhos (de 1 mês, 2, 9 e 12 anos de idade, respectivamente),  Francismaily Corrêa da Silva, 28, não se preocupa apenas com o fato de não ter para onde ir. Caso realmente seja obrigada a deixar a casa, que construiu com o marido Jackson Rodrigues, 32, teme que os mais velhos percam o ano letivo. “Se sairmos daqui, será impossível encontrar vagas e, até conseguir transferência, eles vão perder o ano. Têm muitas famílias aqui, cm dois, três, sete filhos. As escolas têm rota para buscar e trazer”, declarou.


De acordo com o chefe da família, ele e outros homens da comunidade abriram mão dos empregos para proteger as casas de uma possível reintegração de posse e se dividir na vigília em frente à sede da Prefeitura de Manaus. “Somos muitos guerreiros. Não vamos desistir, daqui não arreda ninguém. Nosso propósito é lutar pelo nosso espaço”, declarou, ao lamentar a necessidade de tomar uma decisão tão difícil e ver os filhos passando privações. “Quase todos os homens estão desempregados, tentando resolver essa situação. Os chefes não vão nos entender”, desabafou.

O marido de Crislaine da Silva Seabra, 20, é um dos acampados — que também largou o emprego — na avenida Brasil. Com duas crianças pequenas, de 1 e 4 anos, ela também passa algumas horas do dia no local, para dar apoio aos vizinhos, na tentativa de sensibilizar a própria população que passa na via diariamente. “Não temos para onde ir. Se destruírem as nossas casas, vamos pegar tudo, móveis, geladeira, fogão, e levar para a frente da prefeitura”, enfatizou a indígena da etnia Kokama.