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Pedalada polêmica: Ciclovias só poderão ser construídas em ruas largas de Manaus

Plano Cicloviário prevê o compartilhamento de ruas e avenidas num processo que promete criar muita disputa pelos espaços 21/03/2013 às 07:19
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Sem a proteção de um espaço para chamar de seu, ciclista trafega pela calçada na avenida Getúlio Vargas, uma das vias mais usadas por eles
Florêncio Mesquita ---

A construção de vias exclusivas para ciclistas em Manaus, as chamadas ciclovias, será possível apenas nas avenidas mais largas da cidade. Nas demais, a maioria estreita, serão instaladas ciclofaixas que resultarão no compartilhamento de espaço com veículos automotores. É aí que a confusão promete ser grande, principalmente em ruas e avenidas cujo fluxo já é bastante congestionado só pelos veículos.

As construções de ciclovias e ciclofaixas estão previstas no Plano Cicloviário de Manaus que está sendo elaborado pela Prefeitura.

Para o Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), a preferência seria por faixas segregadas, que oferecem mais segurança ao ciclista, mas nem todas as vias da capital oferecem condições para a intervenção. “Até porque temos caixas viárias sem continuidade. Algumas começam com 20 metros, depois estreitam para 15 e lá na frente chegam a 40. A avenida Torquato Tapajós é um caso. Há uma sequência de itens a se tratar antes de se falar do uso compartilhado”, disse a vice-presidente do Implurb, Cristiane Sotto Mayor.

Para Cristiane, a educação no trânsito é o primeiro passo no tratamento do Plano Cicloviário e a base para que todos compreendam o espaço na malha viária seja com corredores compartilhados ou segregados (ciclovias).

“É preciso entender onde, hierarquicamente, o ciclista se enquadra. A prioridade no trânsito é para o pedestre, depois para o ciclista, moto, automóvel e assim vai, do menor para o maior. Se não existir essa compreensão massificada, tanto faz ter faixa segregada ou não, em algum momento elas vão se cruzar e haverá problema”, explica Cristiane.

Para o instituto, a construção do Plano Cicloviário de Manaus é uma prioridade para este ano. Além de estabelecer a inclusão da bicicleta no sistema viário, o plano também vai dar segurança para o uso da bicicleta como transporte.

Pedala Manaus

Segundo o coordenador do Pedala Manaus, Ricardo Romero, o “Alemão”, não há como implantar apenas um modelo de via para bicicleta, justamente pelo fato da quantidade de ruas

estreitas ser maior. “A cidade comporta as duas tipologias cicloviárias. Em ruas estreitas não adianta querer segregar que não tem condição. Nesses locais podemos ter ciclofaixas e informar com sinalização vertical o espaço da bicicleta. Apesar da discussão sobre a construção de ciclovias, os grupos de pedais entendem que mais vale dois anos de campanha de educação no trânsito para respeito do ciclista, do que a construção de ciclovia”, disse, completando que se as ciclovias forem construídas sem uma campanha anterior, os motoristas não respeitarão o espaço da bicicleta.

Ordenamento é necessário

De acordo com Cristiane Sotto Mayor, além da educação no trânsito, o ordenamento urbano, que hoje prejudica o trânsito em caixas (pistas) estreitas, como as do Centro, precisa ser atacado intensamente. “Hoje está cheio de placa não estacione, mas tem veículo estacionado. E onde tem placa de estacione, tem carro em fila dupla. No Centro, não bastam as barracas ocuparem os passeios, agora tomam conta de vagas de veículos. É preciso ordenar tudo isso antes de propormos o compartilhamento de vias”, diz a vice-presidente do Implurb.

Cristiane ressalta que o compartilhamento entre bicicletas e veículos automotores sempre ocorrerá em algum momento e será preciso que o motorista reconheça as prioridades e o ciclista saiba como andar.

O Plano Cicloviário de Manaus pretende estimular o uso da bicicleta e tem como estratégias a construção de bicicletários nos terminais de ônibus, incentivo a parcerias para colocar os paraciclos, estacionamentos públicos para bicicletas.

Taxista quer ‘pagar para ver’

Colocar em prática para verificar como vai se comportar. É com esse pensamento que o presidente do Sindicato dos Taxistas, Luiz Augusto Lins de Aguiar, 57, vê o projeto de criação de ciclofaixas e ciclovias em Manaus. Segundo ele, só com a disponibilização das faixas será possível saber se o ciclista vai correr maior risco.

Há 30 anos trabalhando nas ruas de Manaus, Luiz Augusto vê o projeto como reflexo de ações semelhantes em outros estados brasileiros. Mas manifesta preocupação com a quantidade de ruas estreitas e sem continuidade existentes. “O importante é fazer em local seguro, para evitar a morte de ciclistas, como ocorreu recentemente em São Paulo”, disse ele, para contestar a tese de que “motoristas detesta ciclista” porque estes não pagam impostos e ganham vias exclusivas. “Nós também não pagamos IPVA (Imposto de Propriedade de Veículos Automotores)”, informou.

Já o assessor jurídico do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Manaus (Sinetram), Fernando Borges, diz que a entidade é favorável desde que a medida provoque redução do número de carros nas vias.

Ao citar outras cidades que contam com ciclovias, Borges chama a atenção para a necessidade de adequações nos espaços e que isso reduza a quantidade de carros das ruas. Outro ponto destacado por ele é da sinalização, que deve ser eficiente para não colocar em risco a segurança do ciclista.

Ao citar que no ano passado aconteceram quatro mortes de ciclistas em Manaus, duas das quais com envolvimento de ônibus, o engenheiro de trânsito da Manaustrans, Paulo Henrique Martins, anunciou duas campanhas de conscientização, uma voltada ao ciclista e outra aos motoristas de ônibus e caminhão para a implantação das ciclofaixas, ciclovias e sinalização chamando a a atenção de que no local circulam ciclistas. Para ele, com essas medidas, é possível tornar a cidade um espaço melhor para se viver.