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Partidos comunistas do Brasil em lados opostos

PCB completou ontem 90 anos, trazendo na garupa o PCdoB e o PPS. Os três querem conquistar a Prefeitura de Manaus 26/03/2012 às 07:06
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Executiva estadual do PPS, que nesse domingo (25), comemorou mais uma aniversário da legenda, de olho na Prefeitura de Manaus
KLEITON RENZO Manaus

Nascido com o ideal comunista da ex-União Soviética, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao completar 90 anos de criação ontem, divide as comemorações com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e com o Partido Popular Socialista (PPS). A trajetória dos três se confunde na história política do País e em comum, hoje, a luta pela Prefeitura de Manaus nas eleições de outubro os coloca em lados opostos aos seus ideais fundadores.

De um lado, sob a liderança de Luiz Navarro (PCB), o PCB mantém-se firme aos ideais comunistas e de divisão do Estado com a sociedade “pelo uso comum”. Já na outra ponta, o casal comunista Eron Bezerra (PCdoB) e Vanessa Grazziotin (PCdoB) dá as diretrizes do PCdoB no Amazonas, enfatizando as alianças partidárias, procurando injetar força política ao partido “em benefício da sociedade”. Completando a tríade, o PPS, com representatividade do deputado estadual Luiz Castro (PPS) e do vereador Hissa Abrahão (PPS), defendem a mudança que o partido fez ao sair do comunismo para o “socialismo mais aberto ao diálogo, mas sem sair da esquerda.”

De uma coisa nenhuma das três legendas abre mão: o protagonismo pela gênese do partido. “Do ponto de vista histórico, só existe um partido comunista, que é o de 1922. Se alguém abandona seus fundamentos não é a mesma coisa. Portanto o que foi criado posteriormente foi o PCB e o PPS”, afirma o secretário de Produção Rural do Estado e Membro do Comitê Nacional do PCdoB, Eron Bezerra.

“De fato, o que ocorreu em 25 de março de 1922 foi a criação do Partido Comunista Brasileiro, logo PCB. Veja bem, brasileiro, e não do Brasil. Já o PCdoB vem de uma dissidência de 1962 onde alguns companheiros entenderam pela luta armada e criaram o novo partido. E não adianta distorcer isso, está na história”, rebate o médico cardiologista, José Maria Monteiro, um dos membros fundadores do PCB no Amazonas, e hoje militante do PPS.

Por sua vez, o PPS, foi criado em 1992, após a queda do Muro de Berlim. De acordo com o deputado Luiz Castro, o líder do partido à época, Roberto Freire, entendeu que a queda do muro liquidava o comunismo. “O PPS hoje é um partido de esquerda, mas não é mais comunista. Por outro lado, assume a sua história passa e sua militância. Essa história a gente não nega”, defende Castro.

O PCB, apesar de assumir oposição ao PCdoB e ao PPS, não descarta que os três filhos do comunismo um dia possam andar juntos novamente. Luiz Navarro defende que o “partidão”, como ficou conhecido o PCB após a criação do PCdoB, é um partido “socialista de fato”. “E que poderia sim (existir uma aliança com o PCdoB e o PPS). O PCB, socialista de fato, não vê problemas em conversar com esses partidos de socialismo faz de conta e com objetivos diferentes”, alfineta o comunista.

Militante Fundador do PPS José Maria

“Nós não queremos entrar no poder de joelhos” Com previsão de lançamento para o fim do ano, o livro do médico e militante do PPS, José Maria Monteiro, pretende contar a história do PCB no Amazonas e todo o processo que levou à mudança para o PPS e como isso se refletiu localmente. “É um livro escrito por mim e o companheiro de militância Aldísio Figueiras, resgatanto essa história. É um trabalho muito longo que vai buscar as origens do partido em 1922”, disse.

Com 52 anos de militância, o médico afirma que o atual PCB e o PCdoB foram criados por dissidentes do PCB original, e rebate as críticas de que o PPS seja partido de direita e tenha perdido os fundamentos ideológicos que o criaram. “Nós nos identificamos com a sociedade por levantarmos questões importantes, enquanto outros partidos aderiram ao poder e abandonaram o povo. Nós, como todo partido, queremos o poder. Mas nós queremos entrar para o poder em pé. Com a coluna vertebral ereta. Nós não queremos entrar no poder como esses caras entraram: de joelhos, agachados e beijando os pés dos poderosos”, disparou José Maria.

Membro do Comitê nacional do PCdoB Eron Bezerra

“O PCdoB tem por princípio a aliança” Para o membro do comitê nacional do PCdoB, Eroz Bezerra, o Partido Comunista do Brasil é o único entre os três que se mantém fiel às doutrinas fundadoras e passa por um momento de “maturidade política”.

“Tudo na vida tem certo tempo de maturação. O partido não mudou fundamentos e princípios mas evidentemente amadureceu seu caminho”, disse. Também reclamando o nascimento em 1922, o PCdoB, de acordo com Eron Bezerra, rompeu com partidários de Roberto Freire em 1965, quando este “negou os fundamentos do socialismo”.

Eron afirma que o partido passou a adotar políticas de alianças, ganhando maior visibilidade a partir do primeiro mandado do ex-presidente Lula (PT), criando a trajetória natural de “coerência” de um partido. “Enquanto os demais partidos que negaram o socialismo e caminham para a adesão pela direito, o PCdoB tem por principio a aliança, mas jamais abandonado nome e princípios. Nós entendemos que as alianças servem para melhorar as condições de vida do povo”, explicou Bezerra.

Militância adotou outra denominação

O Partido Comunista do Brasil (PCB) foi criado em 25 de março de 1922 na cidade de Niterói, Rio de Janeiro. A briga entre o PCB e o PCdoB tem fundamento no nome de fundação do partido registrado como Partido Comunista do Brasil, porém a militância usava o termo Partido Comunista Brasileiro, sem distinção ideológica para se referir ao nome.

Em 4 de abril de 1922, seguindo a mesma orientação dos demais partidos comunistas pelo mundo, a fundação do partido é publicada no Diário Oficial da União com o nome de Partido Comunista - Seção Brasileira da Internacional Comunista (PC-SBIC). “Logo depois de fundado o partido é colocado na ilegalidade pelo governo de Epitácio Pessoa. Lá na frente, em 1935, com o (Luís Carlos) Prestes, o PCB entra na Aliança Nacional Libertadora (ANL) e depois inicia a revolta da Intentona Militar”, explica Luiz Navarro.

Esse momento do PCB, segundo Navarro, foi “inteligentemente” usado pelo partido para aceitar a aliança com Getúlio Vargas e dar liberdade à membros do partido presos e sob tortura. “Prestes é um herói. Ele aceitou a proposta do governo de subir no palanque e ainda conseguiu eleger-se senador pelo PCB”, comenta.

Luiz Navarro Presidente Regional do PCB

“Em primeiro lugar, esse negócio de fim do comunismo é uma balela jogada pelos países capitalistas e imperialistas que querem dominar o mundo com seus sistemas. Ele não pode acabar porque, em primeiro lugar, jamais existiu comunismo em qualquer organização estatal. O PCB é um partido de quadros e não de filiados. Existe uma diferença. Partido de filiados vai filiando gregos, troianos, alemães... já o partido de quadro a filiação é mais rigorosa e com o pé atrás. Temos mais critérios para formar nosso grupo. Não é mole, é difícil acabar com o partidão.

Comunistas nas eleições

Os três partidos comunistas estarão de olhos na vaga do prefeito Amazonino Mendes (PDT) nas eleições de outubro. O PCB, de acordo com Luiz Navarro, teve uma primeira conversa com o PSTU, PSol e membros do MTST no começo do mês para a criação de uma “chapa socialista pura”. “Estamos discutindo uma aliança para mostrarmos à sociedade que o socialismo é a opção de governo que melhorará a vida da população”, disse.

Do lado do PPS, os socialistas reafirmaram ontem, durante as comemorações dos 90 anos do partido, o nome do vereador Hissa Abrahão (PPS), como pré-candidato à prefeitura. De acordo com o deputado estadual, Luiz Castro (PPS), a escolha de Hissa se deve pela expressiva votação nas eleições de 2010 para governo do Estado. “O PPS tem uma pessoa com boa votação e chance de crescer e de ir para o segundo turno”, explica Castro.

Os comunistas do PCdoB ainda esperam a definição dos partidos aliados como o PSD e o PMDB, para tomar uma decisão sobre a participação na disputa pelo Executivo municipal. O secretário de Produção Rural do Estado, Eron Bezerra (PCdoB), disse que “o partido está amadurecido e que o momento é de mostrar à sociedade que o PCdoB, mais que um bom legislador, é um bom gestor”.

O PCdoB deverá lançar os 62 candidatos a vereador que o partido tem direito para concorrer às vagas da Câmara Municipal de Manaus (CMM). No lado do PPS, a intenção é lançar também 62 nomes. Já o PCB, disse Navarro, não deve ter 62 candidatos. “Não temos tantos nomes para lançar. O PCB é um partido de quadros e não de filiados”, defendeu.