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Manaus
VITÓRIA

Projeto internacional ‘Aula Digital’, que chega a Manaus, melhorou a educação no Quênia

Professores do segundo país mais desenvolvido da África revelam que a educação digital vem mudando os indicadores das escolas 22/03/2018 às 06:45 - Atualizado em 22/03/2018 às 11:25
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(Foto: Ismael Martínez Sánchez)
Mônica Prestes - Especial para A CRÍTICA Nairobi, Quênia*

O que une os estudantes Willys Omondt, Victor Johnson e Mark Wandimi vai bem além das brincadeiras e desejos de pré-adolescentes que eles têm em comum. Desde que nasceram, há 13 anos, eles vivem no “caos”. Esse é o significado, em português, do nome da região em que eles moram, Korogocho, um distrito pobre que engloba sete bairros, localizado a 11 quilômetros da capital do Quênia, Nairóbi. Ao percorrer as vielas tomadas por lixo, esgoto a céu aberto e barracas onde se vende tudo que pode ser reaproveitado – e às vezes até o que não deveria, constata-se que o nome lhe cai bem.

Pudera: as comunidades surgiram no entorno do maior lixão a céu aberto do Quênia, o segundo país mais desenvolvido da África, mas que ainda luta contra mazelas sociais - típicas de uma nação de terceiro mundo que conquistou sua independência há “apenas” 55 anos - agravadas por uma epidemia de Aids que devastou sua população até meados da década de 1990. Um dos resultados desse cenário é Korogocho, com seus mais de 150 mil habitantes, 70% deles com menos de 30 anos de idade. A total ausência de investimentos em infraestrutura, saúde, educação e segurança transformou Korogocho em uma gigantesca favela dominada por narcotraficantes e gangues que, fortemente armadas, controlam o acesso de catadores ao lixão e cooptam crianças e adolescentes para organizações criminosas.

Parte dessas crianças e adolescentes estudam na Escola São José, uma das poucas de Korogocho, que, desde 2016, passou a oferecer aulas digitais por meio do programa ProFuturo a 750 estudantes, entre eles Willys, Victor e Mark, alunos da classe 8. Os três, que nasceram e cresceram na favela, tiveram o primeiro contato com a tecnologia na escola. “Nunca tinha tocado em um tablet. Já tinha visto, mas nunca usado. E é o que eu mais gosto nas aulas, ninguém mais falta aula”, brincou Willys, que quando não está na sala de aula está na biblioteca da escola ou em casa, cuidando dos três irmãos menores. Ele garante que não frequenta mais o lixão. “Não tenho tempo porque, quando não estou em casa ajudando minha mãe, estou na escola”, disse o jovem, que sonha ser professor. Colega de classe, Victor quer ser engenheiro e aposta na educação digital como um “reforço” no preparo dele em busca de uma vaga nas universidades. “Agora temos mais chances porque aprendemos uma nova habilidade”, explica Mark, que descobriu no programa mais do que uma nova tecnologia: ele escolheu sua futura área de atuação – tecnologia da informação. “Após as aulas nos tablets eu me interessei por computação e pelo trabalho dos técnicos que dão suporte aos professores. Decidi que também quero fazer isso, quero ajudar a levar o mundo digital a mais crianças na África”, contou, orgulhoso, o jovem estudante.

Professora de inglês do trio, Lucy Murugi Nyaga, 29, conta que eles venceram um ciclo vicioso que imperava por lá: pobres e sem oportunidades, muitos estudantes acabavam entrando para gangues e sendo mortos em confrontos com outras gangues e com a polícia. Enredo familiar para muitos brasileiros que vivem em comunidades carentes e controladas pela criminalidade nas grandes cidades. “Ainda hoje é muito difícil vencer aqui dentro, mas eles têm cada vez mais oportunidades. A porta do mundo digital que a educação abriu para eles está transformando suas realidades”, disse a educadora.

Mais do que isso, a educação digital vem transformando também os indicadores da escola, revelou o diretor, Maurizio Binaghi. Segundo ele, desde que as aulas digitais começaram a ser implantadas na escola, com a entrega dos equipamentos do ProFuturo, em 2016, as mudanças apareceram tanto dentro como fora da sala de aula. “Os alunos passaram a se interessar mais pela escola, porque aqui eles têm acesso a uma coisa que eles não têm em casa ou na rua: os tablets, internet, interface... O resultado foi a redução das ausências e da evasão, além de um apoio dos pais, que agora incentivam os filhos a frequentar as aulas para não perder a vaga na única escola da região que oferece educação digital”, explica Binaghi, que revelou ainda que a lista de espera por vagas na escola passa de 200 crianças.

Como prevê a metodologia do programa Profuturo, as salas de aula foram dotadas de um sistema que inclui tablets para os alunos, um roteador móvel, projetor e um notebook para os professores, que antes da chegada dos equipamentos recebem um treinamento para aprender a lidar com as novas tecnologias e aplicá-las no processo de ensino-aprendizagem. Para alguns deles, inclusive, esse foi o primeiro contato com esse tipo de tecnologia, caso de Philip Otieno, 30, que usou um tablet pela primeira vez no treinamento do Profuturo. “Assim como meus alunos, ainda estou aprendendo. E, como eles, empolgado. Um projeto como esse é um alento para nós, professores de escolas carentes como a nossa. Uma pena ser restrito a iniciativas como essa do Profuturo, deveria ser um projeto dos governantes, não só aqui mas em outros lugares do Quênia, da África e do mundo onde a exclusão digital é uma realidade que ameaça o futuro desses jovens pobres”, desabafou o educador.

Saiba Mais

Além da escola São João, as aulas digitais do Profuturo estão presentes em outras 54 escolas do Quênia, 38 administradas pelos padres salesianos e 17 pela diocese de Kitui, onde fica a Aldeia de Nyumbani, onde vivem e estudam quase mil crianças, todas órfãs após perderem os pais para a Aids. Ao contrário de Manaus, onde o programa está sendo implantado em parceria com a Secretaria Municipal de Educação (Semed) e com a Fundação Vitória Amazônica (FVA), no Quênia as parcerias foram firmadas com instituições de ensino e iniciativas não vinculadas ao poder público.

Números

- 130 mil estudantes da rede pública municipal de Manaus devem ser beneficiados com a entrega dos kits tecnológicos nas 140 escolas participantes, que começa a ser realizado hoje, em uma escola da zona urbana, e segue amanhã, em uma escola ribeirinha, com a presença de executivos dos grupos Telefônica Vivo e La Caixa.

- 7,7 milhões de crianças e adolescentes devem ser beneficiados pelas aulas digitais do Profuturo em 23 países da América Latina, África e Ásia até o fim deste ano. A meta é atender 10 milhões até o final de 2020. Em Manaus, o número de crianças atendidas deve aumentar para quase 190 mil.

- 60% das pessoas entre 15 e 24 anos não têm acesso à Internet na África. Na Europa esse índice cai para 4%. Na América Latina, 46% dos lares não estavam conectados à internet em 2015, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe.

*Repórter viajou a convite da Fundação Telefônica Vivo
 

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