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Manaus
Cotidiano, Gravidez precoce

Mães são cada vez mais jovens em Manaus

Entre 2010 e 2011, houve aumento de 7,22% no número de crianças e adolescentes, entre 10 e 19 anos, que deram à luz 29/04/2012 às 16:18
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Débora Julie Brelaz engravidou de Mateus aos 17 anos de idade e, ao contrário do que pensava, teve muito apoio
Florêncio Mesquita Manaus

O número de crianças e adolescentes com idade entre 10 e 19 anos, que deram à luz em sete das oito maternidades públicas de Manaus, aumentou 7,22% no período de um ano, entre 2010 e 2011, segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (Susam).

Somente em 2010, um total de 8.600 mil jovens com idade entre 10 e 19 anos tiveram filhos na capital contra 9.221, em 2011.

Em contrapartida, 30.753 mulheres com idade entre 20 e 50 anos deram à luz, em 2010, nas unidades especializadas da rede de saúde pública. Já em 2011, o número saltou para 31.097.

Os partos foram realizados nas maternidades administradas pelo Governo do Estado e que integram o Sistema Único de Saúde (SUS). Juntas, as maternidades Alvorada; Ana Braga; Balbina Mestrinho; Nazira Daou; Azilda Marreiro; Chapot Prevost e Instituto da Mulher disponibilizam 707 leitos obstétricos.

A cada ano, 700 mil crianças e adolescentes se tornam mães no País sendo que, pelo menos, 2% têm entre 10 e 14 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De cada cem mulheres que têm filhos no Brasil, 28 engravidam antes dos 18 anos. A maioria não tem nenhuma preparação psicológica.

De acordo com o médico e secretário estadual de Saúde, Wilson Alecrim, a taxa de natalidade entre crianças e adolescentes cresce por conta de uma série de fatores. Entre eles, está à falta ou negligência de informação e de qualidade de vida, além da ausência de métodos contraceptivos, planejamento familiar e até mesmo violência sexual.

Para Alecrim, quando a gravidez na adolescência não está associada à violência, no caso de estupro, a principal causa é a falta de informação no ambiente familiar e educacional aliada à ausência de acompanhamento dos pais. Segundo o secretário, a gravidez na adolescência ainda pode acarretar em uma série de problemas de saúde - físicos e psicológicos - ou mesmo sociais.

Ele ressalta que, ao contrário de mulheres maiores de idade, o corpo de uma criança ou adolescente não está preparado e não tem estrutura adequada para lidar com uma gestação, embora esteja apto a fecundar o óvulo. Sem a formação, quase 100% da gravidez de adolescentes terminam em partos cirúrgicos, também conhecidos como cesariana, quando o ideal seria parto vaginal ou normal.

Outro problema da gravidez na adolescência, apontado por Alecrim, é a criação dos filhos. Ele ressalta que em muitos casos, os filhos de adolescentes são criados pelos pais ou por tios das jovens mães.

Quando as jovens mães decidem criar os filhos, abrem mão da educação que ainda não foi concluída, lazer, entre outros aspectos, que a maioria não está disposta ou preparada a renunciar.

Municipal
Na única maternidade da rede municipal de Saúde, Moura Tapajoz, localizada na Zona Oeste de Manaus, foram realizados 3.908 partos somente em 2010. Já em 2011, foram realizados 3.017 partos. Em 2012, até março de 2012, a maternidade realizou 838 partos com uma taxa de ocupação hospitalar média, em janeiro, de 91,5%; em fevereiro, de 92%; e em março, de 88%.

A maternidade também absorve boa parte da demanda de jovens mães da capital. A maternidade tem 46 leitos de internação obstétrica, das quais 40 são internações cirúrgicas e seis de internações clínicas, além de mais cinco leitos de Unidade de Cuidado Intermediários (UCI neonatal).

Despreparo é comum
A estudante Débora Julie Brelaz está entre as jovens que se tornaram mães na adolescência. Aos 17 anos de idade, Débora engravidou e viu sua vida mudar de maneira inesperada. Ela descobriu que estava grávida aos quatro meses de gestação, quando fez uma ultrassonografia acreditando estar com um cisto.

Ao ouvir o médico dizer que estava grávida, Débora conta que foi como se “o mundo tivesse acabado” e “não soubesse mais o que fazer”.

O primeiro dilema de Débora após sair do consultório foi contar para os pais sobre a gravidez.

Segundo ela, a dificuldade de falar para mãe foi envolvida em choro e desespero de quem sentia que tinha decepcionado os pais. Como ocorre na maioria dos casos, os pais de Débora ficaram atônitos.

A gestação da adolescente foi seguida de meses de preocupação, tristeza, conflitos e renúncia da maioria das atividades que estava acostumada a fazer. Ela teve que abandonar o estudo a poucos meses de terminar o Ensino Médio e outras atividades que gostava de fazer.

Rapidamente Débora teve que lidar com responsabilidades para as quais não estava preparada. Mãe solteira, jovem e com o pai renegando a paternidade, Débora conta que pensava que todos virariam as costas para ela, mas aconteceu juntamente o contrário.

Nove meses depois, os problemas deram lugar à alegria de ver o sorriso do pequeno Mateus, atualmente com seis meses de idade.

“O Mateus veio com um propósito. Ele é um presente para minha família. Ele me deu um motivo para correr atrás e conquistar o que eu quero. Nossa casa está mais alegre. Agora sei o que é amor de mãe”, disse.

Débora deu à luz a Mateus na maternidade Alvorada e está entre as 9.221 mães com idade entre 10 e 19 anos, que tiveram filhos nas maternidades públicas da cidade, em 2011.

Ela reflete as situações apontadas pelo secretário de Saúde, Wilson Alecrim sobre os motivos da gravidez na adolescência e o mal-estar psicológico e emocional sentido por jovens grávidas.

A jovem também passou por uma situação que muitas gestantes já vivenciaram na capital amazonense. Mateus foi registrado apenas com o nome da mãe e dos avós maternos. Débora luta na Justiça para que o pai de Mateus o reconheça como filho.

Hoje, a jovem deseja terminar o Ensino Médio e ingressar na faculdade de Odontologia.

“Foi uma surpresa para todos e até para mim. Fui passar férias no Rio de Janeiro e voltei grávida, sem saber. Claro que sinto falta de sair. Vejo todo mundo se divertindo, mas estou convencida que tudo mudou e que agora tenho mais responsabilidade”, contou.

Quando estava prestes a ter o filho, Débora, passou por duas maternidades que estavam lotadas, até chegar à terceira, onde deu a luz. “Fui à Moura Tapajós e me encaminharam para o Instituto da Mulher. Fui parar na maternidade Alvorada”, disse.