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Manaus
Degradação

Poluição está 'matando' o Igarapé da Bolívia, na Zona Norte da cidade

Curso d’água sofre com a falta de saneamento básico e a pressão urbana representada pelas invasões de terra 18/07/2017 às 05:00
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Foto: Winnetou Almeida
Álik Menezes Manaus (AM)

Reflexo da ocupação desordenada, igarapés da cidade estão cada vez mais poluídos e nem de longe lembram os balneários que os manauenses frequentavam há algumas décadas. O Igarapé da Bolívia, localizado na Zona Norte, por exemplo, tem índice de poluição impressionante.

O doutor em Química e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Sávio Filgueira explicou que a poluição do Igarapé da Bolívia começa dentro da Reserva Florestal Adolpho Ducke, localizada no bairro Cidade de Deus, após se encontrar com outro riacho, que leva a sujeira produzida e descartada de forma inapropriada por moradores de comunidades formadas a partir de invasões há vários anos. “A água que tem nascente dentro do bairro Cidade de Deus causa bastante dano ao Igarapé Bolívia porque vem bastante poluída, ou seja, esse igarapé recebe água suja e sai poluído da reserva”.

Ao longo do curso, recebe mais águas poluídas ao passar pelos bairros Nova Cidade e Santa Etelvina, mas a situação se agrava ainda mais quando recebe águas de um outro riacho que passa próximo do aterro sanitário da cidade. “Essas várias águas poluídas desembocando no Igarapé da Bolívia tendem a deixá-lo cada vez mais poluído e a situação se torna cada vez mais grave”, alertou. 

Segundo dados coletados durante dois anos de pesquisa de Filgueira, em uma escala de 0 a 1000, o pequeno riacho tem  nível de poluição dentro área urbana em cerca de 1000%. As informações fazem parte do artigo “Processo de Degradação de Recursos Hídricos em Áreas sob crescimento Urbano no Município de Manaus”, que ainda será publicado. “Está muito poluído, mas ainda há jeito de salvar esses recursos hídricos”, disse o pesquisador. 

Apesar do alto índice de poluição e degradação, Sávio Filgueira  defende que ações na área de saneamento básico, esgotos, políticas de moradia e conscientização são o caminho para tentar salvar os igarapés urbanos. “São trabalhos que devem ser feitos em conjunto, muito trabalhoso e caro, mas é possível, sim. Temos como exemplo o rio Sena (na França), que hoje as pessoas tomam até banho”, disse ele.

Testemunhas oculares

O Igarapé da Bolívia foi um dos balneários mais frequentados na cidade há pelo menos quarenta anos. Segundo o mecânico Carlos Motta Silva, 55, o programa de família na infância dele era a Ponte da Bolívia na AM-010. “Até hoje ainda guardo na memoria, meus tios e primos pulavam lá do alto da ponte para dentro do rio. Bons tempos”, recordou.  

O vendedor de frutas Ícaro Teixeira, 18, que trabalha próximo a ponte, disse que diariamente pessoas jogam lixo nas margens e até dentro do igarapé. “O pessoal não se intimida não. Jogam até animais mortos lá dentro, param o carro e jogam. Se falar alguma coisa, a gente corre até risco de ser agredido”, contou.

Troca-troca de responsabilidade

O Portal A Crítica entrou em contato com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) para saber se há projetos que contemplem a despoluição do igarapé da Bolívia, mas secretaria informou que não há nenhum projeto sobre o caso e transferiu a responsabilidade à Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema). A Sema, por sua vez, informou que a responsabilidade pelos igarapés é do Município de Manaus.