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Manaus
Quatro décadas de aflição

Mãe procura filha após 42 anos de naufrágio ocorrido no rio Solimões, no Amazonas

Dos quatro filhos que viajavam com ela no dia do acidente, três foram encontrados – todos mortos –, mas uma menina, de 7 anos, nunca foi encontrada 09/11/2017 às 16:16
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Apesar do naufrágio ter resultado na morte de três filhos, Rosa acredita que a filha foi criada por um casal de professores Foto: Euzivaldo Queiroz
Álik Menezes Manaus

Todos os dias, ao longo dos últimos 42 anos, a pensionista Rosa Silva de Freitas, 67, vem sofrendo com lembranças de uma noite de terror vivida em uma embarcação que naufragou no rio Solimões, nas proximidades do município de Manacapuru (a 68 quilômetros de Manaus). Dos quatro filhos que viajavam com ela, três foram encontrados – todos mortos –, mas uma menina, de 7 anos, nunca foi encontrada e, após ouvir relatos de uma história semelhante no interior, a idosa mantém vivos a esperança de que a menina tenha sobrevivido ao incidente e o sonho de reencontrá-la.  

Rosa estava grávida de sete meses quando viajou para Anamã, onde encontraria o marido, que era militar e havia sido transferido para o município. O desastre aconteceu na madrugada do dia 1º de setembro de 1975: o barco era o Freire II e a pensionista ainda lembra detalhes da noite de horror.

“Eu estava dormindo com dois filhos na rede e os outros dois estavam em outra rede. Quando acordei o barco já estava afundando, foi um horror, fiquei até 8h da manhã seguinte me segurando em galhos de árvores até que me resgatassem. Só encontraram três corpos, foi muito sofrimento”, contou. 

Além do sofrimento com a morte confirmada de três filhos, Rosa ainda disse que viveu todos os dias dos últimos 42 anos com a sensação que a filha está viva e nutrindo esperanças de que a menina, registrada como Jacineide Silva de Freitas, esteja viva. Ela aposta na divulgação da história para encontrar a pequena, hoje com 49 anos.

Essa esperança veio à tona dois meses após o acidente, quando ela foi informada que um casal de professores havia adotado uma criança de 7 anos que tinha perdido os pais, com as mesmas características da filha dela, no município de Manaquiri (a 156 quilômetros da capital). “Estava de resguardo ainda, mas enfrentei a dor e o desconforto e fui em busca dela, mas não achei. Uma professora me falou que, dois dias antes, esse casal tinha se mudado para Manacapuru. Fui para Manacapuru, mas também não achei mais, desde então vivo essa agonia. Perder um filho é a pior coisa do mundo, imagina quatro”, desabafou.

Aliadas na busca

Rosa tem duas outras filhas que acompanham o sofrimento da mãe e também esperam um dia encontrar a irmã desaparecida. A idosa contou que conta com o apoio da família e agradece a Deus por não ter enlouquecido. “Eu peço, pelo amor de Deus, que quem souber sobre ela entre em contato com a gente e acabe com o nosso sofrimento. Essa história é muito dolorosa. Só Deus para dar esse conforto”, disse.

Coração de mãe abriga 11 filhos

Apesar de ter perdido cinco filhos - além dos quatro no naufrágio, um quinto morreu há dois anos -, Rosa Silva de Freitas se tornou “mãe do coração” de muitas crianças e jovens. No total, Rosa foi mãe de 11 filhos, sete deles biológicos e outros quatro adotivos. 

“Eu dei muito amor a cada um deles. Filhos são insubstituíveis, mas eu tentei suprir essa falta, esse vazio no meu coração, amando outros filhos. Adotei, ajudei, criei e até crio meus netos como se fossem filhos”, contou. 

Apesar do sofrimento pela perda, a casa de Rosa é bem movimentada todos os dias. “Raramente a gente almoça sozinho, sempre tem muita gente ao redor dessa mesa e recebo muitas vistas”.

Saudosismo

Semanalmente Rosa Silva de Freitas vai ao cemitério com os filhos e netos visitar  os túmulos dos filhos que morreram no naufrágio e do marido. Emocionada, ela conta que sente saudade deles todos os dias. A pensionista ainda acredita que a filha pode estar viva e pede  ajuda para reencontrá-la. “Podem ligar para a gente pelos números 99196-4586 ou 99101-3560 ou até ela mesma, vendo essa notícia”, disse.