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População que sofre com a cheia mostra que sabe "aproveitar" o momento para se divertir

Cientistas do Inpa analisam índice de comportamento do Oceano Pacífico, cujas fases frias e quentes têm reflexos nas cheias amazônicas. Segundo eles, o oceano passa por uma fase fria que, se continuar, vai tornar as cheias mais frequentes 20/05/2012 às 12:27
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Em 1953, população passeava, de barco, em frente ao prédio da Alfândega
Ana Célia Ossame Manaus

Além dos fenômenos El Niño e La Niña, que interferem nas cheias e vazantes dos rios amazônicos, dois cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) analisam um outro índice, do Oceano Pacífico equatorial, que é a oscilação Decadal cujas fases frias e quentes têm duração de 20 a 30 anos. No período de 1935 a 1945 do século passado houve uma fase fria, o que contribuiu para cheias como a de 1953, a maior até a ocorrência da de 2009.

“Agora, estamos entrando uma fase fria do Pacífico, ou seja, se esse frio continuar, as cheias poderão se tornar mais frequentes”, advertem os pesquisadores Maria Teresa Fernandez Piedade, 60, e Jochen Schongart, 43.

Doutora em ecologia, Maria Teresa, mais conhecida como Maitê, e Jochen, doutor em florestas, trabalham num grande projeto de análise de mais de 6 mil árvores na bacia amazônica, com o objetivo de reconstruir as informações sobre o chamado “pulso” das águas, ou seja, a subida dos rios. “Analisamos o crescimento de árvores dos igapós, em terras pretas, a partir dos caules. Nossa meta é fazer a análise dos últimos 400 anos para ter informações sobre a variabilidade natural desse regime”, disse ela, explicando que, a partir do momento em que se tornarem conclusivas, as pesquisas vão indicar se esses eventos são regidos por forças naturais ou e se são fruto da interferência do homem na natureza.

 Ao citarem análises em árvores amazônicas com mais de 400 anos, que revelam não só as marcas deixadas pelas águas, mas também os tipos de sedimentos trazidos por elas dos Andes, que é uma região jovem se comparada à Amazônia, Maitê e Jochen afirmam que saber ler e interpretar essas informações dará parâmetros para se chegar a conclusões mais precisas sobre as alterações nessas áreas.

A pesquisa, segundo Maitê e Jochen, tem que estudar outras bacias e cabeceiras de rios para entender melhor se esses eventos mais fortes já são manifestação de mudanças climáticas causadas pelos serem humanos. “Como os registros existentes são de 107 anos, feito no Porto de Manaus, precisamos de mais informações para saber, por exemplo, quais os pulsos das inundações anteriores”, revelou o pesquisador.

Para Maitê, não é possível ver qualquer benefício numa enchente como a deste ano, que só pode ser comparada a uma catástrofe, pois em nada vai favorecer a população e nem a natureza, na medida em que os sedimentos importantes trazidos dos Andes ficarão presos nas partes inferiores das planícies alagadas ou se perderão diluídos nas muitas águas.

Outro fator lamentável, para ela, é quantidade de famílias atingidas. “As perdas econômicas e sociais são enormes”, garante. Nesse aspecto, tanto Maitê quanto Jochen lembram os alertas dados sobre a intensidade da cheia deste ano, feito com dois meses de antecedência, pelo Inpa, divulgando resultado das medições feitas pelos cientista e indicando que a cota chegaria à casa dos 30 metros. “A ciência tem ferramentas que nos permitem saber da ocorrência de eventos como esse com esse período de antecedência. Apresentamos isso em meios científicos e em órgãos do governo, tanto federal, estadual e municipal, mas as ações só aconteceram quando as famílias já estavam com a água dentro de casa”, afirmaram. Maitê e Jochen lamentaram que as informações, agora confirmadas, não provocaram ações do poder público de ordem preventiva, mas apenas mitigadoras.

Ciência deve ser ferramenta
Os pesquisadores do Inpa, Maitê Piedade e Jochen Schongart afirmam que a ciência é uma das ferramentas à disposição dos políticos para se antecipar à remoção de pessoas no caso se catástrofes como a enchente deste ano. Além disso, serve para evitar perda total dos cultivos em áreas de plantios, fato que há já está sendo utilizada pela Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS) e outros órgãos como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama).

Cada vez mais, dizem Maitê e Jochen, se torna imperativo prestar atenção nos sinais da natureza. Apesar de extremos, eles têm sido cada vez mais claros. Exemplo disso, segundo Jochen Schongart é a constatação de que em 25% dos casos, o pico da cheia Cota A última medição feita apontou o rio Negro com 29,81m, na sexta-feira. Apesar da redução do ritmo de subida das águas, que no início da semana era de 3cm/dia, a enchente deve continuar até meados de junho.