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Manaus
APRESENTADOR

‘Prefiro pagar esse preço a trair os meus princípios’, diz Wilson Lima após saída do PR

Afirmando que não poderia caminhar ao lado de pessoas que envergonham a política do Estado, o vice-presidente estadual da sigla pediu desfiliação 25/06/2017 às 05:00
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(Foto: Arquivo AC)
Janaína Andrade Manaus (AM)

Uma das apostas de renovação do PR no processo eleitoral de 2016, o jornalista e apresentador do programa Alô Amazonas,  Wilson Lima, abriu mão do posto  de vice-presidente estadual da legenda e decidiu pedir sua desfiliação por discordar do ingresso do partido  na aliança com o PMDB, que lançou a chapa Eduardo Braga e Marcelo Ramos ao governo do Amazonas.

Na semana passada, Wilson anunciou sua decisão e fez críticas diretas e indiretas à decisão de Alfredo Nascimento e Marcelo, com quem chegou a dividir chapa na pré-campanha do ano passado. Confira trechos da entrevista concedida pelo apresentador ao jornal A CRÍTICA.

Outros apresentadores já fizeram esse caminho da TV para a política. Você se vê como um deles?

Acho que a minha situação é diferente. Não vim para os meios de comunicação visando obter algum tipo de vantagem ou algum tipo de simpatia das pessoas. Meu sonho, desde os 13 anos de idade,  sempre foi trabalhar no rádio. A TV foi uma consequência. Vim da atividade jornalística e comecei a fazer um tipo de programa que jamais imaginaria fazer. E comecei a me envolver tanto que acabei ganhando o prestígio das pessoas e então entendi que eu poderia intervir nessa realidade, poderia ajudá-las.

E como foi que você se interessou pela política?

Sempre tive muita dificuldade em fazer matérias de comunidades e não me envolver. Eu não conseguia acompanhar o sofrimento de uma senhora tentando conseguir atendimento num posto de saúde e ir para casa dormir em paz. Chega o momento que tu não pode se esquivar. Às vezes uma informação que você dá pode mudar a vida daquela pessoa, e aí as coisas foram acontecendo muito naturalmente. Nunca sonhei em ser político, nunca foi meu sonho. Mas acho que o que eu construí até hoje me credencia para isso.

 Antes de você ser do PR, foi de outro partido?

Antes eu fui do PV, só que eu não tinha uma participação efetiva. Eu acompanhava tudo bem mais de longe e sempre tive uma aversão muito grande a partidos políticos e à política propriamente dita. E decidi sair do PV no momento em que comecei a conversar com pessoas perto de mim e a entender que eu poderia fazer alguma diferença, que eu podia fazer parte de um projeto que representasse uma mudança. Em 2016, acreditei que poderíamos quebrar um ciclo de governança de um único grupo que está aí há 20 anos, sempre se alternando entre eles.  É como um clube em que só são tratados interesses particulares, interesses do grupo e não de quem mais interessa nesse processo que é o eleitor. Então eu embarquei num projeto que acreditei que a gente poderia mudar as coisas.

E no PV não havia essa possibilidade?

O PV não é organizado. Não senti a segurança necessária para sair candidato. Eles me convidaram em 2012 para concorrer a vereador e em 2014 para concorrer a estadual, mas não senti segurança. Em 2016, eu fui para o PR, onde me senti seguro quanto a proposta que me apresentaram. Eu e o Marcelo começamos a conversar, ele me fez o convite e foi assim que eu tomei a decisão de ir para o PR.

Mas você sabia que o líder do partido é do grupo que você acabou de criticar, não?

Claro, claro. O PR é um partido que tem como presidente nacional o deputado federal Alfredo Nascimento, mas o gesto que ele fez em 2016 foi algo que você não vê em outros líderes políticos. Ele colocou o partido à serviço de um projeto de renovação. A  leitura que a gente fez naquele momento foi de que o Alfredo estava começando a entender que chegou a hora da transição, que chegou a hora de formar novos líderes. E a gente apostou nisso. O que a gente vê aí são políticos que querem ir para cova, mas querem levar o poder junto.

Você não tem medo de agora lhe verem como oportunista?

Não. Não sei se o fato de eu ter a credibilidade, ter a atenção das pessoas, pode se traduzir em algo ruim ou desonesto. Acho que não. Quando alguém diz que estou saindo em vantagem em relação aos outros a minha resposta é que trabalhei para chegar aonde estou, porque tem muita gente que aparece na televisão e de repente não tem o mesmo prestígio. O que consegui foi baseado em muito trabalho. Tem muitas pessoas que só veem corrupção na política... Muitas pessoas de bem não estão dispostas a partir para esse mundo, mas não tem outra forma de você mudar esse mundo. Enquanto você não partir para uma ação, não adianta que a coisa não muda.

A TV é um trampolim político?

Não vejo assim. A televisão tem uma força muito grande, mas as pessoas hoje têm uma consciência muito maior. As pessoas conseguem entender quem está na TV se expondo para conseguir algum tipo de vantagem ou beneficio. É claro que a TV é a maior vitrine que se pode ter. A TV é um instrumento que você pode conseguir passar a sua mensagem, como pode também expor algo que vai se voltar contra você. As pessoas conseguem hoje fazer uma leitura e detectar quais são as suas intenções.

Que diferença o senhor acredita ter em relação a outros xerifes eletrônicos?

Eu não sou xerife eletrônico. Vim aqui para fazer um trabalho, que desde cedo entendi que queria estar aqui, na rádio e depois, por consequência, na TV. Meu sonho sempre foi ser aquele jornalista de bancada. Sempre disse pra mim que jamais apresentaria um programa no estilo do que eu apresento. E hoje é o que eu faço e não me vejo fazendo outra coisa. O Alô Amazonas é algo que me dá uma proximidade muito grande com as pessoas, é algo que me dá uma realização muito grande mesmo.

Você já chegou a atuar como militante em alguma ocasião?

Nunca exerci nenhuma atividade de militância. Nunca pensei em ser político. Essa nunca foi a minha ideia e eu não tenho isso como aspiração na minha vida. Agora, entendo que o que eu fiz até hoje me permite que eu entre nesse processo. E acho que tenho uma contribuição muito grande para dar.

Como você avalia a aliança entre Marcelo Ramos e Eduardo Braga?

Eu acho um negócio muito complicado. É difícil entrar na minha cabeça e entender uma situação dessa. Muita gente me disse ‘Ah, Wilson, isso é normal, isso é da política!’.  As pessoas têm que parar com isso. Isso não é normal e não é da política. Imagina que o Marcelo Ramos passou quase 20 anos da vida pública dele combatendo esse tipo de prática e de repente se alia e se rende a uma situação como essa. Acho que você acaba perdendo o seu discurso e a linha. Você acaba se tornando mais do mesmo, e só com “mais do mesmo”, a gente não muda nada. Dificilmente a gente vai dar outro rumo para a política, o estado, a cidade, se a gente continua se aliando as velhas práticas, a vícios condenáveis.

Qual foi o start para você decidir sair do PR?

O momento em que as alianças foram feitas, as coligações foram seladas. Eu não entendo que a coisa tenha que ser assim. Conversei com pessoas próximas a mim, não é um decisão fácil, sei que vou pagar um preço caro por isso, mas eu prefiro pagar esse preço a trair meus princípios.

 Você já sabe para qual partido vai?

Ainda não sei. Olha só, eu não acho os partidos ruins, o problema são as pessoas que estão lá e que não tem a sensibilidade, o caráter necessário que a política exige. Eu vejo hoje o cenário muito nebuloso, mas tenho esperança que um dia a gente pode mudar isso e uma hora vou achar esse partido que tenha pensamento de mudança, de renovação, que tenha a mesma vontade que eu tenho de romper esse ciclo, porque essa geração é a nossa e que tem que ter a nossa casa. Ainda não parei para pensar para qual partido eu vou, por enquanto eu estou frustrado.

Como você se sentiu, ano passado, aos ser substituído em cima da hora pelo deputado Josué Neto?

A minha maior preocupação naquele momento foi dar explicação para as pessoas. Eu estava muito tranquilo comigo e acreditava naquele momento que a aliança que a gente tinha feito era a coisa correta. Eu enfrentei aquele processo com muita tranquilidade, apesar de ter tido uma rejeição muito grande por parte das pessoas, por parte do eleitor. Eu nunca havia sido candidato, nunca tive um voto e aí de repente estava numa sala onde havia mestres na política, onde tem um senador, um deputado federal, outro estadual e cada um dizendo uma coisa. Claro que chegou um momento onde eu pensei: o que que eu estou fazendo aqui? Participei de todas as conversas, viramos madrugadas conversando com um, conversando com outro. E eu saí da eleição de cabeça erguida e de consciência limpa.

Que coisas que viu durante a campanha de 2016 e não repetiria?

Eu acho que a gente tem que continuar com o nosso discurso de mudança. Não tem como mudar se a gente caminhar do lado de pessoas que não querem essa mudança. Não adianta você estar adotando práticas antigas, velhas e querer o novo. Em nenhum momento me foi imposto algo que eu não quisesse fazer.

Quando o Alfredo lhe colocou como vice-presidente estadual do PR, você esperava ter mais gerência?

Neste processo agora em nenhum momento eu fui procurado, não participei de nada, de nenhuma conversa. Não participei da escolha dessa composição. Eu conversava com o Marcelo, com o Alfredo, e quando a coisa começou a esquentar, as composições começaram a ser feitas, fiquei afastado do processo, não fui procurado e não fui atrás. Mas eu confiei no grupo.

Por que?

Porque pensei que a gente saiu do processo eleitoral de 2016 um pouco desgastado pelo fato de que nos aliamos a pessoas que fazem parte da velha política. Então imaginei que isso não se repetiria. Só que não foi o que aconteceu. E penso que não foi a melhor decisão. A gente lutou tanto, o próprio Marcelo esbravejou tanto contra essa situação, contra pessoas que fazem mal uso dos recursos públicos e de repente eu apareço andando com essas pessoas que envergonham a política do nosso Estado, que envergonham a nível nacional? Não tem como.

Do Marcelo que você conheceu, o que mudou agora?

Eu acho que não tem muita diferença. Eu acho que essa foi a decisão mais difícil da vida dele e na essência ele não muda, mas é muito complicado ele usar o discurso que ele está usando, porque a essência dele não muda. Ele continua sendo meu amigo,  uma pessoa que eu tenho uma consideração muito grande, mas politicamente os nossos destinos tomaram rumos diferentes.

Perfil
Nome: Wilson Miranda de Lima
Idade: 40 anos
Estudos: Comunicação Social - Jornalismo na Universidade Nilton Lins
Experiência: Desde fevereiro de 2002,  trabalha na Rede Calderaro de Comunicação (RCC), tendo iniciado na rádio e em seguida na televisão, onde apresenta os programas Manhã no Ar e Alô Amazonas.

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