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Mudança de vida: ex-traficante vira homem de fé em Manaus

Ezequiel de Araújo Melo já foi considerado um dos principais membros do tráfico na Zona Leste de Manaus. Segundo ele, o superintendente da Polícia Federal no Amazonas e sua família contribuíram para que ele abandonasse as drogas 22/08/2012 às 08:34
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Ezequiel de Araújo Melo, o “Kéia”, que comandou as bocas de fumo no Coroado por 28 anos, quer ajudar jovens a deixar vício
Joana Queiroz Manaus

O ex-traficante de drogas, Ezequiel de Araújo Melo, o “Kéia”, que já foi considerado o maior do bairro Coroado, Zona Leste, e mandante de vários homicídios, disse ter mudado de vida. Ele que já chegou a usar a estrutura do Departamento de Inteligência (DI) da Polícia Militar em benefício do tráfico agora ganha a vida como comerciante na Zona Leste, é membro de uma igreja evangélica e, por meio de seu testemunho, ajuda pessoas se libertarem do vício. Na última terça-feira (21) , ele palestrou para uma plateia formada por pais e adolescentes que vivem em situação de risco.

O ex-traficante se apresenta, hoje, pelo nome pelo verdadeiro, Ezequiel. Quando é chamado pelo apelido, ele diz que o “Kéia” morreu no dia 23 de março de 2004, quando foi preso pela Polícia Federal e que, segundo ele, foi quando decidiu mudar de vida, deixar as drogas, pagar o que devia à sociedade e levar uma vida longe da criminalidade.

“Eu agradeço muito ao doutor Sérgio (Sérgio Fontes, superintendente da PF), que me ajudou muito enquanto eu tive preso lá, ele conversava muito comigo e a minha família, que nunca me abandonou”.

O ex-traficante falou da sua experiência no mundo da droga, que começou como usuário, aos seis anos, até se tornar dono de bocas de fumo; mostrou como é perigoso estar envolvido com o tráfico, as consequências e falou que nunca se deve desperdiçar as oportunidades que aparecem para se livrar do mundo das drogas.

“Eu comecei fumando maconha aqui no Coroado”, contou. Segundo ele, a mãe, na tentativa de protegê-lo, levou-o para morar em Codajás, onde ele passou a ter acesso fácil a maconha, pois próximo de onde morava, havia uma plantação. Quando retornou para Manaus, já adolescente, passou a vender droga. Segundo ele, foram 28 anos comandando o tráfico no Coroado. Ele disse que chegou  ter mais de 30 “aviões”, pessoas que vendem a droga direta ao usuário.

Gravações telefônicas autorizadas pela Justiça, feitas pela polícia, mostraram o envolvimento de alguns policiais com o traficante que o avisavam da realização de operações policiais no Coroado e advertiam-no a não ficar no bairro. Em outra, o policial avisava que, em um determinado dia, uma viatura da polícia ia circular pelo bairro, mas que ficasse tranquilo, pois já estava tudo acertado e que não se esquecesse de mandar o “uísque do comandante”.

Kéia era suspeito de envolvimento em três homicídios, todos ocorridos no Coroado. Entre eles, a do padrasto, o Santos Clidevar; do funcionário público, Gean Oliveira de Araújo, 20, ocorrido em outubro de 2011, no bar Balão. Este último está em investigação. O crime teria sido cometido por engano, já que o alvo seria o policial José Benedito Aparecido da Silva, o “Bené”, acusado de ter jogado duas bombas na casa da mãe de Kéia. Uma outra vítima seria o dono de uma borracharia na alameda Cosme Ferreira.

Depoimento

O depoimento que Ezequiel Melo prestou no Ministério Público Estadual (MPE) deu origem a uma investigação que teve como alvo soldados e oficiais da Polícia Militar. Eles foram investigados pela Coordenadoria de Combate ao Crime Organizado (Caocrimo). Nos depoimentos, Kéia conta como o aparelhamento policial era usado em prol do crime. Na época, ele confessou que resolveu contar tudo porque tinha medo de ser morto por policiais que o extorquiam e outros que trabalhavam para ele, inclusive assassinando pessoas, sob encomenda.

Ex-traficante diz que se arrepende

Ezequiel Melo disse que quando ganhou a liberdade, passou a ir à igreja evangélica que a mãe dele frequentava e acabou se convertendo, há nove anos. Atualmente, ele congrega na igreja Ministério Internacional Maranatha, no Coroado, Zona Leste, onde disse colaborar com seu testemunho.

Ontem, durante a palestra ele falava sobre o amor que Deus tem pelas pessoas e convidou as famílias a amar os seus, mesmo os dependentes de droga, pois Deus não abandona seus filhos. Ele disse que quando estava sob o efeito da cocaína, se tornava tímido e medroso; já sob o efeito de álcool, ficava eufórico.

Ezequiel diz que está liberto e que hoje tem ódio de droga. Há uma semana ele procurou o Programa Tocando em Frente para pedir ajuda para um sobrinho que é usuário. Ele disse que se arrepende de ter colaborado para que muitos se tornassem viciados.