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Mulheres falam sobre juventude desperdiçada em programas sexuais

Um das personagens, mãe solteira, sem estudos e oportunidade de trabalho, resolveu experimentar a prostituição para sustentar o filho, hoje com 28 anos 04/06/2012 às 07:29
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Jaqueline, em frente ao terreno do antigo ‘Maria das Patas’, diz ter trabalhado no local para sustentar o filho pequeno
Ana Celia Ossame Manaus

Fazer programas sexuais, dançar e beber. A ordem dos acontecimentos nem sempre era essa nas casas onde funcionavam os prostíbulos, mas eles sempre aconteciam. Quem revela isso é Jaqueline Oliveira, 47, que trabalhou, no início da década de 80 do século passado, no prostíbulo conhecido como “Maria das Patas”, situado no bairro de Petrópolis, Zona Centro-Sul. Casada com um vigilante, por ironia do destino os dois estão morando num apartamento situado na obra de um centro educacional existente no local onde funcionava a “casa de programas”.

O início da atividade, segundo Jaqueline, foi quando tinha 22 anos de idade e nada de maturidade. Mãe solteira, sem estudos e oportunidade de trabalho, resolveu experimentar a prostituição para sustentar o filho, hoje com 28 anos. Como gostava de se divertir, achou boa a proposta de trabalhar com dona Maria das Patas.

“As mulheres ficavam num salão esperando os homens chegarem para beber e escolher as que queriam para transar”, conta ela, que permaneceu nessa atividade por mais de oito anos. “Só era ruim por ter que ficar a noite sem dormir. Eu me sujeitava porque tinha que sustentar meu filho”, afirma Jaqueline, que nunca foi maltratada, mas testemunhou esse fato acontecer com colegas.

Belas e cheirosas
Os rendimentos eram bons, segundo Jaqueline, pois a clientela era formada por caminhoneiros, empresários e comerciantes. Havia disputa entre mulheres, que usavam artimanhas para ganhar os clientes.

“Tínhamos que andar bem arrumadas, cheirosas e bonitas”, conta ela, que só mantinha relações sexuais com parceiros que usavam preservativos porque naquela época foi o início do aparecimento da Aids, Doença Sexualmente Transmissível (DST) causadora de muitas mortes.  “Por medo, eu dispensava os homens que não queriam usar o preservativo”, lembra ela, que por conta desse comportamento nunca teve doenças venéreas.

Jaqueline lamenta não ter conseguido dinheiro suficiente para comprar uma casa, mas culpa a si mesma. “Eu só pensava em curtir”, disse ela, que tem ainda lembra da proprietária da casa de programa, dona Maria.

Segundo Jaqueline, que hoje é doméstica, os programas eram feitos em quartos de madeiras situados no terreno da casa dela, que criava patos. Ela nunca esquece o comentário sincero de dona Maria das Patas quando os clientes comentavam sobre os inúmeros animais circulando no quintal. “Patos são vocês que vêm aqui deixar dinheiro”, dizia a dona Maria.

Lembranças de um tempo ‘áureo’
Outra que fez muitos programas sexuais na área da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição e Itamaracá, inclusive strip-tease em casas de show foi Márcia (nome fictício). A convivência nesses ambientes, segundo ela, a fizeram conhecer pessoas importantes.

Daquele passado, ela fala do luxo e da vaidade mantidos com a prostituição. “Eu era uma mulher muito bonita, curti muito essa vida, dancei, me diverti com advogados, médicos, empresários e garimpeiros, que me davam muito ouro e diamantes”, lembra Márcia, que hoje, no entanto, reconhece não ser uma atividade abençoada porque nada conseguiu guardar, além das lembranças.

Márcia chegou a desfilar de topless em um carro alegórico de uma escola de samba famosa no Centro da cidade. Muito vaidosa, só usava roupas de marcas famosas, assim como sapatos de coleções e perfumes importados. “Meu cabelo era lindo, todo arrumado. Eu andava com joias e brilhantes nas ruas, mas nunca fui assaltada”, revela Márcia, que esteve no Garimpo de Serra Pelada, no Pará, onde ganhava ouro e pedras preciosas.

No tempo em que trabalhou no Distrito Industrial, levava a roupa de baile para a fábrica e de lá já saía pronta para a “guerra”. Das lembranças, cita o amor de um homem que conheceu no garimpo de Arariboia, Porto Velho.

“Ele me encheu de joias, pedra de diamante de muitos quilates, mas eu era muito nova, não quis saber e fui continuar na prostituição”, diz ela, que se afastou das casas de programa quando a mãe a viu numa  boate e desmaiou. Hoje, evangélica, Márcia lamenta saber que mulheres da época dela ainda está na atividade. “Se pudesse dar conselhos, eu diria que é uma vida da qual nada se tira, a não ser ilusões”, finaliza.

Código de postura
No início do século passado, o Código de Posturas do Município trazia orientações a respeito da prostituição, com o objetivo de ocultá-las, mas não erradicá-las inteiramente da sociedade. Um artigo dizia que, sob pena de repressão, a prostituta não deveria expor-se ao público na janela e nem conversar com os transeuntes em via pública.