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Manaus
FALÊNCIA

Ônibus velhos não conseguem subir ladeira em Manaus e são retrato da falência

Descer do coletivo, subir a ladeira a pé e depois voltar ao ônibus para seguir viagem é rotina comum para usuários do transporte 22/10/2017 às 05:00 - Atualizado em 22/10/2017 às 13:22
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Foto: Winnetou Almeida
Isabelle Valois Manaus (AM)

Virou rotina dos passageiros dos ônibus que sobem a avenida Sumaúma, no bairro Monte das Oliveira, Zona Norte, no sentido bairro/Centro, ter que descer do veículo no meio da ladeira, subir a pé e depois voltar ao coletivo para seguir viagem.  Esse é um dos retratos da falência do sistema de transporte público de Manaus, flagrado no horário de pico da manhã pela equipe de A CRÍTICA na última sexta-feira (20). Esse é um dos quase 300 ônibus com 10 anos ou mais de uso que circulam pelas ruas da cidade. 

Antes de subir a ladeira, o ônibus da linha 029, de placas JHQ - 3596, da empresa Açaí, fabricado em 2007, apanha alguns passageiros que estão aguardando na parada e, com dificuldades, passa por dois redutores de velocidade (quebra-molas) presentes na via.

Ao iniciar a subida, o veículo perde velocidade e fica torto para o lado da calçada.  De longe é possível ver que o ônibus está cheio de passageiros. O carro estanca no meio da ladeira, mas o motorista tentar seguir viagem. Tenta uma, duas e até três vezes, mas a máquina não tem força e começa a soltar um odor forte de queimado.

O motorista então abre a porta para os passageiros descerem e seguirem o percurso a pé. Quando quase todos descem, o veículo consegue terminar de subir a ladeira e segue o percurso ao lado dos usuários. São estudantes, trabalhadores, senhoras e senhores. Alguns conseguem subir um pouco mais rápido a ladeira, mas outros precisam correr para não perder a vaga no transporte.


Foto: Winnetou Almeida

Constrangimento

Entre esses passageiros estava a aposentada Ilza de Oliveira Braga, 71. Moradora do Monte das Oliveiras, a aposentada afirma que a situação virou rotina, pois sempre que o ônibus chega no meio da ladeira o motorista pede para que os passageiros desçam do veículo para conseguir terminar a subida. “Raro é o dia que não precisamos descer do ônibus. Hoje (sexta-feira) descemos para que ele (o ônibus) pudesse seguir viagem, mas tem dias que ele fica no ‘prego’ (pane mecânica) e a situação é mais constrangedora, pois precisamos aguardar s horas para a chegada de outro carro”, contou.

Conforme os passageiros, o problema não é exclusivo da linha 029 e é recorrente nos carros das linhas 446, 456, 315, entre outras.  A dona de casa Camila Farias, 27, reforçou a precariedade ao afirmar que quase todos os dias passa por este tipo de constrangimento. “Esses ônibus são tudo sucateados, pagamos caro pela passagem para passar por este tipo de situação. É uma total falta de respeito com o usuário”, disse.

Funcionários no caos

No ponto final de algumas dessas linhas no Conjunto Habitacional Cidadão 12, uma estação da empresa Açaí, os próprios motoristas comentaram sobre a precariedade do sistema e também o sucateamento da atual frota de veículos utilizados para realizar o transporte público da população. Eles, que estão diariamente conduzindo esses veículos, relataram que há carros no qual parte das marchas não funcionam. Ir às ruas em veículos em péssimas condições, dizem eles, é colocar a vida deles e da população em risco.

“Sem contar os pneus gastos, muitos carros rodam pela cidade com os pneus cortados e até remendados. Se essa remenda estourar, pode a vir machucar qualquer pessoa que estiver próxima ao ônibus. Parece que o poder público só vai tomar uma decisão conta isso quando uma fatalidade vir a ocorrer”, comentou um dos motoristas, que preferiu não se identificar.


Foto: Winnetou Almeida

Ar condicionado e Wi-Fi

No último reajuste da tarifa do transporte público para R$3,80 - ocorrido em fevereiro deste ano - o prefeito Artur  Neto (PSDB) havia anunciado a aquisição de pelo menos 200 novos ônibus para capital que deveriam ser entregues no mês seguinte (março), com o sistema de refrigeração (ar-condicionado) além de contar com entretenimento com Wi-Fi (Internet). Se passaram oito meses do prazo e a população continua a pagar o valor da passagem para essas melhorias, mas até o momento a promessa não foi cumprida. Segundo o Dentra-AM, apenas 30 novos ônibus entraram no sistema. 

Questionada sobre os prazos, a Superintendência Municipal de Transportes Urbanos (SMTU) disse apenas que está atenta à esta necessidade de renovação da frota e tem utilizado os mecanismos previstos na legislação para cobrar das empresas a aquisição de novos ônibus que servirão para renovar a frota. Enquanto isso, o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram) preferiu não se pronunciar e repassou os questionamentos.

Proposta polêmica

Mesmo diante da precariedade da frota de ônibus do transporte público, tramita na Câmara Municipal de Manaus (CMM) um Projeto de Lei (PL) para aumentar o tempo de vida útil dos ônibus de 10 anos para 15 anos, de autoria do vereador Elissandro Bessa (PHS). Ela foi aprovada neste ano e segue em análise. A proposta é que essa mudança entre na Lei Orgânica do Município de Manaus (Loman).  Segundo o Detran-AM, apenas 30 dos 200 novos ônibus prometidos por Artur Neto em janeiro foram entregues.