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Manaus
TRANSFORMANDO DOR EM AMOR!

Grupo completa 10 anos levando solidariedade a pais que perderam filhos

O Grupo de Apoio a Pais na Saudade (GAPS) leva mensagens de otimismo para quem enfrenta essa dor 07/10/2017 às 13:55
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Parte da coordenação do GAPS em encontro durante a semana / Fotos: Evandro Seixas e Márcio Silva
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Uma das ordens naturais da vida é que os pais se vão antes dos filhos. Mas, quando essa espécie de regra é quebrada, e é o filho que morre prematuramente, a dor e a saúde se multiplicam e surge a depressão e os questionamentos. E a saudade! Foi visando dar solidariedade aos pais enlutados que foi criado, há exatamente 10 anos, em 7 de outubro de 2007, o Grupo de Apoio a Pais na Saudade (GAPS), que leva mensagens de otimismo para quem enfrenta essa dor.

A iniciativa partiu da assistente executiva Fabíola Galvão, 57, após perder seu filho, Bruno em 2003, então com 15 anos após a condução escolar em que ele estava ter caído em um barranco. Após 1 ano do acidente, ainda em meio ao luto, Fabíola escreveu e publicou o livro “As Baquetas”, onde compartilhou a experiência da perda, sua dor e a fórmula que encontrou para enfrentar uma das maiores dores que um ser humano pode enfrentar que é ver um filho dentro de um caixão.

O livro alcançou grande repercussão transformando a autora em um referencial de mulher forte e corajosa, que enfrentava a morte do filho levando uma mensagem de otimismo para pais que estivessem enfrentando a mesma dor. A obra aproximou Fabíola de um grande número de pais que, como ela, haviam perdido filhos.

Em 10 anos o GAPS já atendeu 2 mil pessoas que buscam serem ouvidas, compartilhar seus relatos e superar seus traumas. Com o apoio extra do marido, o engenheiro civil José Galvão Neto, e do filho caçula Lucas, 25, a própria Fabíola se reconstrói diariamente a cada dia e sessão de reuniões do grupo, que se encontra todo último domingo de cada mês, de  17h às 19h, na sala Papoula do Parque do Idoso, em Vieiralves, Zona Centro-Sul da cidade.

“Ao longo destes 10 anos temos fortalecido e dado apoio a muitas famílias, muito colo, neste momento tão difícil. Os pais que nos procuram desmoronadas, detonadas, querendo saber o que aconteceu com elas e como nós conseguimos administrar o advento da morte em nossa vida. A morte é irmã da vida, uma está ligada a outra, mas nunca estamos preparados para o momento da despedida, e sim para o nascimento. E quando a lei natural da vida se inverte, que é o filho partir antes do pai, a coisa fica complicada de se administrar, de porquê ele foi na frente. Eles chegam a nós com essas perguntas, e como veem que já passamos por esse processo e tentando ajudá-los a entender, é como se uma mão os resgatasse do fundo de um poço, que uma luz está surgindo novamente. E as pessoas vão se reerguendo devagar”, disse Fabíola Galvão.

Luz em meio a dor

A advogada Cleonice Melo Carvalheira, 63, está desde a fundação no Grupo de Apoio a Pais na Saudade. Ela participou da primeira reunião há dez anos, ainda na residência de Fabíola Galvão. Cleo, como é chamada, havia perdido seu filho, Leandro Melo Carvalheira, 21, havia 2 anos, após uma parada cardio-respiratória decorrente de uma crise de asma. 

Para ela, o GAPS foi fundamental para que se sentisse amparada após a perda do filho, que tinha 21 anos. “Foram dez anos de aprendizado, amparando e sendo amparada, vivenciando um sentimento de gratidão muito grande. Pra mim foi só crescimento como pessoa, como mãe, e isso mexe com a estrutura familiar. Foi esse ponto na Fabíola que achei importante: que apesar de tudo a vida continua, e o Lucas precisava da mãe inteira. Fiz disso o meu norte e objetivo apesar de tudo. Tenho 4 filhos, um deles na parte espiritual, que é o Leandro”, afirma a advogada.

Volta por cima

O casal Alberto Figueiredo de Mendonça, 66, administrador de empresas e representante comercial, e a esposa Ana Suely Furtado de Mendonça também participam do GAPS desde o início. O grupo foi importante na vida deles para ajudar a acalentar a dor pela morte do filho Alberto Furtado de Mendonça, em 2001, aos 21 anos, após sua moto de 1000 cilindradas derrapar na Estrada do Turismo.

“O grupo nos dá alento ao percebermos que não é só você que está neste barco. Nos ajudamos, uns aos outros, a encarar a situação de forma diferente e em condições de ajudar outras mães e pais que perderam o filho em situação trágica”, disse Alberto, que é da coordenação.

Ele frisa que a família precisa ficar muito bem estrututurada, e inclusive religiosamente ter forças para reagir por meio da igreja, Bíblia e grupo. 
“A saudade nunca vai deixar de existir, mas se consegue através da fé melhorar, conviver e amenizar para conseguir superar a dor da perda”, conta ele.

Outra forma de terapia do casal após a perda do filho foi cursar uma faculdade - ele Administração e ela Pedagogia.

Outra lição de Alberto é ocupar o tempo visitando instituições de apoio a pessoas com câncer, deficiência (PCDs) ou abandonadas. “Devemos procurar algo para ocupar a mente, como visitar instituições como essas, pra fazer o bem e buscar o equilíbrio. Não podemos nos entregar”, prega ele.

Frase

“Dez anos de braços abertos; dez anos remendando corações; dez anos enxugando prantos; dez anos tendo analgésico de uma dor singular; dez anos transformando dor em amor”, de Maria Inês Pereira, Integrante do GAPS, mãe de Amanda.

Frase

"Tenho comigo a filosofia de que um filho jamais se enterra, jamais vai morrer no coração de uma mãe, de um pai”, de Fabíola Galvão, fundadora do GAPS. 

Em números

100

É o número aproximado de filhos que morreram das cerca de 2 mil pessoas que buscaram uma palavra de solidariedade, ou um abraço, do Grupo de Apoio aos Pais na Saudade, que neste sábado, dia 7, completa 10 anos de atividades e muito amor ao próximo.

Blog: Cremilda Ramos, psicóloga

Para perdas reais não há superação da dor, mas há a aceitação. Para esse luto, da perda de um filho, não tem remédio, é questão de tempo para aliviar o sofrimento por conta da aceitação. Nesse momento, quando se passa pelo luto, normalmente há muitas interrogativas, como ‘o que eu fiz?’, ‘porque aconteceu aquilo?’, ‘o que eu poderia ter feito?’. É necessário o exercício da fé, se buscar a religião para aceitar o que houve. A família é fundamental nesse processo, bem como amigos que a pessoa possui. Aliás, em todos os aspectos a família da pessoa é fundamental para dar apoio, para superar esse momento de perda do filho.