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Mortes na Ponta Negra: relatos de dor e tristeza

Revolta e sofrimento estão entre as emoções vividas por familiares de pessoas que morreram afogadas na Praia da Ponta Negra. Em três meses já são 16 vítimas 16/12/2012 às 17:47
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Suely, mãe de Fábio Nascimento, 20
Elaíze Farias Manaus (AM)

A dor e a tristeza tomam conta do corpo e da expressão da doméstica Suely Nascimento, 35, mãe de Fábio Nascimento, 20, última vítima a morrer na praia da Ponta Negra antes desta ser interditada em definitivo. Era o dia 15 de novembro e Fábio Nascimento acompanhou sua patroa – ele trabalhava em um parque de diversão -, alguns amigos e a namorada (que está grávida de um mês) no início da manhã até a praia. Todos tinham saído do trabalho do parque, que funcionou até alta madrugada.

Sempre acompanhado da namorada, que sabia nadar, Fábio preferia continuar na parte mais baixa para “não se arriscar”, segundo a mãe. Subitamente, assim como as demais vítimas, também desapareceu. “A namorada dele me disse que meu filho ficou o tempo todo perto dela. Ele não se atrevia a ir para uma área onde não se garantia. Quando o Fábio sumiu, ela ainda tentou salvá-lo, mas não conseguiu encontrá-lo. Ela me contou que era fundo demais”, diz Suely.

Em sua casa, no bairro João Paulo III, na Zona Leste, Suely não consegue segurar a intensidade de sua revolta. “Meu filho foi o último a morrer. Por que não interditaram antes? Por que não fizeram aquilo direito? Ele era um bom menino, não tinha o que reclamar dele. Me ajudava na casa. Quando fomos ver o corpo no IML ele estava com o rosto desfigurado, comido pelo peixe”, conta.

Após conversa com familiares, Suely conta que decidiu entrar na justiça contra a Prefeitura. O primeiro passo, segundo ela, será procurar informações na Defensoria Pública Federal para saber o procedimento. “Decidimos processar porque meu filho poderia ter escapado da morte se a praia tivesse interditada. Ele foi o último a morrer”, disse.

Angústia

 “Meu irmão nadava melhor do que eu”, diz R.M.N.F, de 15 anos, segurando a foto do irmão, Randerson Frota, 18, morto no dia 2 de setembro. “Não sei porque meu filho morreu. Dizem que ele teve uma câimbra, mas foi muito rápido. Ele nadava muito bem”, completa Rosa Frota, 45, cuja angústia foi tão intensa que ela se mudou da casa onde vivia, no bairro João Paulo I para se afastar dos objetos e do ambiente que se associavam a Randerson.

“Fiquei realmente surpresa com a morte dele. Falaram que estava bêbado. Mas ele não tinha esse costume. Nunca ficou alcoolizado. Não bebia nem fumava. Pelo que sei, ele mergulhou e ainda tentou voltar. Mas não conseguiu. A terra tinha sumido debaixo dos pés dele. Isso foi no final da tarde”, diz Rosa.

Randerson trabalhava em uma empresa terceirizada no Distrito Industrial, cuja renda ajudava na manutenção da família. “Ele me dava todo o dinheiro que recebia. Ajudava a cuidar do irmão mais novo. Era o homem da casa. Fiquei tão abalada que saí de casa. É muito sofrimento”, conta.

Rosa diz que se afasta da televisão para não saber notícias da Ponta Negra e que, no início, ficou sem saber que procedimento tomar. Passados três meses após a morte do rapaz, ela começa a recuperar o controle para pensar em entrar na justiça. “Vou procurar a Defensoria Pública. Não tenho dinheiro. Isso não pode ficar assim. Ele tinha muita coisa para fazer pela frente, muita vida”, conta Rosa.


“Ele sabia nadar muito bem”

Lorenilson Silva, 26, diz que jamais imaginava que seu irmão morreria afogado, pois ele sabia nadar. “Nós somos de Parintins. Sabemos nadar desde criança”, diz ele sobre o irmão, Lucivaldo Silva, 23, morto no dia 14 de outubro, logo após a reabertura da praia artificial, após um mês interditada quando as mortes por afogamento começaram a repercutir na cidade.

“Ele tinha acabado de receber o seguro-desemprego e arrumado outro trabalho. O tempo dele era para trabalho, casa e igreja. No dia em que ele foi para a Ponta Negra, estava acompanhado de amigos e namorada. De tarde, recebemos a notícia da morte. Isso nos chocou. Ele sabia nadar muito bem. Por mais que tivesse bebido, ele nadaria para se salvar”, relata Lorenilson.

A namorada do rapaz, Marilza Tomé, 25, conta que ela, Lucivaldo e os amigos não tinham ido à Ponta Negra para tomar banho, mas apenas para passear. “A gente ficou mais conversando. O momento em que meu namorado sumiu foi quando a gente já estava voltando. Ele disse que iria se lavar e voltar. Ele passou por mim, pegou na minha cintura e entrou na água. Uma pessoa ainda viu quando ele boiou uma vez. Um colega ainda pulou n´água e viu que ele estava no fundo. Ele tinha bebido mesmo, mas não a ponto de morrer por causa disso. Nunca ouvi falar que as pessoas morriam na Ponta Negra porque tinham bebido”, conta.

Lucevilson diz que a revolta foi grande quando surgiram novas notícias de mortes na imprensa a ponto de a família começar a pensar a entrar na justiça. “Ainda estamos desnorteados. Mas muita gente morreu lá. Não é possível que isso seja algo normal por isso estamos pensando em entrar na justiça sim”, conta.

Segunda vítima

Bruno Ferreira de Matos foi a segunda pessoa a morrer logo após a inauguração da praia permanente da Ponta Negra. Era dia 7 de julho. Tinha acabado de completar 24 anos. O número de óbitos ainda não impressionava e sua morte foi apenas mais um número no boletim de ocorrência.

“Meu irmão ia muito na Ponta Negra. Ele estava acostumado. Mas como não sabia nadar, ele não se atrevia passar da parte rasa. Nunca ia para a parte funda. Mas mal ele entrou na água o negócio foi logo acontecendo. Sumiu. Nunca tinha ouvido falar disso, de morrer tanta gente ali”, conta Andréia Moraes, 32.

Amigos de Bruno disseram a Andréia que o rapaz ainda tentou se salvar segurando o cordão de um colega e este também foi para o fundo. O amigo, que sabia nadar, conseguiu emergir. Bruno, não conseguiu retornar.

“Na época, não havia tantos acidentes, mas eu já tinha a ideia de que aquela obra era perigosa. Eu fiquei muito chateada. Pensei em fazer uma denúncia no Ministério Público mas voltei atrás. Ia ser muito desgaste, ia mexer com gente grande. As vítimas são de famílias humildes”, conta Andréia, que ainda avalia o desejo ir à justiça contra a prefeitura.

Caso dramático

Um dos casos mais dramáticos envolveu o garoto Maurício Nóbrega Ribeiro, de 11 anos, que “sumiu” na frente de sua mãe, quando brincava de mergulhar e emergir na parte mais rasa na tarde do dia 23 de outubro. “A gente se preparava para deixar a praia quando meu filho entrou na água e não voltou. Corri para pegá-lo, mas não consegui encontrá-lo. Ainda pulei atrás dele porque sei nadar. Só depois que eu chamei atenção das pessoas próximas é que encontraram ele, mas já estava morto”, relata a atendente Andréa Nóbrega, 31.

Andréia não poupa lágrimas quando lembra do filho e não esconde indignação contra quem tentou acusá-la de negligência, como foi cogitado na época. “Eu estava com uma latinha de refrigerante (Baré) e os Bombeiros ficaram perguntando das outras pessoas da praia se eu estava bêbada”, diz.

A atendente e seu filho chegaram na Ponta Negra às 10h. Depois de divertirem-se e se alimentar, os dois estavam de retorno quando o menino, na última brincadeira, morreu. “Ele estava perto de mim. Não me afastei dele. Tinha testemunhas. Enquanto arrumava bolsa ele ainda brincava. Ele tapava o nariz e entrava n´água, na parte baixa. Quando ele sumiu de repente. Como não consegui encontrá-lo, comecei a gritar por ajuda. Os bombeiros estavam longe, na parte da barraca, e ainda ficaram falando que não eram babás de ninguém”, relembra Andréia.

Para a atendente, que junto com a família do filho já planeja entrar na justiça, “o mínimo” que a Prefeitura deveria fazer era “se retratar” e assumir que não fiscalizou a obra. A tia de Maurício, Débora Benayon, 24, se diz “muito revoltada” e está mais decidida a entrar na justiça. “Quando começou a morrer muita gente eles não fizeram nada. A praia continuou aberta. Já procuramos advogados e vamos pedir orientação”, conta.

Os nomes  

Lista das  vítimas de afogamento na praia da Ponta Negra entre julho e novembro tem 16 nomes, são eles:  

Cleiton Cristiano dos Santos, 27

Bruno Ferreira de Morais, 24

Bruno Souza Melo, 24

Fabrinny Ribeiro Farias, 29

Márcio Roberto da Silva, 26

Hérica Letícia Ferreira dos Santos, 22

Jonathas de Souza Alves, 41

Ailton Benício da Silva, 18

Dulci Maria de Aquino Lima, 46

André de Souza Rebelo, 33

Randerson Menezes Nascimento Frota, 18

James Veras da Costa, 17

Lucivaldo Cruz da Silva, 23

Mauricio Nóbrega Ribeiro, 11

Erison da Silva Costa, 19

Fábio do Nascimento, 20