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‘O Ariaú foi acontecendo, não teve um projeto', diz empresário

Precursor do hotel de selva mais famoso da Amazônia, o Ariaú, o visionário  empresário  Francisco Ritta Bernardino conta seus novos planos e curiosidades sobre a história do empreendimento que irá completar 30 anos em 2013 29/07/2012 às 14:12
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Entrevista >> Francisco Ritta Bernardino, empresário
Renata Magnenti Manaus (AM)

O amazonense e empresário Ritta Bernardino sem dúvida é um visionário. Quando o maior prédio da cidade tinha apenas quatro andares ele apostou na construção do hotel Mônaco com 14 pavimentos. Nos anos 80 inaugurou o primeiro hotel no meio da selva, com dormitório suspensos em árvores – o Ariaú Towers. Mas a história não para por aí. Aos 77 anos, o empresário está com um novo projeto. Pretende construir na Ponta Negra, em um mesmo espaço, um hotel e um shopping.

No próximo ano, o hotel Ariaú Towers entra numa nova fase quando completará 30 anos. A CRÍTICA conversou com Ritta que contou algumas curiosidades e sobre a história da criação do projeto instalado em Iranduba, entre os rios Negro e Solimões, distante 50 quilômetros de Manaus.

Conte um pouco sobre sua família. Seu pai também investiu em empreendimentos?

Sou o mais velho de três filhos. Tive duas irmãs que já faleceram. Minha mãe era maranhense, filha de português com piauense, e meu pai era amazonense, filho de cearenses. Meu pai era o que chamávamos de ‘atravessador’ que comercializava produtos de estivas e minha mãe era costureira.

Quando começou a trabalhar?

Fui cabo no Exército e depois sargento. Ainda como militar fui um dos fundadores do curso de guerra na selva, onde atuei como instrutor por seis anos. Depois estudei Economia e Direito. Advoguei e aí comecei a investir no setor imobiliário.

Mas o senhor tinha capital para isso? Começou investindo em quê?

Eu tinha uma mesada quando criança e me lembro que desde pequeno minha avó, simplesmente, guardava metade do que eu recebia mesmo sem minha aprovação. Quando entrei no Exército, já tinha o equivalente a um salário mínimo. Enquanto fui militar, a história se repetiu, e quando saí das Forças Armadas tive condições de comprar um galpão. Tenho vários galpões, comprei instâncias na época, tive áreas no Educandos. O Mônaco foi meu primeiro hotel. Na época, o maior prédio de Manaus era o do INSS e parecia loucura construir uma torre de oito andares, mas apostei na minha ideia e deu certo.

E como surgiu o Ariaú Towers?

Na década de 80, o oceanógrafo Jacques-Yves Cousteau, se hospedava no Mônaco com certa frequência. Ele passava uma semana em Manaus e outra embrenhado nos rios amazônicos. Sempre almoçávamos ou jantávamos juntos e ele me dizia: você precisa criar um hotel na selva, até os anos 2000 as pessoas vão compreender a importância de preservar a floresta Amazônica e o valor da selva será singular. Ele dizia ainda que nos anos 80 as famílias se divertiam indo para praias, mas nos anos 2000 viriam para a Amazônia.

E como escolheu aquela área em Iranduba?

Primeiro, amadureci a ideia do Cousteau. Um dia peguei minha lancha e fui encontrar uma área. Encontrei o paraná do Ariaú e me apaixonei. Apresentei meus planos ao Governo e comprei a área por um valor muito pequeno, entretanto, não me recordo a quantia. Levantei a primeira torre com 18 apartamentos, um restaurante e uma recepção. O local começou a encher de turistas estrangeiros no hotel e, hoje, são oito torres e mais de 300 apartamentos.

Houve um projeto arquitetônico para o Ariaú?

Não. As coisas foram acontecendo. O dormitório suspenso, por exemplo, hoje chamado de Casa do Tarzan, foi uma criação minha. Tínhamos que ter algo que falasse a linguagem da selva. Pensei em palafitas, até que cheguei na ideia de apartamentos suspensos. Eles são aconchegantes e fazem mais a cabeça da juventude.

Hoje, o Ariaú é conhecido em todo o mundo. Quem já passou por lá?

Bom, há 10 anos recebíamos 5 mil turistas por mês. Hoje, com a crise, caiu para 1.200. No auge, 80% da ocupação era de turistas estrangeiros, atualmente, representam 30%, mas tenho notado que o número de turistas ‘gringos’ tem aumentado novamente. Entre os famosos estão Roman Polansky, Bill Gates, Jimmy Carter, o rei Juan Carlos da Espanha, Susa Saradon e o ex-presidente Lula. O príncipe Charles passou algumas horas no Ariaú, mas não se hospedou.

E se lembra de alguma história engraçada vivida com estas personalidades?

Lembro da visita do rei Juan Carlos e sua esposa. Junto deles sempre andavam quatro homens fortes, levando uma espécie de caixão. Achava aquilo estranho, mas não ia perguntar o que havia dentro da caixa. Os dias passaram e um macaquinho mordeu o dedo da rainha e desesperadamente os abriram a caixa e havia centenas de remédios e descobri que eles eram médicos e enfermeiros. Outro dia, o mesmo casal deixou a porta do apartamento aberta. Foi o suficiente para que macacos-de-cheiro bagunçassem todas as roupas e sapatos do rei e da rainha.

E no próximo ano o hotel completa 30 anos. Haverá uma comemoração especial?

É mesmo uma data especial, mas ainda não definimos uma programação. A economia mundial está em turbulência, devemos levar isso em conta antes de grandes ações ou mesmo de expandir ou aprimorarmos o Ariaú.

Outra questão é quanto à cheia histórica deste ano. O hotel foi atingido e o senhor deve fazer algum investimento em alteração por conta desse evento?

Não. Historicamente temos uma grande cheia a cada 53 anos. A próxima só deve ocorrer em 2065. Não há por que temermos quanto a isso novamente.

Com toda essa história, o senhor se considera um visionário?

Visionário é todo o indivíduo que consegue ver além do seu tempo e investir nisso. Sendo assim, me acho um visionário, mas fiz isso por que amo meu Estado e a Amazônia.

O senhor tem mais sonhos ou empreendimentos para lançar em Manaus?

Aos 77 anos continuo a pleno vapor. Gosto de trabalhar e já tenho um projeto na Ponta Negra. Quero fazer em um mesmo local um hotel e um shopping. No entanto, tem duas construtoras querendo comprar todo o projeto. Daqui há 60 dias irei definir se irei construir ou se venderei o projeto.

Ritta Bernardino

Idade: 77

Nome: Francisco Ritta Bernardino

Formação: Formado em Economia e Direito

Experiência: Começou a vida profissional como cabo no Exército brasileiro. Passou para sargento e ajudou a fundar o curso de guerra na selva. Atuou como advogado e começou a investir em hotel. Além do Mônaco e do Ariaú, tem hotel em Parintins, o Hotel do Boi Ariaú, em Fortaleza e em Búzios.

Publicações

Cinco livros sobre a Amazônia

O criador do Ariaú Towers já lançou cinco livros sobre o empreendimento e sobre a Amazônia, além de uma série de DVDs. “O Torres do Ariaú”, por exemplo, traz numa série de fotografias de Leonide Príncipe a história da criação do hotel. A publicação já foi traduzida em oito línguas, incluindo chinês, japonês, russo e árabe. E, tem ainda, versões para e-book, iPad e Android.

“Os estrangeiros têm curiosidade em conhecer a Amazônia e com o livro têm um aperitivo do que irão encontrar quando chegarem no hotel”, afirmou o Ritta Bernardino. Segundo ele, os turistas que mais visitam o Ariaú são japoneses, americanos e canadenses. Eles vêem para o Brasil durante o ano inteiro e, estando no hotel, o que mais gostam de fazer é passear de canoa. “Eles adoram igarapés e igapós”.

Ritta escreveu ainda o “Emoções Amazônicas”, onde apresenta um pouco da cultura indígena e caboclos e de animais da selva. No “A Saga Amazônica do Pequeno Guerreiro Verde”, conta a beleza do rio Amazonas e a diversidade dos povos nativos e suas<br/> tradições.

O empreendedor escreveu também “Entre o Tejo e o Amazonas”, no qual conta a saga de seu avô que saiu de Lisboa até chegar em Manaus e, assim, confirma sua paixão pela Amazônia, já presente ainda no sangue de seu avô Antônio Ritta.

O quinto livro é o “Birds of Amazonia” em parceria com Reynier de Souza Omena Júnior. Ele aborda temas como biologia das aves, ecologia, técnicas de observação, de identificação e de atração de aves, além de como documentar suas observações, como gravar e fotografar aves.