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Grupos de proteção de Manaus lutam para salvar animais que "sobraram" de feira de adoção

Entidades criticam falta de atenção do poder público para o destino dos animais abandonados 31/08/2012 às 19:30
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Na feira realizada em uma área da sede do CCZ no último dia 25, no bairro Compensa, apenas 20 animais foram adotados.
Elaíze Farias Manaus (AM)

Uma mobilização de entidades protetoras de animais de Manaus foi iniciada nesta semana para salvar os cães e gatos filhotes que não foram adotados na última feira promovida pelo Centro de Controle de Zoonoses (CCZ). O temor é que os animais (mais de 100) sejam infectados com alguma doença enquanto permanecerem no CCZ e sejam eutanasiados devido à saúde debilitada.

Na feira realizada em uma área da sede do CCZ no último dia 25, no bairro Compensa, apenas 20 animais foram adotados. Segundo informações do órgão, 40 serão encaminhados para as entidades que atuam como parceiras do CCZ. Os demais permanecerão no local. A próxima feira acontecerá no último sábado de setembro.

O destino dos animais que sobraram na feira tem causado uma comoção nas redes sociais devido à campanha que as entidades estão realizando para que os animais encontrem lares que os recebam.

Jaqueline Canizo, presidente da ong Compaixão Animal, diz que a entidade já retirou 20 cachorros e seis gatos filhotes que não foram adotados durante a feira. O acritica.com apurou que outras ongs (cujos membros pediram para não serem identificados nesta matéria) estão fazendo o mesmo. Há estimativa de que mais de 40 poderão ser acolhidos, número superior ao informado pela direção do CCZ.

Uma pessoa ligada a outra entidade disse que o CCZ solicitou ajuda porque no local não havia condições de manter os animais saudáveis. “Se ficarem lá acabam adoecendo e morrendo. Fora que não tem espaço para tanto animal. O abandono é grande. Muito triste. A gente está retirando, castrando e vermifugando para colocar para adoção. Mas vale ressaltar que as pessoas que trabalham lá fazem o possível para salvar, mas a população não ajuda, pois abandona todos os dias, e a prefeitura não tem coragem nem de dar a ração”, contou.

Falta de atenção

O problema do CCZ, contudo, ultrapassa a dificuldade em convencer a população animais abandonados e/ou deixados voluntariamente pelos seus ex-donos no local. Segundo Jaqueline Canizo (opinião partilhada por outras pessoas que atuam nestas entidades de proteção) é a indiferença do poder público à atenção dada aos animais de Manaus, à falta de estrutura do CCZ e ao ínfimo investimento dado ao setor os principais causadores da atual situação.

Para se ter uma ideia, no dia da realização da feira, os protetores de animais  foram ao local dar banho, dar remédio e até mesmo por perfume nos animais para que eles ficassem ficarem mais atraentes e assim conseguirem ser adotados.

“A feira aconteceu no sábado. Se os funcionários fossem fazer o trabalho, teriam que receber hora extra. O CCZ não tem estrutura, não tem condições para nada. O que estamos fazendo é o que a prefeitura deveria fazer. Tudo o que a gente faz é com nosso dinheiro. Não temos sequer um terreno para dar receber os animais.Eles ficam espalhados nas nossas residências”, disse Jaqueline.

A presidente da Compaixão Animal elogiou, contudo, a atuação do atual coordenador do CCZ, Francisco Zardo, dizendo que este deu abertura às entidades protetoras para que elas atuem como parceiras do órgão. Uma das contrapartidas do CCZ é abrir cotas de vagas para que as entidades possam ter acesso à castração gratuita dos animais recolhidos.

“O problema não é o CCZ em si, é a prefeitura. Com a entrada do Francisco Zardo a situação melhorou em relação ao que era. Antes era um matadouro sem parar e um caos total. Hoje, está só um caos. Pelo menos pararam com as matanças diárias dos animais”, contou Jaqueline.

Articulada e bastante contundente em suas críticas, Jaqueline contou que o CCZ precisa de uma reforma urgente e não apenas na sua estrutura física, mas na qualificação dos funcionários, no aumento do número de veterinários e na descentralização dos serviços.

“Para atender a Compensa está bem. Mas como uma pessoa que mora na Zona Leste e que não tem dinheiro vai levar seu animal de táxi ou de ônibus para o CCZ, no outro lado da cidade? O ideal seria colocar um distrito por zona. Por que a área de saúde da prefeitura deixa o CCZ nesse caos?”, disse.

O responsável pelo estado do CCZ e pela superpopulação de animais abandonados e nas ruas, porém, não é apenas o poder Executivo. Jaqueline reiterou o alerta de muitas outras entidades protetoras de animais: é o dono o outro culpado pela condição dos animais.

“Infelizmente, 50% do culpado somos nós seres humanos. As pessoas não têm posse responsável. Você não gostar de um animal ou não ter um animal em casa é um direito seu. Mas a partir do momento que pega e coloca no lar você tem o dever e a obrigação e cuidar”, disse Jaqueline.

Semsa

A reportagem enviou perguntas, por email, para Francisco Zardo e para a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) a respeito dos animais da feira. A resposta informa que, durante a feira, foram disponibilizados adultos e filhotes, mas só os filhotes foram adotados. “Muitas pessoas adotam para atender ao desejo das crianças e elas preferem os filhotes”, diz trecho da resposta, atribuída a Francisco Zardo.

Desde a segunda-feira, contudo, novos animais entraram no CCZ. Até nesta sexta-feira, o local recebeu 51 cães e 11 gatos por demanda espontânea (donos que deixaram) e 12 cães por remoção.

De acordo com a assessoria de imprensa da Semsa, em média o CCZ recebe 150 animais por semana, inclusive nos finais de semana e feriados, nas mais diversas condições. Desde grandes ninhadas até animais adultos com sérios problemas de saúde. A maioria, contudo, é saudável.

Parceria

Quanto à parceria com as entidades de proteção, a Semsa diz que ela surgiu do anseio das partes em aumentar o número de adoções e castrações disponibilizadas pelo CCZ, bem como promover ações educativas em posse responsável conscientizando a população da necessidade de se evitar o abandono de cães e gatos em benefício da saúde pública e do bem estar dos animais.

“Cada entidade protetora tem garantidas três castrações por semana e em contrapartida nos ajudam preparando os animais para a feira e divulgando nas redes sociais. Temos também, pessoas que nos ajudam voluntariamente, aos quais somos muito gratos”, diz Zardoa, em nota.

Zardo informa que CCZ está de portas abertas tanto à população em geral, quanto aos profissionais da área que queiram contribuir de alguma forma, seja adotando, cedendo uma cota de castrações, como fez recentemente uma clínica recém inaugurada na cidade ou simplesmente não abandonando seus animais sob qualquer pretexto.

Estrutura

A diretora do departamento de vigilância epidemiológica da Semsa, Sheley de Sá, reconheceu que o CCZ tem déficit de funcionários e, sobretudo, de veterinários. Apenas um ocupa o cargo. Outros três profissionais que estão na função de “fiscal veterinário”, cujo trabalho é realizar fiscalização nas ruas, acabam também atendendo à demanda, considerada “ilimitada”.

Sheley disse que uma de suas lutas é “ampliar a atuação” do CCZ. “O ideal é ter um distrito por zona. Seria um avanço. Estamos lutando por isso”, disse.

Ela informou também que um recente concurso público vai destinar dois novos veterinários para o CCZ e outros dois que ficarão de reserva. Ainda não há data para eles assumirem os cargos.

Sheley admitiu que o local não tem condições de atender à demanda de esterilizações devido à pouca quantidade de profissionais. Em média, as pessoas chegam a esperar vários meses para conseguir vaga do procedimento.

O horário de funcionamento do CCZ é de 8h às 18h. Para diminuir o impacto da baixa quantidade de funcionários, estes são distribuídos por turnos. O turno dos veterinários, por normas trabalhistas, é de apenas seis horas. No total, o CCZ tem 83 funcionários. Destes, 25 são agentes de zoonoses.

O orçamento do CCZ é financiado pelo Ministério da Saúde, que arca com as ações do órgão por meio do Piso de Vigilância em Saúde, repassado para todas as atividades de saúde da Semsa. Em 2012, o CCZ recebeu uma “proposta de R$ 450 a 500 mil”, segundo Sheley.

A contrapartida da prefeitura é destinada à manutenção de serviços de rotina, como pagamento de servidores, manutenção de veículos, manutenção do prédio, refrigeração das vacinas e serviços de água e luz.

“A gente está fazendo uma requisição de R$ 295 mil do Ministério da Saúde para investir na estrutura do CCZ. Nossa preocupação é melhorar a qualidade do ambiente dos animais e tentar descentralizar”, disse.

A folha de pagamento para 2012 do CCZ é estimada em R$ 1, 9 milhões, segundo a Semsa.