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Manaus
Política, Eleições 2012, TRE/AM, São Gabriel da Cachoeira

Logística de municípios desafia a Justiça Eleitoral para garantir eleições no Amazonas

Em 42 lugares remotos no interior do Amazonas, as eleições são um momento único, onde equipamentos e “gente da cidade” viajavam, em pelo menos três modalidades de transporte, com o objetivo de garantir que os eleitores possam votar 19/05/2012 às 22:23
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No início da década de 2000, a estrada de acesso a comunidades rurais de Manaquiri não era asfaltada e causou obstáculos à Justiça Eleitoral
Rosiene Carvalho Manaus

O Amazonas tem pelo menos 42 comunidades isoladas, classificadas como “de dificílimo acesso”, pelo Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM). Nesses locais, a Justiça Eleitoral empenha complexa logística com transporte por meio de helicópteros, hidroaviões e canoas. Tudo para que os 12.637 eleitores, entre os quais, indígenas, tenham assegurado, a cada eleição, o direito ao voto.

Os locais que demandam maior trabalho e custo têm eleitorado que representa 0,59% dos mais de 2 milhões de eleitores do Amazonas. Num Estado marcado por histórico vazio institucional e de acesso à cidadania, coube à Justiça Eleitoral não excluir brasileiros do processo democrático.

As áreas de dificílimo acesso ficam concentradas em 14 municípios.

“Todas são absurdamente distantes. Nenhuma aqui é fácil. Nenhuma aqui não é onerosa. Todas essas são relacionadas aos nossos piores casos. São soluções  caras para serem rápidas. Sem isso, o nosso meio de transporte seria o fluvial e demoraria dias para a apuração como era antes”, afirma a coordenadora de Logística do TRE-AM, Germaine Martins.

O Município de São Gabriel da Cachoeira - a 858 quilômetros  de Manaus -, é o que concentra maior número de comunidades de dificílimo acesso por causa da geografia da região.

Para esse município, o TRE-AM tem sete planos de distribuição de urnas para chegar às comunidades mais distantes da sede de São Gabriel da Cachoeira. Em todos, os deslocamentos são aéreos. Caso contrário, a apuração de votos poderia demorar dias para ser encerrada. Para cada seção, o tribunal tem um número de urnas reserva para o caso das mesmas apresentarem qualquer problema. A medida evita que a votação saia prejudicada. “Em nível nacional de todos esses pontos os mais complicados são os de São Gabriel”, disse.

A localidade identificada como Boca da Entrada, na área mais extrema de São Gabriel, por exemplo, é indicada com maior grau de dificuldade de acesso. A única forma de chegar ao local é de helicóptero, isso para evitar prejuízo ao pleito.

Há locais que a trajetória para que o voto seja exercido envolve deslocamentos de canoa ou de carros por mais de 400 quilômetros dentro da floresta por meio de estrada sem asfalto. em vários trechos os técnicos do TRE-AM ficam sem comunicação.

“É carro que atola, pessoas que ficam sem comunicação e agente pensa que aconteceu alguma coisa até que recuperamos contato”, disse o coordenador de Infraestrutura do TRE, Rodrigo Carvalho.

Urucarazinho
Nos registros pós-urna eletrônica, a única vez que um local deixou de participar foi em 2005, no referendo. A comunidade de Urucarazinho, em Urucurituba -  a 212 quilômetros de Manaus -, foi fortemente atingida pela seca e nem helicópteros conseguiram chegar no local.

Urnas x adversidades
Hoje, o TRE-AM tem total controle da logística para levar urnas, mantê-las em funcionamento independente de apagões de energia e transmissão de votos para Brasília. Mas iniciar o trabalho foi um passo ousado, pioneiro e quase que de “bandeirantes” nos rincões do Amazonas.

O gerente de Tecnologia de Informação do TRE-AM, Jander Valente, trabalha há 22 anos no tribunal e é a memória viva deste processo. Ele conta que apesar do sistema de votação eletrônica ter sido usado pela primeira vez em 1996, no Amazonas  somente  em  1998  a  votação. E foi nesse mesmo período que os técnicos do TRE, na busca de tecnologias que propiciassem uma apuração de votos mais rápida iniciaram a experiência que, em duas eleições, foi aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral e utilizada em outros pontos de difícil acesso. Hoje, 1,2 mil localidades do País transmitem via satélite os votos computados na urna.

Heróis anônimos
Os funcionários do TRE-AM colecionam histórias que vão do pitoresco ao drama no mapeamento, ao longo dos anos, das áreas de dificílimo acesso e na construção da garantia do voto no interior do Amazonas.

A pior de todas foi registrada na primeira vez que o tribunal implementou a transmissão de voto via satélite em todo Estado, em 2002.  O monomotor PTE-BK que levava dez urnas para serem instaladas nas comunidades de Pari Cachoeira, Tanuretê e Paracuá, no Município de São Gabriel da Cachoeira caiu.

No acidente, três universitários Fagner Costa, José Gorgonha e Túlio Sakamoto morreram. Eles seriam os responsáveis pela transmissão dos dados. Em meio a dor e a tristeza, “a eleição ocorreu, tivemos que repor aquelas urnas”, recordou a gerente de Logística do TRE-AM, Germaine Martins.