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‘Não devemos repetir a sacralização dos partidos’, diz Marina Silva em entrevista

Apontada nas pesquisas de intenção de voto como a segunda colocada na corrida presidencial, ex-senadora coleta apoio em Manaus para o registro do seu novo partido no Tribunal Superior Eleitoral 25/03/2013 às 08:34
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Marina Silva esteve em Manaus no sábado (23) para pedir apoio
Florêncio Mesquita ---

A ex-senadora Marina Silva não descartou que seu novo partido, cujo nome será Rede de Sustentabilidade, lançará candidato ao Governo do Amazonas, nas eleições de 2014. Ela preferiu não apontar nomes na tentativa de não antecipar as eleições, mas garantiu que no momento oportuno apresentará as propostas da sigla para o Estado. Marina afirmou que a Rede terá candidato à Presidência da República, mas não confirmou seu nome para a disputa. Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira coloca a ex-senadora como a segunda colocada nas intenções de voto na corrida presidencial.

Marina esteve em Manaus no sábado (23) para pedir apoio à criação da legenda que já conta com mais de 100 mil das 550 mil assinaturas necessárias para o registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No Amazonas, a coleta de assinaturas está ocorrendo somente em Manaus. Marina Silva concedeu entrevista para a imprensa na manhã de sábado. No evento, estava acompanhada do deputado estadual Luiz Castro (PPS) e de militantes do antigo Movimento Marina Silva que marcharam com ela na campanha presidencial de 2010. A seguir trechos da entrevista. 

A Rede terá candidato ao Governo do Amazonas nas eleições de 2014?

Não queremos antecipar as eleições. Essa antecipação não é boa para o Brasil. Nós acabamos de fazer uma eleição para prefeito e já anteciparam as eleições de 2014, em 2013, porque tudo virou projeto de poder pelo poder e as pessoas só conseguem ver a eleição porque é a forma de chegar ao poder.  O intervalo das eleições é muito importante porque é aí que a gente discute idéias, propostas, que a gente busca fazer o alinhamento programático para criar possíveis bases de apoio. Como isso não é feito só se pensa na eleição e depois é que se vai pensar na governabilidade, quando chega você se torna refém da lógica de privatizar pelos partidos os nacos do Estado.

Como a senhora avalia o sistema político brasileiro?

Hoje os partidos além do monopólio da política estão monopolizando os nacos do Estado. O partido tal é dono desse ministério o outro é dono daquele e se não tiver um pedaço para alguém ficar como dono cria-se um novo ministério. Isso é porque não se discute mais propostas e mais ideias, tudo é projeto de poder pelo poder. No momento oportuno vamos fazer o debate de candidaturas programáticas, não serão pragmáticas. Não vamos participar das eleições pelas eleições. Queremos dar uma contribuição de formação de uma nova cultura política no Brasil onde a gente volte a discutir idéias porque é isso que a sociedade Brasileira está precisando.

Como evitar que a Rede também se contamine pelo fisiologismo político?

Há um provérbio que diz: sábios são os que aprendem com os erros dos outros e estúpidos são os que não aprendem nem com seus os próprios erros. Uma coisa que acho que não devemos repetir é a sacralização dos partidos. Seres humanos são falhos e instituições também são falhas. Não vamos ficar dizendo que somos os maiores e melhores, os que são imbatíveis. Queremos aprender com os erros do passado e ter claro que pessoas virtuosas criam instituições virtuosas e instituições virtuosas corrigem as pessoas quando elas falham em suas virtudes. É por isso que a rede procura antecipar alguns aspectos da reforma política.

Como isso será possível no Rede?

Estamos estabelecendo, por exemplo, no nosso estatuto que vamos ter um período de dez anos para fazer uma avaliação pública e se não tivermos cumprindo de acordo com os objetivos da Rede nós vamos propor até a dissolvição do partido. Para que tenhamos esse momento de auto-avaliação pública. Estamos criando um conselho externo de pessoas da academia, da sociedade, dos movimentos sociais e populares, da juventude para fazer uma avaliação independente do partido a cada ano. Estamos propondo o limite para o financiamento de campanha, um teto para pessoa física e jurídica e estamos propondo com isso quebrar a lógica de poucos contribuindo com muito. Queremos estabelecer a lógica de muitos contribuindo com pouco.

Como serão os mandatos na Rede?

Estamos limitando os mandatos nas pessoas que vão sair pelo Rede até no máximo dois e estamos propondo algo que no meu entendimento é uma concorrência para quebrar o monopólio dos partidos, inclusive o nosso, que são as candidaturas independentes pelas listas independentes. Temos candidaturas independentes nos EUA, Itália, Argentina e Chile. No Brasil, os partidos têm o monopólio. Se você pertence a um partido a um movimento social e não quer entrar em partido ou não pode porque o lugar já está preenchido ou destinado, não tem outra alternativa e os partidos não tem outra concorrência idônea para se refazer. Estamos propondo que até 30% das nossas vagas serão para filiações democráticas de pessoas que concordando com os princípios gerais da Rede queiram ser candidatas, registre uma plataforma do que defendem na Justiça eleitoral e pleiteiem uma candidatura independe.

O candidato independente terá que atuar como membro da Rede?

Não vamos exigir isso para criar na prática a cultura das candidaturas independentes. Para isso vamos fazer esse processo como é no mundo. Não é o candidato de si mesmo e não é o candidato apenas para somar legenda como fazem hoje os partidos tradicionais. Pode até ser que a pessoa não tenha voto, mas ela vem para apresentar aquela bandeira de força independente. É o esforço que estamos fazendo para não sermos tomados pela ideia do poder pelo poder que aí está.

Como as pessoas reagem a criação da Rede?

Quando peço nas minhas abordagens: ajude a criar o partido Rede de Sustentabilidade para ser uma ferramenta política para mudar a história do Brasil e etc, as pessoas dizem: vai fazer o que mesmo? E eu digo: defender o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. Em seguida, a pessoa diz: aonde é que eu assino. Noventa e nove porcento das abordagens que faço  na hora que  digo que é um partido para defender o meio ambiente, em seguida, velho, jovem, adulto diz onde eu assino. Essa é uma ideia cujo o tempo chegou. Não é a toa que eu e o Guilherme tivemos quase 20 milhões de votos em 2010.

Castro apoia Rede mas fica no PPS

Apesar de declarar apoio público à Marina Silva e à criação da Rede de Sustentabilidade, o deputado Luiz Castro afirmou que não vai deixar, sob nenhuma hipótese, o Partido Popular Socialista (PPS), ao qual é filiado há mais de dez anos.

O parlamentar disse que simpatiza com os ideais da nova legenda, bem como, com a história de Marina, porém defende a criação do partido porque foi convidado por militantes da Rede a ser o interlocutor da ex-ministra, em Manaus, e porque acredita que  a Rede vai criar  intensificar a democracia. “Quando me procuraram, fui claro e disse que não iria me filiar à Rede porque tenho meu partido, sou filiado no PPS há mais de uma década, sou da executiva nacional, mas vou apoiar porque esse processo vai culminar futuramente na formação do partido e de coligações”, disse.