Publicidade
Manaus
RESPOSTA

‘Excelente funcionário’, diz Seap sobre diretor do Compaj denunciado de corrupção

Pedro Florêncio disse que não sabia da carta com denúncia de corrupção entre gestores do presídio. Segundo ele, o próprio diretor pediu afastamento 10/01/2017 às 18:32 - Atualizado em 10/01/2017 às 19:29
Show show capturar
(Foto: Arquivo A Crítica)
Vinicius Leal Manaus (AM)

O secretário de Estado de Administração Penitenciária (Seap), Pedro Florêncio, negou hoje (10) que tivesse conhecimento da carta escrita em dezembro de 2016 por dois detentos do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) denunciando um suposto esquema de corrupção entre diretores do presídio e membros da facção criminosa Família do Norte (FDN) para facilitar fugas, mortes e a entrada de armas, drogas e celulares na cadeia. Florêncio também defendeu o diretor do presídio denunciado no esquema.

“Se eu soubesse (da carta) teria tomado as providências legais. Eu tomei ciência pela imprensa. Assim que tomei ciência, determinei a instalação de uma sindicância com direito a ampla defesa e ao contraditório”, disse Florêncio. Segundo o secretário, o próprio diretor denunciado, José Carvalho da Silva, pediu afastamento do cargo após divulgação da carta na imprensa. “Com essas notícias, ele pediu exoneração. Porque é um desgaste grande o nome dele na mídia”. O conteúdo da carta foi notificado hoje no jornal A Crítica e Portal A Crítica.

Conforme Florêncio, o agora ex-diretor sempre foi um excelente funcionário. “Não é porque saiu na imprensa que é verdade. Eu o tenho como um excelente funcionário. As pessoas denunciam todo mundo que tem algum interesse contrariado. Eu, por exemplo, sou acusado a favorecer a massa carcerária”, disse. “O diretor fazia um bom trabalho. Só que contrariou algumas pessoas e por isso passaram a atacá-lo. Estou há um ano e três meses (como secretário da Seap) e não tenho nenhuma reclamação da conduta dele. A gente tem que investigar e dar oportunidade para a pessoa se defender”.

Hoje mesmo a Seap confirmou o afastamento do então diretor do Compaj. Em nota, a secretaria declarou que foi aberta a sindicância para averiguar o suposto envolvimento do diretor nas denúncias. Segundo a Seap, o diretor ocupava desde julho de 2016 o cargo de diretor adjunto do Compaj e, depois, assumiu como interino com a saída do diretor Ilson Vieira Ruiz, no dia 28 de dezembro.

A carta

A acusação de corrupção envolvendo José Carvalho da Silva estava em uma carta escrita a punho no dia 10 de dezembro de 2016 – 20 dias antes do massacre de 56 internos no Compaj. A carta foi assinada por dois detentos – Alcinei Gomes da Silveira e Gezildo Nunes da Silva – que foram assassinados na chacina do dia 1º de janeiro de 2017. O documento foi enviado pela 2ª Defensoria Pública Especializada em Execução Penal para conhecimento do Tribunal de Justiça do Amazonas no dia 14 de dezembro, duas semanas antes das mortes, e anexado em um processo que tramita na Vara de Execuções Penais (VEP) de Manaus.

No escrito, os detentos afirmam, em relatos diferentes, que eram ameaçados de morte, e que mesmo com autorização da Justiça de permanecerem em área segura do regime fechado – sob medida cautelar de segurança, dois diretores do Compaj – incluindo José Carvalho da Silva – faziam ameaças de retirá-los da região segura e colocá-los em uma ala “de risco”, onde poderiam ser assassinados.

“Não temos convívio em nenhum lugar. Só temos convívio onde estamos. Porque por todos os cantos, nós já passamos e saímos entre a vida e a morte. O juiz determinou que permanecêssemos aqui como está”. “O subdiretor e GSI querem nos tirar da [...] sem motivos, só pelo fato de nós internos sabermos que eles são corruptos e recebem dinheiro da facção FDN, facilitando a entrada de armas, drogas e celulares, e facilitando a última fuga que teve no Compaj, onde fugiram 14 internos”.

Enviada ao TJ-AM

Após ser escrita, a carta foi entregue à companheira de um dos detentos que assinam o documento, no caso Gezildo Nunes da Silva, durante visita dela ao Compaj. A mulher, então, repassou o documento ao defensor público Arthur Sant’anna Ferreira Macedo, que fazia a defesa de Gezildo na Justiça. A partir daí, no dia 14 de dezembro de 2016, quatro dias após ser escrita, o defensor protocolou e anexou a carta ao processo de Gezildo no TJ-AM, de número 0229886-50.2015.8.04.0001, com destinação e para conhecimento do juiz Luis Carlos Valois, titular da Vara de Execuções Penais (VEP).

Ao anexar as cartas ao processo, o defensor pede ao juiz Luis Carlos Valois que Gezildo fique preso no Centro de Detenção Provisória (CDP), “não podendo ser transferido para nenhuma outra unidade prisional sem que esteja em risco sua integridade física”. O defensor também pede para que fossem “apuradas e tomadas as devidas providências acerca das denúncias relatadas” na carta. Não há movimentação no processo após o pedido do defensor público, feito em 14 de dezembro. O judiciário entrou em recesso no dia 20 de dezembro, uma semana após o pedido.