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Manaus
conjunto degradação

Moradores de bairro da Zona Norte de Manaus estão preocupados com obra próxima a igarapé

Construção de conjunto habitacional próximo a área verde deixa moradores da Cidade Nova temerosos pelo pior 23/01/2012 às 09:28
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Imóvel está a aproximadamente 300 metros do Igarapé do Goiabinha, um dos maiores afluentes do Igarapé do Mindu
Cimone Barros Manaus

Moradores do bairro Cidade Nova 5, Zona Norte, estão preocupados com a construção do conjunto habitacional Ozias Monteiro 2, por parte da Secretaria de Habitação do Amazonas (Suhab). O imóvel ficará num terreno atrás da Academia da Polícia Civil (Acadepol), na avenida Noel Nutels, e com início a aproximadamente 300 metros do Igarapé do Goiabinha, um dos maiores afluentes do Igarapé do Mindu. O limite do conjunto ficará a 80 metros do igarapé.

O receio é o de que o novo conjunto diminua a riqueza da biodiversidade na Área de Preservação Permanente (APP) do igarapé, a qual ainda tem “muita vida”, além de prejudicar o antigo projeto de criação do corredor ecológico do Goiabinha. Curiosamente, as obras iniciadas no último dia 5 de janeiro, conforme placa afixada em frente ao empreendimento feito com recurso do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Pró Moradia do Governo Federal, constam no site da Suhab dentre aquelas de produção de moradia de 2003 a 2010 “em construção” (http://www.suhab.am.gov.br home/modules.php?name=Content&pa=showpage&pid=3).

 “Aqui é um cinturão verde do igarapé. Nessa mata tem vários buritizeiros, preguiça, paca, mucura, tamanduá e uma série de pássaros. Às vezes, quando a gente está esperando o ônibus às 5h da manhã é comum encontrar esses bichos tentando atravessar a pista”, disse o autônomo Marcos Litaiff, 43, morador do núcleo 22.

 De acordo com o autônomo Frank de Souza, 48, a obra surgiu “de repente” e pegou os moradores de surpresa. “Colocaram as máquinas, começaram a trabalhar aí e derrubar as árvores. Essa área ainda tem muita vida e esse igarapé precisa ser preservado. Cadê o corredor ecológico do Goiabinha que desde a gestão passada da Prefeitura é prometido?”, questionou.

Outro lado

O conjunto de 192 apartamentos para servidores públicos receberá um investimento de R$ 8,9 milhões e deve ser concluído no prazo de oito meses, segundo o diretor-presidente da Suhab, Sidney de Paula.

A obra que iniciou pelo antigo campo de futebol da Acadepol (ele tem no máximo 10 mil metros quadrados) abrangerá uma área de 30 mil metros e o empreendimento ficará a uma distância de 80 metros do igarapé, ou seja, pelo menos será suprimida a vegetação equivalente a mais dois campos.

 “O conjunto ficará a 80 metros do igarapé, quando a lei estabelece preservar 30 metros de mata ciliar de cada lado. Então, não vamos prejudicar o igarapé porque a obra vai ficar longe dele e terá uma estação de tratamento de esgoto, que vai tratar o esgoto antes do jogá-lo no igarapé”, afirmou Sidney.

Semmas fará corredor ecológico

 Segundo a chefe de Divisão de Áreas Protegidas da Semmas, Socorro Monteiro, o órgão tem projeto para implantar um corredor ecológico na APP do igarapé do Goiabinha, que junto com o Geladinho são os principais contribuintes do igarapé do Mindu, que já possui corredor ecológico e parque linear.

 “Trabalhamos com essa possibilidade. O mais adiantado é do Igarapé do Gigante, que tem proposta inicial de corredor ecológico, porque tem grande parte da APP preservada, e está em estudo o parque linear”.

O parque linear será nos moldes do igarapé do Mindu, onde na área degradada houve desapropriações e instalação de equipamentos de lazer e uso público, como praça e playground. Já os corredores ecológicos são estratégias para aumentar a proteção de uma área e o objetivo é ligar uma área a outra, permitindo que “uma área verde se comunique com a outra”. “Se o empreendimento ficará a 80 metros do igarapé, isso é bom, porque legalmente são 30 metros e não impede de implantar o corredor ecológico. Mas se a área for maior, maior será o beneficio”, garantiu Socorro.

Imóvel com mensalidade a R$ 281

O Ozias Monteiro 2 será constituído de seis blocos, de quatro pavimentos, cada um com 32 apartamentos. As unidades habitacionais serão pequenas, de 37 metros quadrados (m2), compostas por dois quartos, sala, cozinha e banheiro. As mensalidades devem ficar em torno de R$ 281, a exemplo do Ozias Monteiro I, também para funcionários públicos, que fica no Manoa e tem previsão de entrega até março.

 “Ainda vamos definir a seleção dos servidores (Ozias 2), mas é provável que o pessoal da Secretaria de Segurança Pública queira alguma coisa, já que o conjunto fica na área da Acadepol”, disse o diretor da Suhab.

Expansão que degrada

De acordo com o coordenador executivo da Fundação Vitória Amazônica, o geógrafo e Mestre em Ecologia Carlos Durigan, a instalação de condomínios e a expansão urbana são os principais fatores para a degradação ambiental de Manaus e de seu entorno, e qualquer diminuição de fragmento florestal é uma perda trágica. “Ademais, esses fragmentos florestais são habitat do Sauim de Coleira, que está ameaçado de extinção”.

 Segundo Durigan, o que sempre se discutiu é que as matas ao longo do igarapé, mesmo que não tenham tão rica biodiversidade, como no passado, tem importância para garantir o fluxo dos animais, como o Sauim, e a preservação de dezenas de espécies de árvores. Ele lembra que as áreas verdes ao longo do igarapé são importantes porque ligam vários fragmentos que estão em áreas de conservação, algumas institucionais e outras privadas como, por exemplo, a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) da Honda.

 “Essas obras mudam a dinâmica do igarapé e podem ser, também, um risco potencial para as pessoas. O igarapé vai receber águas lavadas e isso ajuda a assorear o local, que fica com a água mais túrbida e causa uma série de problemas que vão influenciar negativamente a dinâmica do igarapé, que nas áreas de baixada e na época de chuva pode provocar enchentes”, explicou o geógrafo.

Segundo Durigan, a ONG entende que a população está aumentando e há necessidade de moradias na cidade, induzido até pelo crescimento econômico de Manaus (6º PIB das capitais brasileiras). Porém, o poder público precisa fazer um planejamento levando a ocupação para áreas com degradação, áreas onde o impacto ambiental seria menor. “A gente ainda tem, também, muitas áreas ociosas e aparentemente abandonadas, que poderiam ser ampliadas para oferta de imóveis. Mas isso não acontece”, explica ele.