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Playboys do tráfico: jovens de classe média viram traficantes em Manaus por ‘status’ e diversão

No meio da classe média e alta existem jovens que atuam em universidades, shows, raves e bares, intermediando a venda de drogas 23/04/2015 às 13:58
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Criminosos ou vítimas? Jovens de classe média alta também se envolvem com o tráfico de drogas
Luana Carvalho Manaus (AM)

“Eu não me preocupo em ir pra balada com ‘grana’. Levo algumas coisas (drogas) e aonde eu chego tem gente querendo comprar”. Fabrício* nasceu em berço de ouro: estudou em escolas particulares, fala inglês e cursa faculdade de publicidade e propaganda. Filho de empresário, o jovem se envolveu com o tráfico de drogas aos 19 anos. A carteira de clientes é composta principalmente por universitários e amigos.

Engana-se quem pensa que apenas jovens de classe social baixa exercem a função de “aviõezinhos do tráfico”. No meio da classe média alta existem jovens que atuam em universidades, shows, raves e bares, intermediando a venda de drogas. A maioria também oferece o serviço ‘delivery’, como é o caso de Fabrício. “Entrego para os amigos mais chegados. A maioria pede para deixar em casa ou em alguma festa”, relatou.

O universitário diz que pensa em parar de vender drogas e relembra como se fosse ontem como tudo começou. “Sempre fumei maconha. Alguns amigos que não tinham ‘contatos’ sempre pediam para eu armar (comprar) para eles também. Na hora da divisão eu sempre ficava com mais. Era pra compensar o esforço de ir na ‘boca’. Quando vi que dava pra ganhar dinheiro, passei a vender também”, contou o jovem, hoje com 25 anos.

Sintéticos

Além de maconha, o que mais atrai os jovens “endinheirados” são as drogas sintéticas: ácido lisérgico, conhecido como LSD ou “doce”, extasy (bala, pastilha, stacy e helena), metilenodioximetanfetamina (MDMA) - que é o ecstasy em sua mais pura composição - e cristal meta (metanfetamina também conhecido como MD).

Apesar de pouco conhecidas pela população, as substâncias podem ser facilmente adquiridas em festas de música eletrônica. Um ‘papel’ de LSD é vendido entre R$ 40 e R$ 50. Já a grama de MDMA, que pode ser vendida em pó ou em forma de ‘cristal’ chega a custar até R$ 150.

“Festinhas”

As drogas sintéticas foram por muito tempo o ‘carro chefe’ de Daniel*, que sempre levou uma ‘vida boa’. Festas, roupas de marca e viagens para o litoral eram constantes na vida dele e do irmão mais velho, com quem fumou o primeiro ‘beck’ (cigarro de maconha), aos 14 anos. “Meu irmão começou a vender e sempre foi uma espécie de ídolo para mim. Ver todas aquelas pessoas reunidas em torno dele me fascinava”, conta.

O irmão dele casou, parou de traficar e aconteceu o que ele projetava. “Eu já tinha 17 anos e conhecia toda a galera do esquema. Todos os contatos dele passaram a ligar pra mim. Com o dinheiro eu fiz algumas viagens, comprei muita roupa e, claro, todo tipo de droga”.

Daniel conta que passou a ser ‘prestigiado’ entre produtores de ‘festinhas’ no estilo ‘rave’ em Manaus. “Chegava na festa com moral e abastecia a ‘playboyzada’. Rolava muita droga e muita ‘grana’, mas eu gastava quase tudo bancando meus amigos na própria festa”.

Para movimentar a venda de droga, ele também decidiu investir em produção de festas. “Eu percebi que esse negócio de droga sintética e música eletrônica podia dar certo”.

Do paraíso ao inferno

Ele confessa que gostava do estilo de vida que levava. Nunca foi preso, mas já escapou da morte. “Curti muito até o dia em que levei um tiro sem ter nem porquê. Estava indo para uma festinha quando dois carros me fecharam, um cara desceu apontando uma arma. Implorei para não me matarem. Ele só me deu um tiro na coxa. Entendi como um aviso. Passei uma semana no hospital, mudamos de casa, mudei meu número de celular. Com o tráfico não se brinca”.

A realidade dos “traficantes de classe média” ganhou destaque depois do fuzilamento do brasileiro Marco Archer, que viveu 25 anos traficando drogas pelo mundo e morreu fuzilado pelo governo da Indonésia, condenado por tráfico internacional de cocaína. A vida desregrada de Archer, regada a luxos e drogas, é tida como um “sonho de consumo” por muitos jovens traficantes, como Fabrício e Daniel.

Doutora em psicologia, Iolete Silva, acredita que jovens buscam poder

"Os jovens buscam poder e espaço onde se realizem. A questão do ‘eu desafio as regras’ é um fator que o leva à auto-realização. A maioria dos jovens de classe média e alta que se envolvem com o tráfico estão em busca de uma atividade onde possam estar à frente dos outros, onde ele exerce um tipo de poder e liderança; às vezes até por fascínio sobre outros jovens desses grupos. Isso se alia a uma falta de boas referências em termos de valores morais e éticos. Muitas vezes, por serem de classe média e alta, acabam ficando isentos de limites, de um acompanhamento mais rígido. Às vezes a família se preocupa muito em oferecer boas escolas, diversão, cuida do que acha importante pro futuro do jovem, mas esquece da educação moral. As instituições sociais impõe limites éticos, mas a família é responsável por dizer o que é certo e o que é errado”.

Depoimento de Marco Archer antes de ser executado

"Sei que errei. Meu sonho é voltar ao Brasil e expor meu problema para jovens que estão pensando em se envolver com droga. Quero dizer para não cometerem o mesmo erro. A droga só leva a dois caminhos: a prisão ou a morte”. A declaração emocionada é do carioca Marco Archer Cardoso Moreira, em um vídeo gravado antes de ser executado na Indonésia, na semana passada.

Ele é um dos “exemplos” de traficantes de classe alta. Levou uma vida que jovens envolvidos com tráfico almejam: festas, mulheres, carros de luxo, viagens paradisíacas e exagerado consumo de drogas. Morreu fuzilado aos 53 anos, condenado por tráfico internacional de drogas pela Justiça da Indonésia. De uma tradicional família amazonense, Marco confessou à jornalista australiana Kathryn Bonella, no livro “Snowing in Bali”, que traficou drogas pelo mundo durante 25 anos.