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Manaus
Idioma haitianos

Obstáculo do idioma é mais um desafio para os haitianos que buscam emprego em Manaus

Fato de não dominarem o português acaba dificultando o processo de colocação profissional de haitianos que estão em Manaus 24/01/2012 às 11:20
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"Como faço para pedir emprego em português?" é uma das dúvidas compartilhadas na comunidade que fala o crioulo, mistura de francês com línguas africanas
Felipe Libório Manaus

O largo sorriso aparece a cada intervalo entre uma palavra difícil e outra. Formular uma frase simples pode levar vários minutos quando não se conhece o idioma do País em que se está vivendo. “Eu estou aprendendo português, mas é muito difícil”, diz Charles Maitre, 34, com o sotaque forte de quem nasceu em Porto Príncipe, capital do Haiti, e vive no Brasil há apenas três meses.

Charles chegou a Manaus no início de janeiro deste ano. Depois de esperar em Tabatinga (a 1.105 quilômetros de Manaus) desde setembro passado e viajar três dias de barco, ele finalmente conseguiu chegar à capital amazonense em busca de um emprego, mas esbarrou em um problema. “Como faço para pedir emprego em português?”, pergunta.

A mesma dúvida era enfrentada por Charles Anoscar que, assim como seu conterrâneo, veio do Haiti para o Brasil sem saber pronunciar uma única palavra em português. Agora Anoscar já fala bem o idioma e conseguiu trabalhar como pedreiro. “Era muito difícil antes. Mas sabendo a língua tudo melhorou”, conta.

Anoscar mora no bairro de São Jorge, Zona Oeste, e todos o dias vai sozinho de ônibus à sede da paróquia de São Geraldo, no bairro de Nossa Senhora das Graças, Zona Centro-Sul, onde encontra seus companheiros de imigração. Entre os dez haitianos que conversam vivamente em crioulo, a língua materna, percebe-se o francês e o espanhol fluentes, mas o português ainda é um desafio.

Rose Dukens, um dos poucos que consegue se comunicar em língua portuguesa, diz que a maior dificuldade é pronunciar as palavras anasaladas. “São, estão, vão. Muito difícil. Agora consigo melhor, mas ainda não é perfeito”, conta ele.

Rose tem aulas de português duas vezes por semana na paróquia e diz que já aprendeu o alfabeto, a contar, ler e escrever na nova língua. Na opinião dele, é necessário conhecer o idioma para poder se expressar corretamente e, o mais importante, conquistar a independência. “Mesmo quando não sabia, apontava para as coisas e dizia ‘me dá’. Eu vim para trabalhar e não quero ter que depender dos outros para sempre”, diz ele.

Depois de alguns minutos de conversa, os haitianos que se mostravam desconfiados começam a usar palavras de todos os idiomas que conhecem para falar de suas vidas, a que deixaram para trás e a que estão construindo em Manaus. Anoscar diz que pegou um ônibus sozinho pela primeira vez quando saiu da superintendência da Polícia Federal, no bairro de Dom Pedro, Zona Centro-Oeste, para a paróquia de São Geraldo, no bairro de Nossa Senhora das Graças, Zona Centro-Sul. “O padre me disse o número e eu perguntei das pessoas na parada. Alguns brasileiros falam espanhol e dá para conversar. Quando não compreendem, eles riem, a gente ri e acaba se entendendo do mesmo jeito”, conta.

Com mulher e três filhos esperando no Haiti, Rose diz que aprendeu português porque precisava encontrar trabalho e ajudar sua família, história semelhante a de Charles e Anoscar, ambos com mulher e filhos no país de origem.

“É muito difícil ficar longe da família. Aqui tenho muitos amigos, mas sinto falta dos que deixei no Haiti”, diz Charles em um português atrapalhado pela emoção, mas que já consegue expressar o tamanho da sua saudade.

Procura por aulas ainda é pouca
As paróquias de São Geraldo, no bairro Nossa Senhora das Graças, Zona Centro-Sul, e de São Sebastião, no Centro de Manaus, oferecem aulas semanais de português aos haitianos residentes em Manaus.

O curso acontece às segundas e quartas na paróquia de São Geraldo e atende, gratuitamente, todos os que tiverem interesse em aprender a língua. Na paróquia de São Sebastião, o ensino é voltado para cerca de 30 mulheres que são abrigadas pela Pastoral da Mobilidade Humana.

Apesar da disponibilidade, a procura não tem sido tão grande como era de se esperar, devido à quantidade de imigrantes que vivem na cidade. “Nós começamos uma classe com 40 alunos e, em poucas semanas, ela está sendo frequentada por apenas dez”, diz o padre Gelmino, pároco da Igreja de São Geraldo.