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Lista oficial de desaparecidos políticos no AM é contestada

Cientista política coloca sob suspeita número de pessoas que desapareceram, no Amazonas, durante ditadura militar 14/04/2012 às 08:25
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Simone Pinto foi uma das palestrantes de evento feito pela Escola de Magistratura
ROSIENE CARVALHO Manaus

A cientista política e professora do Centro de Pesquisa e Pós-Graduação sobre as Américas, Simone Rodrigues Pinto, declarou, ontem, que duvida que o número de desaparecidos políticos na época da ditadura militar no Amazonas sejam apenas três. A afirmação foi feita durante o Seminário de “Direitos Humanos no Acesso à Justiça” realizado ontem pela Escola de Magistratura do Amazonas (Esmam) em parceria com a Universidade de Brasília (UNB).

Um das palestras do evento foi o “Direito à Memória e a Verdade: Comissão de Verdade na América Latina” proferida pela professora. “Esse é o número oficial. Mas o número de desaperecidos me parece pequeno. Se houver a chance das pessoas se posicionarem. Todos os casos poderiam vir à tona. Duvido que sejam três desaparecidos no Amazonas. Assim como duvido que sejam só 700 no Brasil todo. O impacto talvez seja maior”, disse Simone Pinto ao indicar que também há inúmeros casos de abuso ao direitos humanos não contabilizados.

Ao mesmo tempo que criticou a demora para constituição da Comissão da Verdade, Simone Pinto exaltou a iniciativa de outras instituições que criaram suas próprias comissões. Disse que elas tomaram ações que já deveriam ter sido feitas pela Comissão da Verdade, como a da Câmara de Deputados que requisitou à CIA documentos referentes ao Brasil na época da ditadura.

“As universidades o legislativo, com a demora da constituição da comissão, criaram suas comissões. E todas essas vão ajudar a compor esse momento histórico”, afirmou.

Provocações

O reitor da Universidade de Brasília (UNB) e jurista, José Geraldo de Sousa Junior, também presente no seminário, declarou que “a Comissão da Verdade é só de verdade e de memória”. “Por enquanto, a Justiça ainda não está incluída”, disse José Geraldo de Souza disse que o resultado do trabalho da Comissão da Verdade pode fazer provocações para que seja feita Justiça em relação a todos os crimes cometidos no período da ditadura militar no País.

“A história não pode ficar ocultada. Deixamos que o nosso futuro fique sem as informações do passado diminuímos a interpretação do presente”, afirmou.

Para o reitor, deixar de punir os responsáveis pelos crimes praticados durante o período militar é estar na contramão do que vem ocorrendo no resto do mundo.

Simone Pinto disse que existem, no mundo, 30 comissões da verdade. E que no Brasil há um “certo medo” de desvendar o passado. “Muito disso vem do fato dos ditadores ainda ocuparem espaços de poder, na política e nas forças armadas”, disse.

Judiciário e a realidade social

Aproximar a Justiça da realidade social. Esse é um dos objetivos do seminário promovido pela Escola de Magistratura do Amazonas (Esmam) segundo um dos organizadores do evento, o juiz da Vara de Execução Penal do Estado, Luis Carlos Valois.

O seminário intitulado “Direito Achado na Rua”, inspirado no grupo de pesquisa que tem como foco temas relacionados aos direitos humanos e cidadania, lotou o auditório da Esmam nos dois primeiros dias do evento. As palestras iniciaram na quinta-feira e, em média, 400 pessoas participaram de cada debate. No total, foram abordados cinco temas em dois dias.

Os assuntos foram do pluralismo jurídico, tendo como foco os povos amazônicos, à formação do magistrado. As palestras continuam hoje, entre os temas: o Judiciário e os Movimentos Sociais.

Índios estão fora da relação

O indigenista e ex-missionário Egydio Schwade, 76, defende que cerca de 2 mil indígenas da etnia waimiri-atroari sejam incluídos na lista de desaparecidos políticos que será investigada pela Comissão Nacional da Verdade, criada em novembro último pela Presidência da República.

Ele é um dos principais agentes da mobilização que tenta tornar público o desaparecimento dos indígenas durante a construção da BR -174 ( Manaus/Boa Vista) que atravessou o território deles e neste período a população waimiri-atroari sofreu verdadeiro massacre.

“O massacre aconteceu por etapas e envolveu diferentes órgãos do regime militar”, declarou o indigenista em entrevista publicada no jornal A CRÍTICA do último dia 8.

Schwade desde o ano passado divulga artigos por meio do blog que mantém na internet “urubui.blogspot.com.br” sobre os episódios que envolveram a violenta ocupação das terras indígenas.