Publicidade
Manaus
Manaus

Pediatra defende exame cardíaco para salvar recém-nascidos, em Manaus

Profissional acredita que o ‘teste do coraçãozinho’ vai reduzir os casos evitáveis de morte de bebês. Maternidades já possuem equipamentos 09/07/2012 às 13:18
Show 1
Exame pode ser feito em recém-nascidos para detectar alterações na oxigenação do sangue que pode indicar doenças graves
Ana Celia Ossame Manaus (AM)

Aos três meses de vida Leonardo da Silva Santana já está esperando a hora para um momento complexo  de sua curta existência. Será submetido a uma cirurgia para correção da Comunicação Interventricular (CIV) , problema que o deixa extremamente cansado quando mama ou chora. Já Felipe Brayan de Souza, 7, está em casa após 15 dias de ser operado do coração para correção do fluxo sanguíneo pulmonar. 

As crianças fazem parte de um universo pequeno, mas significativo, de pacientes atendidos pelos cirurgiões como Silas Fernandes, 45, e Antônio Osman da Silva, 34, da equipe do Hospital Adventista onde. De cerca de 20 cirurgias cardíacas realizadas a cada mês, pelo menos duas são em crianças.

Silas, chefe da equipe de cirurgiões, já contabiliza mais de 100 procedimentos em Manaus, fora os realizados em São Paulo, onde se especializou, comemora os resultados, cujo índice de óbitos está dentro dos padrões mundiais, em torno de 6%. “O serviço está em Manaus há quatro anos e está em fase de amadurecimento”, revela o médico, citando todos os equipamentos disponíveis para o atendimento, desde leitos na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) até setores como a Hemodinâmica, que permite diagnósticos e procedimentos variados.

Sintomas

Cuidar do coração dos pequenos  é uma tarefa que começa antes mesmo de elas nascerem e quanto mais cedo for detectada qualquer alteração, mais fácil e simples é corrigir, afirmam os especialista. Saber se uma criança precisa da atenção de um cardiologista é uma tarefa que os pais podem perceber com os sintomas mais característicos. “Elas têm falta de ar, cansaço até no ato de mamar, têm infecções repetitivas, cianose nos lábios e não se desenvolvem, apresentando baixo peso”, explicou Antônio Osman, apontado para o caso de Leonardo, que recebe todo o cuidado para não chorar, o que é um complicador em se tratando de um bebê.

De acordo com Silas, a cirurgia em crianças impõe algumas condições especiais. O ideal é que o bebê tenha a partir de dez quilos de peso, mas já foram feitas cirurgias em crianças com 4,5 quilos, com a implantação de um marcapasso, equipamento destinado a manter o ritmo e frequência do coração. Há muitas diferenças entre operar um adulto e uma criança. Uma delas é o que eles chama de maturidade do coração, por exigir mais cuidado dos cirurgiões, já que não está em condições plenas. Cuidado pós-operatório é outro fator muito importante, principalmente quando a cirurgia é de urgência. Os médicos explicam que crianças com Síndrome de Down têm cardiopatias comuns e é um segmento que exige atenção especial.

Antônio Osman observa que entre a terceira e a sexta semana de formação do coração da criança ocorrem as alterações causadoras das cardiopatias, causadas ou por hereditariedade ou má formação devido a fatores externos. Entre estes, estão a idade das mães, com agravante de diabetes, uso de drogas e efeito de  radiação, explicou. Apesar de significativas, as patologias cardíacas em crianças, congênitas ou adquiridas, podem ser tratadas na cidade, onde, segundo Silas, já se dispõe de tratamentos adequados.

Os pais de Felipe Brayan, a dona de casa Gracieth Mascarenhas, 28, e industriário Edvaldo Gomes, 31, entregaram, literalmente, a vida de filho nas mãos dos cirurgiões cardíacos, frase que Silas Fernandes e Antônio Osman estão acostumados a ouvir.  Segundo a mãe, o cansaço, suor frio constante e dores no peito foram diagnosticados como "normal" por um pediatra até que o menino desmaiou na escola. "Quando soubemos que teria que fazer a cirurgia para correção de fluxo, ficamos com medo, mas confiamos neles", disse ela, feliz com o resultado.

O garoto, que teve que antecipar as férias da escola, se recupera bem. Ele passou cinco dias internado na UTI e a expectativa é de que possa ter uma vida tranquila. "Isso foi dito pelos médicos e acreditamos", afirma, sorrindo, Edvaldo.

Já o bebê Leonardo, segundo os médicos, está recebendo todos os cuidados necessários para, em breve, ter corrigida a Comunicação interventricular (CIV). Ao chamar a atenção para a problemática, os médicos observam a importância da detecção desses problemas ainda na infância, porque após essa fase da vida, algumas patologias tornam-se irreparáveis. Daí a importância de ampliar os serviços na rede pública e particular de saúde.

95% dos diagnósticos de doenças cardíacas em crianças são fechados com um exame de ecocardiograma, que é uma ultrassom do coração. Quando o problema é cirúrgico, esse procedimento dura em média três a quatro horas.

A obrigatoriedade da realização do teste do coraçãozinho (oximetria de pulso), em todas as maternidades de Manaus é a proposta defendida pelo pediatra e neonatologista Alexandre Miralha, 42. Com este exame, é possível detectar alterações na oxigenação do sangue, situação sugestiva de doença grave na criança, que pode ser confirmada por uma ultrassonografia do coração (ecocardiograma). O equipamento, segundo ele, já existe nas maternidades, mas só é usado em bebês internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI).

O que ele preconiza é a realização do exame nos bebês saudáveis, no período em que eles ficam internados na maternidade, pois um exame clínico, ainda que bem feito, pode deixar sem ver doenças graves que, se não forem diagnosticadas logo, implicam em mortalidade, afirma o médico, citando entre as doenças graves do coração, um defeito congênito conhecido como “Tetralogia de Fallot” e a transposição das grandes artérias, que são resultado da má formação do coração e só se manifestam após 48 horas de vida, quando a mãe já teve alta.

“Isso vai reduzir os casos evitáveis de morte de bebês”, completa Miralha, que é professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Universidade Nilton Lins.

Recomendação

Ao revelar fazer o exame em 100% dos bebês nascidos numa maternidade particular onde trabalha, ele diz que a oximetria de pulso é recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), da mesma forma como são feitos os testes do pezinho e da orelhinha.

Por ser um teste simples, indolor e feito por um aparelho disponível nas maternidades, Alexandre afirma faltar apenas uma mudança de atitude do profissional e da direção da unidade em enxergar a melhor forma de adotar o exame na rotina hospitalar. É um teste que não substitui outros exames para detectar doenças do coração, como o ecocardiograma, mas é importante para confirmar uma alteração e assim oportunizar o tratamento imediato, finaliza o médico.