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"Financiar campanha é cultivar a corrupção", diz especialista

Declaração é da diretora do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE). Para ela, nenhum empresário doa R$ 100 mil à campanha eleitoral “sem querer dinheiro de volta” 23/04/2012 às 07:50
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Manifestação em Manus percorreu as principais avenidas e durou uma hora
LÚCIO PINHEIRO Manaus

O financiamento privado de campanha e a impunidade, fruto da burocracia jurídica, são os principais obstáculos ao combate da corrupção no Brasil. A avaliação é de lideranças de movimentos sociais e da Igreja Católica ouvidas nesse domingo (22), por A CRÍTICA. No último sábado (21), feriado de Tiradentes, manifestantes foram às ruas participar de marchas contra a corrupção em pelos menos 81 cidades do País.

Membro da diretoria nacional do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), Jovita José Rosa, que mora em Brasília, em entrevista por telefone, afirmou não ter dúvida de que o financiamento privado de campanha é a principal porta de entrada da corrupção na administração pública. “Nenhum empresário doa R$ 100 mil para campanha de alguém sem interesse. Sem querer esse dinheiro de volta”, disse Jovita.

A ativista defende que, além de fechar uma porta para a corrupção, o financiamento público de campanha daria igualdade de condições para todos os candidatos. “Acredito que um terço do que é gasto hoje seria suficiente para financiar as campanhas. Em igualdade de condições, as pessoas iriam discutir ideias”, afirmou a diretora do MCCE. O grupo articulou a histórica mobilização nacional que resultou na Lei Complementar nº 135/2010, conhecida como “Lei da Ficha Limpa”.

Para o padre Anselmo Dias, da Pastoral da Comunicação da Arquidiocese de Manaus, o Judiciário brasileiro precisa ser passado a limpo. E a sociedade deve fortalecer as cobranças aos legisladores por leis mais duras aos corruptos. “A gente ver muitas vezes que o Judiciário não colabora. Por isso, tem que ser passado a limpo. A corrupção tem se perpetuado por conta da impunidade. Precisamos aperfeiçoar as leis. Diminuir o número de recursos usados para protelar as decisões até o crime prescrever”, comentou o religioso.

Padre Anselmo Dias disse que, aos poucos, a sociedade adquire uma nova consciência, o que contribui para o fortalecimento das manifestações nas ruas. “Não é mais aquela população ingênua. Não só reclama, mas também reivindica seus direitos. O movimento social está se fortalecendo e mostrando que a sociedade não compactua com o errado”, afirmou Dias.

Em Manaus, a marcha contra a corrupção reuniu cerca de 200 manifestantes, na maioria jovens. De rostos pintados e cartazes na mão, os manifestantes percorreram as avenidas Constantino Nery, Darcy Vargas e Djalma Batista, na Zona Centro-Sul. A manifestação iniciou às 16h, e terminou por volta das 17h.

O engenheiro Aldeney Gandra, 27, chamou atenção para a importância do ato. “O Brasil precisa neste momento de iniciativas como essa. Temos recursos suficientes para investir em diversas áreas, mas vivemos em um País sem transparência no que dis respeito ao uso dos nossos recursos públicos. Nossa ideia é pedir um basta à corrupção no País”, disse.

Mobilização por redes sociais

Em Brasília, a terceira edição da Marcha Contra a Corrupção reuniu 12 mil pessoas, segundo estimativa da Política Militar. Os manifestantes percorreram a Esplanada dos Ministérios pedindo o fim do voto secreto, agilidade no julgamento do mensalão e o fim da impunidade em casos de mau uso do dinheiro público.

De caráter apartidário, as manifestações contra a corrupção são mobilizadas por meio das redes sociais, principalmente o Facebook. A próxima Marcha Contra a Corrupção está prevista para o dia 7 de Setembro, feriado da Independência do Brasil.

Para evitar a vinculação a grupos políticos, e até mesmo atos hostis, o movimento desencoraja a participação de políticos nas marchas. Em Manaus, o vereador e pré-candidato a prefeito Hissa Abrahão (PPS) arriscou e se uniu aos manifestantes. Mas tentou se desvincular da imagem pública. "Estou aqui não como um político, mas como simples cidadão fazendo minha parte para tentar combater atos ilícitos, de corrupção, qualquer tipo de atitude que prejudique a sociedade", declarou.

Violência policial em São Paulo

Em São Paulo, parte dos manifestantes da Marcha Contra a Corrupção entraram em confronto com a Política Militar (PM). Os policiais atiraram bombas de efeito moral para dispersar um grupo concentrado na Avenida Paulista, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp). A PM buscava liberar a avenida para o tráfego.

O tenente da PM Adriano Fernandes negou que a corporação tenha usado excesso de força ao jogar bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo contra manifestantes que fechavam a avenida Paulista. Segundo o tenente, dois manifestantes que jogaram paus e uma garrafa na direção dos policiais foram detidos. Não houve feridos no confronto, de acordo com Fernandes.

No Rio de Janeiro, cerca de 50 manifestantes se reuniram na manhã de sábado em frente ao posto 9, em Ipanema. Assim como em Brasília, eles cobraram dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) celeridade no julgamento do mensalão.

Jovita José Rosa Diretora do MCCE

“Novo ciclo está surgindo” A sociedade está mais participativa. Acredito que vamos viver um novo momento. Um novo ciclo de movimento popular está surgindo. O percentual da sociedade conformada com o quadro atual é muito menor do que o número de pessoas insatisfeitas. Nós precisamos fazer uma reforma política, para que tenhamos financiamento público. Para que todos tenham igualdade de oportunidades na campanha, inclusive as pessoas que têm vocação para a política. Os partidos precisam ser democráticos, não podem ter dono. Nenhum empresário doa R$ 100 mil para campanha de alguém sem interesse. Sem querer esse dinheiro de volta. Acredito que um terço do que é gasto hoje seria suficiente para financiar as campanhas.

Anselmo Dias Padre

“Caminho a consolidar” Nessa eleição, ainda vamos ver gente disputando que é publicamente reconhecida como autoras de crimes. Isso acontece porque, infelizmente, temos parte da população que acha que político é assim mesmo, que tem que ter trocar favores. Nós somos uma democracia jovem, e tem todo um longo caminho para consolidar o que ainda é frágil. Acredito que com uma educação melhor, o País possa melhorar. Que todos tenham condições de se reconhece r como cidadãos. Infelizmente, as pessoas entraram num ciclo de consumir muito grande, isso dificulta o crescimento de um nível de consciência. O cidadão pensa que o que ele conseguiu foi sozinho. E esquece que vive em uma sociedade que só foi possível por meio de lutas coletivas, com histórias bonitas de pessoas que deixaram de lado interesses pessoais e buscaram uma construção coletiva.