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População em busca do ‘conforto verde’

Amazonenses relatam que preferiram morar em locais mais afastados em detrimento de uma maior qualidade de vida 09/09/2012 às 15:44
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O mecânico Cyleno Veras, 55, que mora na rua conhecida como “Baixada Fluminense”: “Isso aqui é uma maravilha, temos a harmonia e o conforto que a natureza, diferente do Centro, que é quente”
Náferson Cruz Manaus (AM)

Morar em um local tranquilo, que proporciona uma melhor qualidade de vida e bem-estar, além de possuir uma vista privilegiada é um diferencial para quem optou por residir próximo as áreas verdes. Foi avaliando esses conceitos e pensando no bem-estar, que, Ana de Almeida e Silva, uma senhora de 82 anos, preferiu deixar sua residência no bairro do São Raimundo, Zona Oeste, hoje, carente de arborização, para morar com o filho em uma casa localizada na rua Sete, no Conjunto Renato Souza Pinto 1, Cidade Nova, Zona Norte, próximo a uma área verde.

Para dona Ana, como costuma ser chamada, o local é bastante tranquilo, semelhante ao modo de vida dos ribeirinhos. “Estou morando há quatro anos nesse conjunto e há uma diferença enorme de onde morava para onde estou agora: aqui os veículos não circulam com intensidade, sem falar do clima mais ventilado”, disse.

Porém, muito antes de dona Ana ter se mudado, na década de 90, o conjunto Renato Souza Pinto sofreu com o desmate da vegetação, decorrente das invasões. Na época, ao perceber como o reflorestamento da área era essencial para recuperar o ambiente, o coordenador geral da Coordenação Amazônica da Religião de Matriz Africana e Ameríndia (Carma), Alberto Jorge Rodrigues da Silva, filho de dona Ana, passou se dedicar à defesa da preservação do local, que, mais tarde, se transformaria em área verde.

Agressão

Entretanto, defender a floresta tem seu preço. Alberto conta que chegou a ser agredido em 2002, durante uma tentativa de invasão do local. “Tive que desembolsar quase R$ 8 mil para reconstituir parte do meu rosto em decorrência das agressões”. Apesar do perigo que o cercava, Alberto jamais pensou em desistir do seu senso prático e ecológico. “Foi com muita luta que conseguimos, junto ao Ministério Público Estadual (MPE), fazer com que o local se transformasse em área de preservação”, contou. O coordenador da Carma, lembra que logo depois do desmate da área, fizeram do local um campo de futebol, mas, em seguida, com o aval da Justiça, o espaço voltou a  ser repovoado com o plantio de árvores frutíferas. “Uma árvore, principalmente a mais antiga, para nós, é uma divindade, portanto, temos maior zelo por elas”, enfatizou.

Na área verde do conjunto Renato Souza Pinto 1, um grupo de pessoas vinculadas ao Carma, realiza a limpeza do local, com a retirada de garrafas pets, sacos plásticos, entre outros resíduos sólidos, além de regar as árvores.

Próximo dali, na rua Guaianás, mais conhecida como “Baixada Fluminense”, no bairro da Cidade Nova 1, Zona Norte, o mecânico Cyleno Veras, 55, diz que pretende morar naquela área pelo resto da vida. O local dispõe de áreas verdes bem cuidadas, um parque infantil e uma área para caminhadas, além de proporcionar conforto térmico e paisagístico. Veras, assim como seus vizinhos de áreas verdes, têm o mesmo discurso: a vegetação melhora a qualidade de vida dos moradores.

Manutenção


Área verde na rua Sete do Conjunto Renato Souza Pinto teve luta de um grupo de  moradores para se manter “em pé” (Foto: Evandro Seixas)

A área verde é obrigatória em todo projeto de loteamento. O tamanho delas pode variar de 5% a 18%, dependendo do terreno. Os condomínios não têm essa obrigação, porém têm que ter áreas arborizadas.

Dias contados

A convivência dos moradores da Cidade Nova 1 e do conjunto Renato Souza Pinto 1 e 2, com as áreas verdes estão com os dias contados. Isso porque um trecho da Avenida das Torres, ainda em construção, vai ocupar parte das respectivas áreas.

Áreas serão identificadas

Há dois anos, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) vem realizando um diagnóstico georeferenciado realizado pela Divisão de Geoprocessamento do Departamento de Gestão Territorial e Ambiental para identificar a quantidade e o estado de manutenção das áreas verdes em Manaus.

Outra preocupação da Semmas está em sinalizar as áreas com a instalação de placas com informações sobre o Código Ambiental do Município, lei 605/2001. A expectativa é de que o projeto seja finalizado, até dezembro deste ano, quando a Semmas pretende lançar um atlas ambiental inédita, contendo todas as áreas verde da cidade.

O secretário da Semmas, Marcelo Dutra, ressalta que as áreas verdes têm um papel importante para o equilíbrio climático da cidade e as placas deverão orientar os moradores sobre a real destinação daquele espaço, além de despertar para a necessidade de preservação dos mesmos. “Um dos princípios do monitoramento é a identificação dos locais com placas de advertência”, afirmou o secretário.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda ao menos 12 metros quadrados de área verde por habitante.