Publicidade
Manaus
CONSCIÊNCIA NEGRA

‘Fui criada feito escrava em Manaus’, lembra Tia Nazinha no Dia da Consciência Negra

Reivindicações, anseios, lembranças e histórias de luta marcaram a data na capital, como no Quilombo do Barranco de São Benedito, na Praça 14 20/11/2017 às 18:48 - Atualizado em 20/11/2017 às 18:51
Show cn1
Maria de Nazaré Spencer, a Tia Nazinha, de 91 anos (Foto: Paulo André Nunes)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Reivindicações, anseios, lembranças e histórias de luta marcaram o Dia Nacional da Consciência Negra, hoje, em Manaus. Um dos eventos mais tradicionais ocorreu no Quilombo do Barranco de São Benedito, localizado na avenida Japurá, no bairro Praça 14 de Janeiro, e que é o segundo quilombo urbano do Brasil a receber a certidão de autodefinição fornecida pela Fundação Cultura Palmares.

A programação contou com capoeira, maracatu, comidas e bebidas típicas, exposição do artesanato do grupo Criôulas de São Benedito e baterias de escolas de samba como a tradicional Vitória Régia, da própria Praça 14. Houve distribuição de feijoada e também a apresentação do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de alunos da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), com tema justamente sobre o Quilombo de São Benedito.


Festejos no tradicional Quilombo de São Benedito (Foto: Winnetou Almeida)

Segundo Cassius da Silva Fonseca, uma das lideranças do Quilombo do Barranco e vice-presidente e fundador da Associação do Movimento Orgulho Negro do Amazonas (Amonam), o Dia da Consciência Negra é para “fazer um pouco de tudo, para se reivindicar e lamentar”. “É superimportante e data da morte de Zumbi dos Palmares, mas é data conquistada pela luta dos movimentos sociais e negritude dos quais nós fazemos parte. É uma luta constante contra o racismo, preconceito e discriminação no nosso País. O Brasil é conhecido como um País racista, e existe o racismo preconceituoso, institucional e velado, silencioso”, detalha ele.

Para Cristian Rocha, presidente da Amonam, a celebração anual representa um dia de reflexão. “Nós escolhemos e brigamos por essa data para que fosse um dia de reflexão, para que cada cidadão colocasse em prática o que está na nossa Constituição que é o desejo, que teoricamente é muito bonito que perante a lei somos todos iguais, mas que, na prática, está muito longe de existir principalmente junto à comunidade negra. É um dia para se refletir e reivindicar”, comentou ele.


Artesanato do grupo Criôulas de São Benedito (Foto: Winnetou Almeida)

Filha de escravos e escravizada

Maria de Nazaré Spencer, a Tia Nazinha, de 91 anos, moradora da rua Frei José dos Inocentes, no Centro Histórico de Manaus, é um dos exemplos da garra da mulher negra amazonense. Filha de escravos nascidos em Barbados, ela relembrou, nesta segunda-feira (20), o sofrimento que passou ao ser escravizada quando criança por uma família branca.

“Sou filha de escravos e fui criada feito escrava em Manaus. Passei fome, comia numa cuia, era espancada, chamada de preta. Fui marcada com ferro quente, no peito, como um animal. A mulher que me criava me obrigava a ir para a ‘cobrinha’, que era a fila das padarias Rosas, na avenida Sete de Setembro, e a Progresso, na rua da Instalação para comprar açúcar às 4h. Chorei muito. Sou mãe de 18 filhos, avó de 48 netos e bisavó de mais e 40 bisnetos e caminhando para tataranetos”, disse Tia Nazinha.

Ato público nos Bilhares

Também nesta segunda-feira (20), a Praça da Fogueira, no Parque dos Bilhares, na Zona Centro-Sul da cidade, sediou um ato público em homenagem à cultura afrodescendente, com objetivo de valorizar a identidade negra através da música, dança, história, religião e esporte. A celebração contou com a presença dos grupos de Maracatu Pedra Encantada e capoeira Mestre Xangô. No local também houve palestras sobre o protagonismo negro e o papel da mulher negra na atualidade.


Pintura no barranco do Quilombo de São Benedito (Foto: Winnetou Almeida)