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Manaus
Meio Ambiente

Moradora da Lagoa Verde espera por abastecimento regular de água há 40 anos

Mesmo com Manaus sendo banhada por uma imensidão de água, a realidade de muitos moradores da cidade é a de escassez desse recurso por falta de abastecimento regular 20/03/2017 às 11:12 - Atualizado em 20/03/2017 às 11:14
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(Foto: Clovis Miranda)
Isabelle Valois Manaus (AM)

Uma das moradoras mais antigas da rua 9 de maio no Lagoa Verde, na Zona Sul de Manaus, a pensionista Josefa Lima Maciel, 70, afirma não se lembrar do último dia no qual tomou um banho com a água do chuveiro do próprio banheiro. São 40 anos acordando a cada hora completada na madrugada para ir até o pátio e conferir se a água chegou até a torneira.

Apesar da capital amazonense ser rodeada pelo recurso natural, ainda é possível encontrar muitos casos como de Josefa. Alguns são relacionados pelo fato de certas localidades serem frutos de ocupações irregulares, outros por problemas de abastecimento. No caso da rua 9 de Maio, não é só a família da pensionista que passa por isso, mas todas as moradias da parte alta da rua.

No início do ano, A CRÍTICA foi conferir de perto um dia de chuva na rua 9 de maio. A reportagem contou a história da dona de casa Zuma Gomes dos Santos, que, na ocasião, colocou uma caixa de isopor no meio da calçada para aparar a água da chuva. Esta serviria para lavar algumas roupas e preparar o almoço da família.

A equipe de reportagem voltou ao local nesse semana e situação precária permanece. A única diferença é que a maioria das casas da parte alta da rua está com placas de venda. Conforme Josefa Maciel, os moradores estão totalmente desmotivados, pois nunca houve uma solução para a falta d’água e a cada dia a situação só piora. “São anos convivendo com esse problema. Na minha casa, por exemplo, a água quando vem só chega a uma das torneiras, no caso a do pátio. Nem durmo mais direito, pois passo a madrugada de vigia para ver se temos água para conseguir encher a caixa d’água e realizar os serviços domésticos”, comentou.

E nem todo dia a água aparece na torneira. Como a pensionista recebe um salário mínimo e é a única a ter uma renda mensal na família, todos os dias ela prepara salgados, sucos e bolos para vender nas portas das escolas do bairro e, com o dinheiro arrecadado, compra água para suprir as necessidades e também para os dias que ela não vem na torneira.

“Água não tem, mas todos os meses a cobrança é certa. Cheguei a pensar em deixar de pagar a conta de água, mas, se do jeito que está a situação é precária, imagina sem! Por mês gasto bem mais de 300 reais, pagando a conta e comprando água. E assim vamos vivendo por aqui. Não temos como ir para outro lugar, então precisamos nos readaptar com a realidade”, disse.

Como o recurso natural é uma raridade na casa da pensionista, sempre quando lavam as roupas, ela apara toda água utilizada para jogar no vaso sanitário. “Meu sonho é um dia poder ver meu banheiro totalmente limpo, conseguir lavar a minha casa, tomar um banho com a água ao cair do chuveiro, afinal eu pago pelo consumo, mas isso tudo não basta de sonho, pois a realidade é bem cruel e diferente”, comentou.

Água às vezes, cobrança não falha

Na reportagem do mês passado, Zuma contou que estava mais de uma semana sem ter a água na torneira. A dona de casa relatou a dificuldade para conseguir pagar a conta da água que não teve durante o mês. A cobrança ultrapassava os R$ 500. A do mês anterior também estava “pendurada”. Zuma disse que rezava para chover todos os dias. Nesta semana, a dona de casa informou que a situação não mudou muito. "Durante esse mês, pelo menos na madrugada estamos tendo água na torneira. Quando não tem, o jeito é ficar na espera da chuva para aparar ou juntar os trocados para comprar. O chato que todo mês pagamos caro por um serviço que não temos”.

Só na promessa

No dia 4 fevereiro deste ano, quando A CRÍTICA publicou a história da dona de casa Zuma Gomes dos Santos, a empresa concessionária de água da capital, a Manaus Ambiental, informou que uma equipe técnica estava trabalhando desde o início daquela semana para normalizar o abastecimento de água da rua 9 de Maio e das vias adjacentes, localizadas no bairro Lagoa Verde. A previsão para a normalização do abastecimento deveria decorrer durante aquele final de semana. Pouco mais de um mês da publicação da reportagem, o desabastecimento de água continua.