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Manaus
Quem faz e quem assiste

Massacre de presos do Compaj expõe o sadismo pela barbárie

Especialistas tentam desvendar o que se passa pela mente dos presos que executaram rivais na chacina e de quem sente prazer em ver as imagens dos corpos esquartejados 09/01/2017 às 05:00
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Isabelle Valois Manaus (AM)

A frieza e a crueldade dos encarcerados diante do massacre ocorrido no último domingo no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), localizado no quilômetro 8 da rodovia BR-174 (Manaus-Boa Vista), choca e nos faz questionar sobre o sentido da palavra humanidade em uma situação dessas.

Quem recebeu imagens e vídeos da rebelião pelas mídias sociais e teve a curiosidade em ver se deparou com a barbaridade dos presos. São corpos e mais corpos decapitados e até queimados. Os vídeos ainda mostram os encarcerados envolvidos com a rebelião esquartejando os corpos com uma total naturalidade como se fosse algo mais que comum a se fazer, sem qualquer receio ou sinal de humanidade para com o próximo.

Como classificar?

Mas, para os profissionais que atuam diretamente com o comportamento humano, a mente humana, como é visto esse tipo de comportamento? São considerados psicopatas? São sociopatas? Ou são pessoas que agiram naturalmente como no cotidiano?

Para a professora da pós-graduação em dependência química da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), a psicóloga Carla Dimarães, tudo se resume na questão da influência social e dos grupos onde os indivíduos se encontram inseridos.

“Sabe-se que essas facções agem de maneira cruel com seus adversários e que internamente motivam os seus a práticas que fogem da normalidade humana. Em nome de uma "justiça" com os seus pares, eles parecem ser capazes de cometer atos, delitos cruéis ou até uma psicose coletiva, como vimos no caso desta rebelião”, detalha Dimarães.

Para a professora, que tem especialização em psicologia clínica, é possível explicar o ato através do funcionamento de uma mente criminosa, onde valores e normas sociais são totalmente desprezados. “A partir da perspectiva psicopatológica, o sujeito, quando transgride as normas sociais, certamente desenvolveu transtornos psicológicos. A análise de cada sujeito, de sua história pessoal e motivações é importante para essa avaliação. Dessa maneira, não é possível precisar o transtorno sem um acompanhamento do sujeito”, afirmou, ao explicar que, para afirmar se os encarcerados teriam problemas psicológicos, seria necessário fazer um acompanhamento mais detalhado com cada indivíduo.

A psiquiatra Giulia Santoro segue na mesma linha. Ela afirma que antes de apresentar qualquer parecer clínico é necessário avaliar cada indivíduo para confirmar se estes possuem algum tipo de transtorno mental. Santoro disse que, de imediato, no geral são pessoas sádicas (aquelas que sentem prazer ao fazer outras sofrerem), e por isso se pensa logo no transtorno de personalidade ou até mesmo a psicopatia, mas nem sempre são questões principais, pois antes de tudo é necessário avaliar o convívio social.

Sobre a forma de matar (torturando e esquartejando os encarcerados), a psiquiatra considerou um ato de frieza, mas acredita que tudo é relacionado com a convivência do indivíduo, que muitas das vezes nem o chega impactar. Para Giulia Santoro, o massacre não ocorreu como forma de psicose coletiva, pois todo o ato foi muito bem elaborado e organizado para que seja considerado psicóticos.

Atendimento dos reféns

Giulia trabalha no Hospital Psiquiátrico Eduardo Ribeiro. No dia do massacre, estava no plantão e foi a responsável por atender mais de 20 agentes penitenciários terceirizados que cumpriam serviço no Compaj. Para a psiquiatra, a preocupação incial é que agentes passassem por uma avaliação emergencial. Na avaliação, foi verificado que eles apresentaram quadros de estresse pós-traumático.

“Não precisei nem receber fotos ou vídeo. Atendi mais de 20 funcionários da penitenciária e eles relataram a tamanha barbaridade que ocorreu e no qual foram obrigados a presenciar. Essas pessoas ficaram à disposição de desenvolver doenças crônicas, pois o que eles viram foi algo que se vivencia em uma guerra”, disse. “Essas pessoas ficaram muito expostas à essa situação. Os que estão dando continuidade ao tratamento apresentam sintomas sérios como insônia, medo e revivem as cenas. Espero que, daqui para frente, eles tenham um acompanhamento profissional para evitarem futuros transtornos”, contou a psiquiatra.

Giulia Santoro explicou que os agentes feitos de reféns precisam de um acompanhamento multidisciplinar de imediato, terapias ocupacionais e se duvidar o tratamento deve ser estendido até mesmo para as famílias.

“Eles foram obrigados a conviver com algo que não havia relações sociais com a vida de cada um. Muitos aceitam o trabalho por se tratar a única fonte de renda familiar. Esses agentes não possuem um tratamento de choque policial e isso é preocupante. O trauma se estende às famílias e me assusto ainda mais quando vejo que pessoas que não tiveram o contato físico no local, querem ver fotos, assistir os filmes e os compartilhar, isso é uma propagação da perversidade”, disse a especialista.