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Moradores de áreas com problemas de abastecimento de água em Manaus buscam alternativas

Alternativas para moradores de áreas com abastecimento problemático vai da compra do mineral à popular cacimba 26/03/2012 às 07:54
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A babá Raione da Silva retira água de uma cacimba localizada no bairro Nova Vitória: alternativa é a solução de quem enfrenta a falta do líquido precioso
Cimone Barros Manaus

Sem encanamento de água ou regularidade no abastecimento pela Águas do Amazonas, muitos manauenses buscam formas alternativas de ter o líquido em casa. As mais comuns são as ligações clandestinas, a compra de água de poço artesiano do vizinho e a aquisição do mineral nos poços comunitários ou de entidades filantrópicas. Mas têm outras formas menos usuais, como “aparar a água da chuva” ou usar água das populares cacimbas.

Apesar de Manaus ter o 6º Produto Interno Bruto (PIB) do País entre as capitais, cerca de um terço da população da cidade (600 mil pessoas) não tem água regular, principalmente nas zonas Norte e Leste da cidade.

Com interrupções durante alguns dias ou as pouquíssimas horas diárias de água, é comum encontrar nas casas situadas nessas zonas pessoas que tem vários vasilhames para armazenar água.

Esse é o caso da dona de casa Raimunda Pereira, 65, moradora da rua Arruda do bairro João Paulo, Zona Leste. Com média de uma hora de água por dia, ela tem dois camburões de 200 litros, uma caixa de 310 litros, vários baldes pequenos e cerca de 30 garrafas pets.

Segundo ela, há dias que “nem dá água”, como no último sábado. Daí o jeito é apelar para o poço do vizinho. Para encher o camburão custa R$ 3, e a caixa d’água R$ 5. “Água é vida, é uma coisa que ninguém pode ficar sem, não é mesmo?”.

Na rua Preciosa, do bairro Nova Vitória, a situação é ainda mais crítica. No local há duas caixas d’água de abastecimento construídas há três anos, mas que nunca atenderam os moradores.

Os registros só foram abertos para limpar as caixas. Nessa parte do bairro, alguns moradores apelam para as ligações clandestinas, “os gatos”, com encanamento que vai pegar água na rua principal, a pista da Raquete. A maioria paga religiosamente taxas de R$ 40, R$ 60 por mês, dependendo da quantidade de água, para um dos vizinhos esticar a mangueira e puxar água do poço artesiano. “É assim que a gente vai vencendo”, disse o morador Rogério Costa, 38.

Cacimba é alternativa na ‘hora h’
No Nova Vitória, na rua Prosperidade, a infraestrutura da via é uma contradição ao nome. A rua tem uma camada fina de asfalto, esburacada, mal iluminada e depois de um certo ponto é só uma baixada sem asfalto; parece um grande buraco (vale) onde moram cerca de 30 famílias.

Nesse lugar, a água “termina fácil” e alguns moradores fazem cacimbas, uma espécie de poço artesanal de pouca profundidade (2 metros, por exemplo), muito comum no Nordeste e presente no interior do estado.

Neste lugar hoje há três cacimbas. Uma delas é da família da babá Raione da Silva, 19, e da costureira Alcilene da Silva, 30. Elas pagam uma mensalidade de R$ 35 de água de um poço particular, que abastece dia sim dia não, mas o produto não é suficiente.  Cada uma tem a sua casa e sua família, mas ambas utilizam a cacimba, com 1,95 m de profundidade. “Essa área é um olho d’água e essa cacimba é uma salvação. A gente lava roupa e louça com a água daqui”, disse Raione.

Quantidade diária e padrões
A Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que a quantidade diária para suprir as necessidades de consumo e higiene é de 110 litros por indivíduo. A abundância de recursos hídricos criou a cultura do desperdício e o consumo aqui é de 187 litros por pessoa. Mais importante que chegar à medida padrão é perceber a quantidade de excessos e desperdícios incluídas nesse consumo. Mas, para quem não recebe a água regularmente, não há como falar em desperdício.

‘Regularidade’ de 1 hora e conta de R$ 130 em média
A dona de casa Nilce Pinheiro, 58, mora há 15 anos no bairro Armando Mendes. A casa dela também fica numa baixada, no beco M, da Rua M. Com apenas uma hora de água por dia (e que que não é regular), ela não pensa duas vezes em utilizar a água da cacimba. O local conta até com uma “prancha” (tábua) utilizada para lavar roupa e louças dos moradores.

Nilce já fez quatro cacimbas onde mora; hoje, só usa uma; as outras ela fechou. Uma vizinha também tem um desses “reservatórios”. “Quando falta água, ela me serve muito. Até os vizinhos daqui de baixo, lá de cima, todo mundo corre pra cá. É pra lavar fralda de bebê, roupa de gente grande, louça”, conta ela.

Quem também já apelou para a cacimba várias vezes foi a dona de casa Socorro Nunes, 48, que mora na rua R, quadra 57, do mesmo bairro. Na casa dela a água chega normalmente todo dia também por apenas uma hora. Mas o abastecimento ganhou essa regularidade nos últimos três meses. Antes, nem isso, e a conta chegava em sua casa com valores entre R$ 120 e R$ 130, segundo a moradora. Este mês a fatura veio em R$ 114, mesmo com uma hora de água por dia. “A gente comprava água de poço pra beber e eu ia lavar roupa na cacimba no quintal da minha mãe, no final da rua Itacolomi”, contou.

A aposentada Jósima Moraes, 65, há mais de 20 anos possui um poço com 35m de profundidade que atende três casas da mesma família. Para beber, ela pega água de um poço comunitário. “Se fosse depender da Águas do Amazonas estava frita. Meus vizinhos sofrem”, disse.

Águas aguarda finalização de obras
A Águas do Amazonas informou que, em relação ao Nova Vitória, que surgiu de uma invasão em terras da Suframa, o Governo do Estado iniciou o processo de regularização fundiária para fazer a infraestrutura incluindo o abastecimento, com as duas caixas d’água, e a empresa aguarda a finalização destas obras e o repasse ao Município de Manaus para operar o sistema.

Em relação ao Armando Mendes e João Paulo, a assessoria da concessionária disse que a maior parte destes bairros recebe abastecimento de água todos os dias, com média de até 12 horas. Informou ainda que os problemas de distribuição de água nos locais estão ligados a duas questões, principalmente.

Uma é a ineficiência energética com oscilações e interrupções, que comprometem o sistema de água. A outra são fraudes e furtos onde, em Manaus, são cerca 90 mil ligações, ou seja, cerca de 56% dos 200 bilhões de litros produzidos anualmente pela concessionária são perdidos.

 Já em relação as ruas citadas, a empresa disse que fará inspeção técnica nesta segunda-feira a fim de equacionar quaisquer situações pontuais que possam estar ocorrendo (como vazamento inperceptível, obstrução de ramais de água e outros).