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Famílias de pessoas vítimas de acidentes envolvendo contêineres em Manaus lutam por Justiça

Parentes de vítimas de acidentes provocados por carretas que transportavam contêineres dividem a dor e a espera por Justiça 16/06/2012 às 17:25
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A exemplo das denúncias feitas por familiares de pessoas mortas nos acidentes, veículos continuam transportando carga com os pinos de segurança destravados
Florêncio Mesquita Manaus

A esperança que a Justiça seja feita uniu famílias que perderam parentes em acidentes com carretas que transportavam contêineres e que, até agora, não resultaram em nenhum tipo de punição para os culpados. O sofrimento continua a assombrar as famílias, mas elas encontraram, na tristeza em comum, a chance para apoiar umas às outras e unir forças para lutar por soluções.

As famílias Nóbrega, Rosseti e Costa são marcadas pela ausência de pais, irmãos e filhos, mortos pela negligência de condutores ou empresas que, conforme afirmam, transportavam cargas de modo irregular. Juntas elas esperam que providências sejam tomadas pelo Estado. Em um dos casos, essa espera já dura sete anos.

Datas diferentes, mas dramas iguais. Seráfico Nóbrega Filho, 49, foi morto no dia 3 de maio deste ano, quando dirigia seu carro com a esposa, Kadma Campos Nóbrega, 42, que estava no banco do passageiro. O contêiner, transportado sem pinos, se desprendeu da plataforma do caminhão e caiu sobre o carro de Seráfico. O acidente ocorreu no trecho conhecido como ‘bola da Gilette’, no Distrito Industrial de Manaus, Zona Sul. Kadma foi a única sobrevivente.

Exatamente 12 dias depois, o adolescente Brendon Lyon Moutinho Costa, 16, foi morto, também por um caminhão que transportava um contêiner, a cerca de cem metros do local onde Seráfico morreu. O adolescente foi esmagado por um caminhão no dia 15 de maio, quando se deslocava para um jogo de futebol.

O acidente ainda fez outra vítima: a industriaria Maria do Socorro Souza Lima, 42, que quebrou a perna, teve ferimentos na cabeça e precisou fazer uma cirurgia.

No dia 27 de maio 2005, o empresário Juscilande Rosseti morreu depois de ser atingido por um bloco de calcário, de aproximadamente 15 quilos, que caiu, de um caminhão caçamba, sobre o carro que ele dirigia. O caminhão trafegava sem nenhum tipo de proteção na alameda Cosme Ferreira, Zona Leste.

Longa espera
O choro surge rapidamente quando as famílias falam das perdas e só reforça a indignação delas com a Justiça e com os órgãos de trânsito estadual e municipal, que nada fazem, ou são demasiadamente lentos.

As três famílias sabem quem são os motoristas e as empresas donas dos veículos que provocaram a morte de seus parentes. No entanto, mesmo com a identificação, a Justiça caminha a passos lentos para os punir. No caso de Rosseti, em sete anos, houve apenas uma audiência, que terminou indefinida.

Já a família de Seráfico já entrou na Justiça pedindo a punição da empresa que transportava a carga sem pinos. E a família de Brendon Lyon registrou Boletim de Ocorrência (B.O) e aguarda a movimentação do poder público. As três famílias nunca receberam nenhum tipo de ajuda das empresas proprietárias dos veículos.

Estado não muda forma de trabalho
Até agora, a única manifestação de um representante público sobre a irregularidade cometida por motoristas e empresas responsáveis pelas carretas partiu do deputado estadual Luiz Castro (PPS).

Ele cobrou o Departamento Estadual de Trânsito (Detran-AM) que faça uma inspeção rigorosa nas carretas que transportam cargas.

Contudo, durante a série de matérias publicadas por A CRÍTICA, o Detran-AM informou que não existe nenhuma legislação que determine a fiscalização específica do transporte de carga em contêineres. O órgão ressaltou que os veículos são fiscalizados do mesmo modo que os carros de passeio para identificar irregularidades, como por exemplo, pneus carecas e ausência de licenciamento.

Omissão
Mesmo após A CRÍTICA denunciar, em uma série de reportagens, a imprudência e irresponsabilidade de caminhões que transportam cargas de até 40 toneladas pelas ruas de Manaus, sem segurança, nada foi feito pelos órgãos de trânsito municipal e estadual para fiscalizar o perigo ‘ambulante’. Os veículos continuam transportando contêineres completamente soltos pela cidade, colocando em risco a vida de qualquer cidadão que passa, de carro ou a pé, ao lado deles.

Iniciativa ajuda a superar
A iniciativa de unir as famílias partiu da irmã de Seráfico Nóbrega, Maria das Graças Madi Nóbrega, 55. Emocionada, ela conta que é preciso unir as famílias que passam por situações semelhantes para por um fim à impunidade e ao perigo que circula de carreta pelas ruas de Manaus, sem qualquer preocupação com a segurança.

Maria das Graças trabalha próximo a uma das maiores empresas de transporte da cidade, onde há movimentação intensa de carretas, e diz que, todos os dias, flagra veículos sem os pinos de segurança.

“Nessa hora, ninguém é diferente. Todos somos iguais, com o mesmo sofrimento. Só não podemos mais admitir essa irresponsabilidade. Mais pessoas podem morrer e ninguém, nenhuma autoridade faz nada”, desabafou.

Para o autônomo Janison Ribeiro da Costa, 41, pai de Brendon Lyon, unir forças com as famílias que compartilham da mesma dor é como ter um porto seguro. Ele conta que a vida dos familiares do adolescente vem sendo difícil desde a morte do rapaz. Janison, agora, luta para não se entregar à raiva que sente pela negligência do condutor e da empresa.

“Precisamos mesmo uns dos outros, porque parece que ninguém, exceto quem entende ou passou por isso, se importa. Até hoje, ninguém da empresa que matou meu filho apareceu para oferecer qualquer tipo de ajuda”,reclamou.

A filha do empresário Juscilande Rosseti, Silvana Rosseti, diz que a iniciativa de unir as famílias é muito válida. “Quem vive essa dor entende o outro só no olhar. Infelizmente, é uma união promovida pela situação triste de perder um familiar“, disse.

Tempo passa e leva ao esquecimento
Segundo Silvana Rosseti, os donos das empresas  envolvidas nos acidentes com contêineres transportados em carretas querem que tempo passe para que os casos caiam no esquecimento. Mas ela ressalta que isso não vai acontecer. “Não deixaremos que isso fique impune”, disse.