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Manaus
Risco diário

Moradores de áreas de risco convivem com o perigo quase dentro de casa

Famílias ainda "moram" diariamente com a preocupação e o medo que uma tragédia aconteça. Atualmente, 15 bairros estão no mapeamento de áreas de risco da Defesa Civil do município 02/09/2017 às 06:00 - Atualizado em 02/09/2017 às 09:08
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Dona Neurides tve a casa interditada no bairro Gilberto Mestrinho, mas mesmo assim não quer deixar o local: "Não tenho para onde ir" / Fotos: Aguilar Abecassis
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Apesar da Defesa Civil do Município ter iniciado ações de prevenção e atualização do mapeamento de “áreas de risco muito alto”, muitas famílias ainda convivem diariamente com a preocupação e  o medo que uma tragédia aconteça, sem previsão de quando o problema será resolvido ou quando eles poderão sair de lá.

No bairro Gilberto Mestrinho, Zona Leste - que, junto com os bairros Jorge Teixeira e Mauazinho, tem o maior número de pontos de risco alto do tipo R4 (que diz respeito a deslizamentos e desabamentos) - a dona de casa Neurides de Souza Soares, 54, moradora da rua londres, é vizinha de um barranco. Vizinho que vem “invadindo” o quintal dela, um pouco a cada chuva. 
Neurides teve a casa interditada pelo Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb) após uma adutora ter rompido e prejudicado a casa dela e outras, que começaram a rachar e ficar seriamente comprometidas. No entanto, mesmo em face da interdição, ela não quer deixar a pequena residência, que tem apenas dois cômodos: uma sala de estar. que serve ao mesmo tempo de cozinha, e um quarto.

“Estou esperando me tirarem daqui a exemplo de outras pessoas que já saíram. A Defesa Civil esteve aqui na última segunda-feira fazendo um fichamento e dizendo que iriam passar aqui, mas nada até agora”, relata ela, que mora no imóvel com a nora, um filho e um neto. O medo de morar ali existe, mas ela diz que não tem outra opção. “Tenho medo de morar perto do barranco, mas não temos pra onde ir. Investi R$ 6 mil aqui nesta casa antes de saber que era uma área de risco alto”, ressalta.

Nova Vitória

No bairro Nova Vitória, também Zona Leste, o borracheiro Ednelson Ferreira, 45, não consegue dormir direito por morar praticamente à beira de um barranco e uma lixeira à céu aberto na rua Jesus Me Deu.

“Essa área é tranquila para morar, mas precisamos de obras públicas, pois residimos, eu e meus filhos, à beira do barranco. Mais três casas estão ameaçadas. O que gostaríamos é que todos tivessem moradia digna”, disse o trabalhador, que mora há quatro anos em uma habitação de alvenaria, com outras 11 pessoas.

Medo da chuva

Ednelson explica que a situação se agrava na época de chuvas na região. “Sentimos mais temor na época de chuvas, pois corre risco de desabar. Nesse tempo eu nem durmo, com medo. Nos sentimos desamparados. Já teve até carro que caiu no buraco. Há muitas crianças, além do risco de doenças, já que os buracos viram lixeiras e esgoto a céu aberto”.

Lixo

O aposentado José Brito Lima, 60, mora há dez anos na rua Jesus Me Deu, no bairro Gilberto Mestrinho, com mais cinco familiares, e já se cansou de relatar problemas para as autoridades, no entanto sem solução até o momento. “Certa vez o lixo já veio parar na minha casa”, comentou ele, mostrando fotos da situação.

Carro caiu no barranco

O mototaxista Josimar Costa Moreira, 43,   mais conhecido como “Rambo”, é morador da área de risco do bairro Nova Vitória e disse que, acredite se quiser, há alguns anos até um veículo de sua propriedade caiu dentro do barranco. “Já fui vítima: um tempo desses meu carro caiu dentro do buraco”, ressalta ele, que vai além ao falar dos problemas do local.
“Até mesmo a ambulância do Samu tem medo de chegar perto do buraco. São mais de 15 anos pedindo ao poder público para resolver esse problema. E de uma hora pra outra pode acontecer uma tragédia”, comentou “Rambo”, que reside com mais 6 pessoas perto do barranco. Ele comenta que a situação fica pior ainda quando chove. “E ainda falta iluminação nos postes”, completa.

Venda impossível

Em alguns locais de risco é difícil de se encontrar comprador. O ambulante José Rodrigues, 33, sabe bem disso. Morador da rua Nador, no João Paulo 2º, ele conta que tentou vendeu sua residência, cujo quintal dá para um despenhadeiro, mas que não arruma comprador. “Tá difícil, as pessoas não querem morar nesse local”, frisa ele. Morando com 2 filhos, ele conta que é inevitável sentir medo da cratera, que cresce. Próximo à sua casa ocorreram deslizamentos que comprometeram a situação dos imóveis. Diferente foi o que ocorreu na rua Jesus Me Deus, no Nova Vitória: de frente para o perigoso barranco, o antigo proprietário vendeu seu casebre por R$ 3 mil para um casal que ainda vai ocupar o local, apesar do perigo.

Alunos aprendem prevenção

Com o tema “Educar para Prevenir”, agentes da Defesa Civil do Amazonas estão ministrando instruções práticas de emergências a alunos de escolas públicas. Esta semana, os alunos do 5º ano, da Escola Municipal Elvira Borges, na bairro Compensa 2, Zona Oeste, foram os beneficiados. A ação ocorreu de maneira lúdica, com a performance divertida do mascote do órgão “Chico Prevenido”.

“Nossa missão é sempre prevenir e ensinar as crianças como proceder em situações emergenciais faz parte desse processo. Com as instruções eles se tornam multiplicadores da informação no ambiente familiar”, enfatizou o agente de Defesa Civil, Charles Barroso.

Entre os assuntos abordados com os alunos estão os cuidados durante as ocorrências de desastres naturais, como enchentes, inundações bruscas, chuvas com raios e vazantes. Outro tema abordado são os perigos das doenças de veiculação hídrica e a destinação correta do lixo.

Rayson Nascimento, 11, era um dos mais participativos durante a palestra e interagiu com o Chico Prevenido. “Eu gostei muito do mascote e aprendi que não devo jogar lixo nos igarapés, para não entupir os bueiros e alagar as casas”, disse o estudante.

Jornada

A ação nas escolas faz parte das atividades do programa “Jornada de Justiça e Cidadania”, promovido pelo Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM), e será realizada até o dia 19 de setembro  nas redes municipal e estadual de ensino.

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