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O baixo meretrício na Belle Époque manaura

Na Belle Époque havia um lado negro e distante  das ‘mademoiselles’ e ‘polacas’, traduzido pela  exploração das mulheres nativa em bordéis e cassino de luxos 02/06/2012 às 19:56
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Requinte das “polacas” e o charme das “mademoiselles” francesas, retratadas nos muros de ruas da região central de Manaus pelos alunos do curso de Design da Fucapi
Ana Célia Ossame Manaus

Mostrar que, ao contrário do senso comum, a prostituição em Manaus, no tempo da Belle Epoque, quando a economia da Borracha ditava as normas na vida política, econômica e social da cidade, era formada por não só por mulheres francesas e polonesas, as famosas “polacas”, mas principalmente por brasileiras, sendo a maioria amazonenses e pobres, foi uma tarefa empreendida pelo professor de História Paulo Marreiro dos Santos Júnior.

No trabalho de mestrado sobre o tema “Pobreza e Prostituição na Belle Epoque manauara”, defendido na Pontifícia Univesidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Paulo mostra que nos bordéis e cassinos de luxo, quem acompanhava os ricos seringalistas nos jogos de cartas, bebedeiras e danças ocorridos nesses locais eram também as mulheres nativas, de origem nortista ou nordestina.

Na dissertação, ele mostra que antes de 1910 as crônicas policiais não retratavam áreas da cidade especificas de concentração de prostitutas. “A partir desse ano, as ocorrências envolvendo meretrizes tiveram duas ruas de destaque: a Itamaracá e a Estrada Epaminondas, com alguns hotéis, bares e botequins, todos equivalentes ao centro da cidade”, observou.

Imagem distorcida

Na verdade, segundo ele, foi criada e cristalizada uma imagem das famosas “polacas” das zonas do meretrício, e as “mademoiselles” dos cafés, o que contribuía para aumentar a fama de ‘cidade do prazer’ tanto no Brasil quanto no exterior. “Falava-se das famosas ‘francesas’ que arruinavam, em algumas noites, seringalistas, proprietários de casas aviadoras, políticos, oficiais de altas patentes”, disse, lembrando que havia também um mundo de prostituição que habitava as sombras das ruas, das moradas precárias, dos cortiços e das vilas operárias.

Nos registros da imprensa, Paulo  descobriu que havia mulheres de outros Estados e até estrangeiras atuando no chamado “baixo meretrício”, depreciadas com adjetivos do tipo   “marafonas, meretrizes, mariposas”, que sem ganhar o suficiente para o sustento, eram obrigadas a furtar alimentos.

O pesquisador, que leciona no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (Ifam) do município de Presidente Figueiredo (a 107 quilômetros de Manaus), cita ainda que, dos recôncavos da Europa vieram se prostituir em Manaus romenas, portuguesas, espanholas e italianas, além de russas, turcas; sulamericanas da Bolívia e Peru;  africanas e barbadianas.

Elas estavam ainda mais à mercê da violência masculina, desprotegidas nas esquinas, ruas, praças, botequins e bilhares, onde atendiam aos segmentos populares, cita o pesquisador, que encontrou várias notícias na imprensa local da época registrando quando eram despejadas por seus inquilinos. Algumas eram retratadas pelo redator como desiludidas com a cidade, sendo que algumas voltavam para sua terra natal ou seguiam caminho às vezes para morte, por meio de suicídio.

Ao finalizar, Paulo diz que o objetivo da pesquisa foi mostrar as outras prostitutas na Manaus da época da borracha, assim como os outros ambientes - vistos como sórdidos - frequentados por homens de fora da órbita dos barões da borracha. Para o mestre, com suas histórias e tragédias, essas mulheres denunciam o outro lado do fausto da borracha esquecido ou abafado pelo glamour de uma época marcante da sociedade amazonense.

 Velhos cenários pintados em muros

O cenário de degradação urbana, prostituição e tráfico de drogas  visível hoje nas ruas Governador Vitório, Frei José dos Inocentes, Bernardo Ramos, Itamaracá e Sete de Setembro, no Centro, em nada lembra o esplendor da chamada  Belle Epoque, quando “barões da borracha” moravam ou se divertiam na região  com as prostitutas francesas e polonesas, as famosas “polacas”.

Fazendo o resgate desse passado, alunos do curso de Design da Fundação Centro de Análise, Pesquisa e Inovação Tecnológica (Fucapi), com o apoio da Manaus Cult, desenvolveram o projeto “Muros Vivos” e recriaram um pouco daqueles ambientes.

A atividade  contou com a participação de 18 alunos e foi coordenada pela professora-mestre em Arte e Design para espaço Público, Brunna Rocha Anchieta. Houve uma pesquisa e análise do local, desde o período colonial até a República, quando os alunos puderam perceber a riqueza histórica e cultural do Centro. Os desenhos mostram uma linha de tempo, que inicia com o Forte de São José do Rio Negro, passa pela presença militar  na época, a elevação do Amazonas a categoria de província e o auge da Belle Epoque manauense, sendo finalizado pela boemia do Cabaré Chinelo.

O trabalho de pintura dos muros durou cerca de dez dias e foi finalizado em novembro do ano passado.  Durante o trabalho, os alunos eram abordados pelos moradores para conversar, fato ocorrido até com as prostitutas, que no começo eram hostis, mas depois que viram o trabalho tomando forma, vinham conversar também. Uma delas, ao ver os desenhos e entender, chegou a comentar: “Antigamente era bem mais chique, né’”, lembrou a professora.